Por
Maria Cândida Monteiro Pacheco
Na sequência de S. Paulo, na sua 1ª Epístola aos Coríntios, (4,15),escrevia Ireneu de Lyon em Adversus Hareses (4,41,2): “Quando alguém recebeu da boca de outrem um ensinamento, é considerado filho daquele que o instruiu e este último pode dizerse seu pai.” E Clemente de Alexandria, em Estromatas (I, I,2-2,1), glosando o mesmo tema, afirma: “As palavras são a progenitura da alma (...): Assim, chamamos pais a todos os que nos ensinam (...) e todo o homem que recebe instrução é, na verdade, filho do seu mestre”.
Estes dois textos, na sua brevidade complexa, realçam, de forma inequívoca a profunda dimensão paidemática da cultura clássica que se transmite ao Cristianismo emergente, trasnmutada pelo sentido inspirado da Nova Revelação – Cristo é Logos – e encaminham-nos, desde logo, para a possibilidade de entendimento abrangente do que pode entender-se por Patrologia e Patrística, na sua dimensão etimológica: a ciência que estuda os Padres –Patêr, pater de que derivam pai e padre.
Poderá dizer-se, então, num sentido tradicional, que Patrologia e Patrística, de significados próximos e aparentemente idênticos, abrangem os autores cristãos primitivos, ortodoxos e heterodoxos, que abordaram temas teológicos, designando também a diversidade totalizante de todos os seus escritos. No entanto, mesmo nesta visão ampla, releve-se, desde logo, que se concede uma atenção especial aos escritores que representam a doutrina eclesiástica tradicional.
Se o termo de Patrologia é utilizado, pela primeira vez, na obra publicada em 1653 pelo teólogo luterano João Gerhard, o facto é que a ideia de uma história da literatura cristã, no seu sentido mais amplo, remonta a Eusébio e à sua História Eclesiástica, o que o torna uma fonte extremamente importante, já que cita escritos desaparecidos posteriormente e autores de que é a única referência. S. Jerónimo, tomando como modelo o De viribus illustris, de Suetónio, escreve o seu De viribus illustris, com propósitos apologéticos de defesa da literatura cristã perante os pagãos. É curioso notar que St Agostinho, sem tomar em linha de conta as inexactidões e as opiniões subjectivas que a obra contém, critica-a, sobretudo, pela não separação dos autores ortodoxos e heréticos.
Na sequência dessa espécie de catalogação histórica, podem apontar-se a obra de Genádio de Marselha, de finais do século V, que tenta completar a obra de S. Jerónimo, embora deixando adivinhar a sua posição de semi-pelagiano; o De viris illustris , de Isidoro de Sevilha, escrito, possivelmente entre 615 e 618, centrando-se,sobretudo em escritores espanhoes; Ildefonso de Toledo, na mesma linha e com menor interesse. Só nos fins do século XI e desvelando a preocupação que começa a despontar pelo conhecimento mais aprofundado da Antiguidade clássica e cristã, encontramos um De viris illustris de Siegeberto de Gembloux, monge beneditino que, aborda, na seqüência de S. Jerónimo e Genádio, os antigos autores eclesiásticos, compondo notícias biográficas e bibliográficas, sobre os teólogos latinos da Alta Idade Média. Podem citar-se, ainda, Honório de Autun que, no início do século XII escreve uma obra semelhante, o De luminaribus ecclesia e o Anónimo de Melk que, já em finais do século XV, publica De scriptoribus ecclesiasticis. Os séculos XVI e XVII são marcados pelo renovar do interesse pela literatura da antiguidade cristã e originam as primeiras grandes coleções de escritos patrísticos e algumas edições individuais que, no entanto, não seguem ainda regras científicas
cursus completus. editada por Migne, que reimprime todos os textos publicados até então. Faz-se sentir cada vez mais a necessidade de edições rigorosas e críticas o que leva ao início da publicação do Corpus Christianorum, abrangendo três séries, a latina, a grega e a oriental, num movimento que se prolonga e continua nos nossos dias, utilizando-se agora os meios informáticos mais recentes (CETEDOC).
Facilmente se constata, pois, que houve sempre, desde os inícios do Cristianismo, a preocupação de conservar os escritos dos autores primitivos e que, desde cedo se tentou traçar uma demarcação entre os autores segundo a linha de ortodoxia que se ia, gradualmente, definindo, Assim, já em 434, Vicente de Lérins, na sua obra Commonitorium, aponta como Padres “aqueles que em todo o tempo e lugar, permaneceram na unidade da fé e foram considerados mestres” e no Decretum Gelasianum de recipiendis et non recipiendis libris, do século VI, elabora-se, pela primeira vez, uma lista de autores cristãos considerados Padres da Igreja. Releve-se que esta mesma perspectiva se projecta na actual definição de Padres da Igreja, na medida em que, se apresentam, como condições necessárias para esta designação a antiguidade, a ortodoxia, a santidade de vida e a aprovação eclesiástica. Nesta ordem de ideias, e num sentido mais restrito, distingue-se Patrologia e Patrística, designando a primeira todos a produção cristã, ortodoxa ou não e Patrística os autores que a tradição eclesiástica considera garantes da fé e da ortodoxia, abrindo-se, assim, a uma História dos Dogmas. Entende-se, ainda, dever fazer-se uma distinção entre Padres e Doutores da Igreja, cumprindo estes todos os requisitos apontados, menos o de antiguidade
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Fonte:
Repositório Aberto da Universidade do Porto