A RELIGIOSIDADE CATÓLICA E A SANTIDADE DO MÁRTIR

Neste artigo, realizo uma reflexão acerca do que denomino religiosidade católica a partir do culto ao santo mártir em duas vertentes: a institucional e a devocional. A primeira, representada pelos papas João Paulo II e Bento XVI, apresenta a ênfase dada ao papel do mártir como modelo de identificação com um projeto coletivo de salvação. A segunda, representada pela valorização do sofrimento da santidade e os aspectos práticos do culto ao santo. O elemento unificador de ambas é a santidade, representada pelas narrativas hagiográficas.

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Fonte:

Revista do Programa de Estudos de Pós-Graduação em História ISSN 2176-2767, v. 37 (2008)

Sérgio e Baco 07 de Outubro

Mártires (†t 297/304)


Diz-se que estes santos eram oficiais do exército romano na fronteira com a Síria. Sérgio era o comandante da escola de recrutas e Baco seu subalterno. Ambos gozavam do prestígio do imperador Maximiano, até o dia em que este se deu conta de que sempre, enquanto ia ao templo de Júpiter oferecer sacrifícios os dois soldados ficavam à porta. Imediatamente os mandou chamar para que tomassem parte da cerimônia. Como se negassem a obedecer, o imperador ordenou que suas insígnias militares fossem retiradas e que fossem vestidos com roupas femininas e levados assim por toda a cidade. Depois os desterrou para Rosafa, na Mesopotâmia, onde o governador mandou que fossem tão cruelmente açoitados que Baco veio a falecer durante as torturas. Seu corpo foi jogado na rua, mas os corvos o protegeram contra a voracidade dos cães. (o mesmo se conta de outros santos). São Sérgio foi obrigado a caminhar um longo trecho com unhas de ferro nos pés, até o local onde foi decapitado. Os martirológios e os escritores eclesiásticos antigos dão testemunho do martírio destes santos, porém os detalhes de sua morte não são fidedignos. No ano 431, Alexandre, o Metropolita de Hierápolis, ordenou restaurar uma igreja que estava sobre o sepulcro de São Sérgio. No século VI, as paredes desta igreja estavam cobertas de prata. Alexandre investiu muito dinheiro na restauração desta igreja e, três anos mais tarde, a região de Rosafa se tornou Diocese, ficando esta igreja fora de sua jurisdição, o que o desagradou muito. Em memória deste santo, a cidade passou a se chamar Sergiopólis. Justiniano a fortificou, honrando particularmente a memória destes mártires. A Igreja de Rosafa era uma das mais famosas do Oriente. Sérgio e Baco, juntamente com Teodoro, Demétrio, Procópio e Jorge eram os patronos do exército Bizantino.
São Sérgio foi martirizado na Cesaréia da Capadócia, no tempo do Imperador Diocleciano. A história do seu martírio é cercada de demonstrações de fé e coragem. Os cristãos tinham convidados pelo governador da Armênia e da Capadócia para uma festa em homenagem a Júpiter e, ao entrarem no salão, foram todos presos e obrigados a adorar o ídolo do Império. São Sérgio reprovou veementemente esse culto e proclamou que somente o Deus vivo, Jesus Cristo, era verdadeiramente digno de louvor. Foi conduzido ao governador, que ordenou imediatamente a sua decapitação. O seu corpo foi recolhido pelos cristãos e enterrado por uma senhora em sua própria casa.

Tradução e publicação neste site
com permissão de:
ortodoxia.org
Trad.: Pe. Pavlos
Fonte:

English Translation of the Greek Septuagint Bible


"A primeira versão das Escrituras do Antigo Testamento, que é sobrevivente, ou de que possuímos qualquer conhecimento certo, é a tradução executado em Alexandria no século III antes da era cristã: esta versão tem sido tão habitualmente conhecido pelo nome da Septuaginta , que a tentativa de alguns homens aprendeu nos tempos modernos para introduzir a designação da versão alexandrina (como mais correto) está longe de ser bem sucedido. A história da origem desta tradução foi embelezada com várias fábulas de tão cedo um período, que foi um trabalho de investigação crítica do paciente em tempos mais tarde para trazer à luz os fatos simples que pode ser considerado como bem autenticados". Leia Septuaginta em Português .
 Sir Lancelot CL Brenton 1851

Veja Também

Salmo 1

1. μακάριος ἀνήρ ὃς οὐκ ἐπορεύθη ἐν βουλῇ ἀσεβῶν καὶ ἐν ὁδῷ ἁμαρτωλῶν οὐκ ἔστη καὶ ἐπὶ καθέδραν λοιμῶν οὐκ ἐκάθισεν

2. ἀλλ' ἐν τῷ νόμῳ κυρίου τὸ θέλημα αὐτοῦ καὶ ἐν τῷ νόμῳ αὐτοῦ μελετήσει ἡμέρας καὶ νυκτός

3. καὶ ἔσται ὡς τὸ ξύλον τὸ πεφυτευμένον παρὰ τὰς διεξόδους τῶν ὑδάτων τὸν καρπὸν αὐτοῦ δώσει ἐν καιρῷ αὐτοῦ καὶ τὸ φύλλον αὐτοῦ οὐκ ἀπορρυήσεται καὶ πάντα ὅσα ἂν ποιῇ κατευοδωθήσεται

4. οὐχ οὕτως οἱ ἀσεβεῖς οὐχ οὕτως ἀλλ' ὡς χνοῦς ὃν ἐκριπτεῖ ἄνεμος ἀπὸ προσώπ

Septuaginta Versao Grega do Antigo Testamto



1. Importância Histórica da Septuaginta

A importância da versão da Septuaginta é representada pelas seguintes considerações:
1.A Septuaginta é a mais antiga tradução do Antigo Testamento e, consequentemente, de valor incalculável para os críticos compreenderem e corrigirem o texto hebraico (Massorético), que é posterior - aquele que chegou até nós - pois foi estabelecido pelos massoretas no séc. VI d.C.. Muitas corrupções textuais, adições, omissões ou transposições foram incorporadas ao texto hebraico entre os séculos III-II a.C. e VII d.C.; assim, os manuscritos da Septuaginta colocados à disposição dos críticos podem ser bem melhor compreendidos em alguns pontos que os manuscritos massoréticos.
2.A versão da Septuaginta - primeiramente aceita pelos judeus de Alexandria e, mais tarde, por todas as nações de língua grega - auxiliou na expansão, entre os gentios, da idéia e expectativa do Messias, e introduziu a terminologia teológica no grego, tornando-a o melhor instrumento para a propagação do Evangelho de Cristo.
3.Os judeus a usaram muito antes da Era Cristã e, no tempo de Cristo, foi reconhecida como texto legítimo, tendo sido inclusive empregada na Palestina pelos rabinos. Os apóstolos e evangelistas a usaram também e fizeram citações do Antigo Testamento a partir dela, especialmente no que diz respeito às profecias. Os padres e outros escritores eclesiásticos da Igreja primitiva citavam-na diretamente - no caso dos padres gregos - ou indiretamente - no caso dos padres e escritores latinos e outros que empregavam as versões latinas, siríacas, etíopes, árabes e góticas. Seguramente, era tida em grande estima por todos, chegando alguns a acreditar de que era inspirada. Consequentemente, o conhecimento da Septuaginta auxilia na perfeita compreensão dessas literaturas [da Igreja primitiva].
4.Atualmente, a Septuaginta é o texto oficial da Igreja grega e as antigas versões latinas usadas pela Igreja ocidental também foram feitas a partir dela; a mais antiga tradução adotada pela Igreja latina - a Vetus Ítala - foi preparada diretamente sobre a Septuaginta: as idéias adotadas nela, os nomes e palavras gregas empregadas (tais como: Gênese, Êxodo, Levítico, Números [Arithmoi], Deuteronômio) e, finalmente, a pronúncia dada ao texto hebraico, passaram freqüentemente para a Ítala e, a partir desta, às vezes, para a Vulgata, que não raramente, apresenta sinais da influência da Vetus Ítala (principalmente nos Salmos: a tradução da Vulgata é meramente o texto da Vetus Ítala corrigido por São Jerônimo conforme o texto da Septuaginta encontrado na Hexápla [de Orígenes]).
2. Origem da Septuaginta
1.Segundo a Tradição
A versão da Septuaginta é primeiramente mencionada na Carta de Aristéias a seu irmão Filócrates. Aqui está, substanciamente, o que lemos sobre a origem de tal versão: Ptolomeu II Filadélfo, rei do Egito (287-247 a.C.) tinha estabelecido recentemente uma valiosa biblioteca em Alexandria. Ele foi persuadido por Demétrio de Fálaro - responsável pela biblioteca - a enriquecê-la com uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Para conquistar as boas graças deste povo, Ptolomeu, por conselho de Aristéias - oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão por religião - emancipou 100 mil escravos de diversas regiões de seu reino. Ele, então, enviou representantes - entre os quais Aristéias - a Jerusalém e pediu a Eliazar - o sumo-sacerdote dos judeus - para que fornecesse uma cópia da Lei e judeus capazes de traduzi-la para o grego. A embaixada obteve sucesso: uma cópia da Lei ricamente ornamentada foi enviada para o Egito, acompanhada por 72 israelitas - seis de cada tribo - para atender o desejo do rei. Estes foram recebidos com grande honra e durante sete dias surpreenderam a todos pela sabedoria que possuíam, demonstrada em respostas que deram a 72 questões; então, eles foram levados para a isolada ilha de Faros e ali iniciaram os seus trabalhos, traduzindo a Lei, ajudando uns aos outros e comparando as traduções conforme iam terminando. Ao final de 72 dias, a tarefa estava concluída. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e povo reunidos em Alexandria; a tradução foi reconhecida por todos e declarada em perfeita conformidade com o original hebraico. O rei ficou profundamente satisfeito com a obra e a depositou na sua biblioteca.
Ainda que possua características lendárias, a narrativa de Aristéias ganhou crédito: Aristóbulo (170-50 a.C.), em uma passagem preservada por Eusébio, afirma que “através dos esforços de Demétrios de Fálero, uma tradução completa da legislação judaica foi realizada nos dias de Ptolomeu”; o relato de Aristéias é repetido quase que literalmente por Flávio Josefo (Ant.Jud. XII,2) e substancialmente - com a omissão do nome de Aristéias - por Filo de Alexandria (De Vita Moysis II,6). A carta e o relato foram aceitos como genuínos por muitos padres e escritores eclesiásticos até o início do séc. XVI; outros detalhes que serviram para enfatizar a extraordinária origem da versão foram acrescentados ao relato de Aristéias: os 72 intérpretes foram inspirados por Deus (Tertuliano, Santo Agostinho, o autor de “Exortação aos Gregos” [Justino?], entre outros); durante a tradução eles não consultaram uns aos outros, pois foram mantidos em celas separadas - quer individuais, quer em duplas - e suas traduções, quando comparadas, estavam em perfeita concordância com o sentido e expressões empregadas no texto original e, inclusive, de umas com as outras (“Exortação aos Gregos”, Santo Ireneu, São Clemente de Alexandria - São Jerônimo rejeitou o relato das celas isoladas afirmando que era fantasioso e falso (Praef. in Pentateuchum; Adv. Rufinum II, 25), bem como a alegada inspiração da Septuaginta); e, finalmente, de que os 72 intérpretes traduziram não apenas os cinco livros do Pentateuco mas todo o Antigo Testamento hebraico. A autenticidade da Carta, posta em dúvida primeiramente por Louis Vivès (1492-1540), professor em Louvain (Ad S. August. Civ. Dei XVIII, 42), e, depois, por Jos Scaliger (+1609) e, especialmente, por H. Hody (+1705) e Dupin (d. 1719), é atualmente negada por todos.
Críticas
1.A Carta de Aristéias é certamente apócrifa. O escritor, que chama a si mesmo de Aristéias e declara-se grego e pagão, mostra, no decorrer de toda a sua obra, que, na verdade, é um judeu piedoso e zeloso: ele reconhece o Deus dos judeus como o único Deus; ele declara que Deus é o autor da Lei Mosaica; ele é um admirador entusiástico do Templo de Jerusalém, da terra e do povo judeu e de suas leis sagradas e homens cultos.
2.A narrativa da Carta deve ser considerada como fantasiosa e lendária, no mínimo em várias partes. Alguns detalhes, como a intervenção oficial do rei ao sumo-sacerdote, o número de 72 tradutores, as 72 questões que tiveram que responder e os 72 dias que levaram para traduzir a Lei são, claramente, afirmativas arbitrárias; além disso, é difícil de se admitir que os judeus alexandrinos tenham adotado para o seu culto público uma tradução da Lei feita a pedido de um rei pagão; finalmente, a linguagem da versão da Septuaginta denuncia, em vários pontos, um conhecimento imperfeito do hebraico e da topografia da Palestina, correspondendo muito mais ao idioma vulgar da Alexandria. Já que não é certo que todo o conteúdo da Carta seja lendário, os estudiosos questionam se não existe algum fundamento histórico disfarçado sob os detalhes lendários. Realmente isso pode ser possível - como se depreende da natureza peculiar da linguagem bem como sobre o que sabemos a respeito da origem e história da versão - já que o Pentateuco foi mesmo traduzido em Alexandria. Também parece verdadeiro que a versão date do tempo de Ptolomeu Filadélfo, isto é, de meados do séc. III a.C.. Mas se, como comumente se acredita, a Carta de Aristéias foi escrita por volta de 200 a.C., 50 anos após a morte de Filadélfo, com vistas a aumentar a autoridade da versão grega da Lei, poderia ter sido aceita tão facilmente e rapidamente difundida caso fosse fictícia ou se o tempo de sua composição não correspondesse à realidade? E mais: é possível que Ptolomeu tenha realmente alguma espécie de relacionamento com a preparação ou publicação da tradução, embora como e porque não possa ser determinado agora. Teria sido com o objetivo de enriquecer sua biblioteca, como declara o pseudo-Aristéias? Isto é possível, mas não pode ser provado, como será demonstrado abaixo; mas podemos muito bem descrever a origem da versão independentemente do rei.
3.Os pequenos detalhes acrescidos durante o passar dos anos ao relato de Aristéias não podem ser aceitos; tais acréscimos são: a estória das celas (explicitamente rejeitada por São Jerônimo); a inspiração dos tradutores (uma opinião certamente baseada na lenda das celas); o número de tradutores (72 - v. abaixo); a afirmativa de que todos os livros hebraicos foram traduzidos ao mesmo tempo (Aristéias fala da tradução da Lei (nomos), da legislação (nomothesia), dos livros do legislador - estas expressões, especialmente as duas últimas, certamente se referem ao Pentateuco e excluem os outros livros do Antigo Testamento, e São Jerônimo (Comment. in Mich.) declara: “Josefo escreveu, e os hebreus nos informaram, que apenas os cinco livros de Moisés foram traduzidos por eles (os 72) e dados ao rei Ptolomeu”. Por outro lado, as versões dos diversos livros do Antigo Testamento diferem muito no vocabulário, estilo, forma e características, às vezes seguem uma tradução livre, outras vezes, extremamente literal, o que demonstra que elas não seriam obra dos mesmos tradutores. Apesar disso e de todas as divergências, o nome de “versão da Septuaginta” é universalmente dado à coleção completa dos livros do Antigo Testamento existentes na Bíblia grega adotada pela Igreja oriental.

2.Origem segundo o ponto de vista comumente aceito

Como para o Pentateuco o seguinte ponto de vista parece plausível, podemos também aceitar em linhas gerais: os judeus, nos dois últimos séculos antes de Cristo, eram tão numerosos no Egito, especialmente em Alexandria, que, em certo momento, passaram a constituir 2/5 da população total. Pouco a pouco a maioria deles deixou de usar ou esqueceu a língua hebraica em grande parte, caindo no perigo de esquecer a Lei. Consequentemente, tornou-se costumeiro interpretar na língua grega a Lei que era lida nas sinagogas e, naturalmente, após certo tempo, alguns homens zelosos pela Lei resolveram compilar uma tradução grega do Pentateuco. Isto ocorreu por volta de meados do séc. III a.C.. Para os demais livros hebraicos - os proféticos e históricos - foi natural que os judeus alexandrinos, fazendo uso do Pentateuco traduzido em suas reuniões litúrgicas, desejassem também a tradução destes; então, gradualmente, todos os livros foram sendo traduzidos para o grego, que se tornara a língua maternal destes judeus; tal exigência aumentava conforme o seu conhecimento de hebraico ia reduzindo dia a dia. Não é possível determinar com precisão o tempo ou os eventos que levaram a estas diferentes traduções; mas é certo que a Lei, os Profetas e, ao menos, parte dos outros livros (i.é, os Hagiógrafos) existiam antes do ano 130 a.C., como aparece no prólogo do Eclesiástico, que não data abaixo deste ano. É difícil determinar também onde as diversas traduções foram feitas pois as informações são muito escassas. A julgar pelas palavras e expressões egípcias que ocorrem na versão, a maioria dos livros deve ter sido traduzida no Egito, muito provavelmente na Alexandria. Ester, entretanto, foi traduzido em Jerusalém (XI, 1).
Quem e quantos eram os tradutores? Existe algum fundamento para o número de 72, como declara a lenda (Brassac-Vigouroux, nº 105)? Parece impossível responder essas questões; os talmudistas dizem que o Pentateuco foi traduzido por cinco intérpretes (Sopherim, c.1.). A história não nos oferece outros detalhes, mas um exame do texto mostra que, em geral, os autores não eram judeus palestinenses enviados ao Egito; diferenças de terminologia, método etc. provam claramente que os tradutores não eram os mesmos para os diferentes livros. É impossível também dizer se a obra foi executada oficial ou privativamente, como parece ser o caso de Eclesiástico; contudo, os diferentes livros, após traduzidos e dispostos em conjunto (o autor de Eclesiástico conhecia a coleção), foi recebida como oficial pelos judeus de língua grega.

3. História Subseqüente Recensões

A versão grega, conhecida como Septuaginta, foi bem acolhida pelos judeus alexandrinos, que logo a difundiu pelas nações onde o grego era falado; foi usada por diferentes escritores e suplantou o texto original nas cerimônias litúrgicas. Filo de Alexandria a utilizou em seus escritos e considerava os tradutores profetas inspirados; finalmente, ela foi acolhida pelos judeus da Palestina e foi notavelmente empregada por Josefo, historiador judeu palestinense. Sabemos também que os escritores do Novo Testamento fizeram uso dela, utilizando-a na maioria de suas citações. Ela tornou-se o Antigo Testamento da Igreja e foi altamente estimada pelos cristãos primitivos, de modo que muitos escritores e padres declararam-na inspirada. Os cristãos recorriam à ela constantemente em suas controvérsias com os judeus; estes logo reconheceram suas imperfeições e, finalmente, a rejeitaram em favor do texto hebraico ou de traduções mais literais (Áquila e Teodocião). Correções críticas de Orígens, Luciano e Hesíquio
Em razão de sua difusão entre os judeus helenizantes e cristão primitivos, as cópias da Septuaginta passaram a se multiplicar e, como seria de se esperar, muitas alterações - algumas propositais, outras involutárias - foram surgindo. Logo sentiu-se a necessidade de restaurar o texto à sua pureza original. Eis um brevíssimo relato das tentativas de correção:

1.Orígenes reproduziu o texto da Septuaginta na quinta coluna de sua Hexápla. Marcou com obeli os textos que ocorriam na Septuaginta e que não se encontravam no original; adicionou de acordo com a versão de Teodocião e distinguiu com asteriscos e metobeli os textos do original que não se encontravam na Septuaginta; adotou das variantes da versão grega os textos que eram mais próximos ao hebraico; e, finalmente, transpôs o texto onde a ordem da Septuaginta não correspondia à ordem do texto hebraico. Sua recensão, copiada por Pânfilo e Eusébio, foi chamada de Hexápla para distingui-la da versão previamente empregada, chamada comum, vulgar, koiné ou antehexápla. Foi adotada na Palestina.
2.São Luciano, sacerdote de Antioquia e mártir, no início do séc. IV, publicou uma edição corrigida de acordo com o hebraico; tal edição reteve o nome de koiné, edição vulgar, e, às vezes, é chamada de Loukianos após o nome de seu autor. No tempo de São Jerônimo, estava sendo usada em Constantinopla e Antioquia.

3.Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou, quase que ao mesmo tempo, uma nova recensão, difundida principalmente no Egito. Manuscritos Os três manuscritos mais conhecidos da Septuaginta são: o Vaticano (Codex Vaticanus), do séc. IV; o Alexandrino (Codex Alexandrinus), do séc. V, atualmente no Museu Britânico de Londres; e o do Monte Sinai (Codex Sinaiticus), do séc. IV, descoberto por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, em 1844 e 1849, sendo que parte se encontra em Leipzig e parte em São Petersburgo. Todos foram escritos em unciais. O Codex Vaticanus é o mais puro dos três; é geralmente tido como o texto mais antigo, embora o Codex Alexandrinus carregue consigo o texto da Hexápla e tenha sido alterado segundo o texto massorético. O Codex Vaticanus é referido pela letra B; o Codex Alexandrinus, pela letra A; e o Codex Sinaiticus, pela primeira letra do alfabeto hebraico (aleph) ou S. A Biblioteca Nacional de Paris possui também um importante palimpsesto manuscrito da Septuaginta, o Codex Ephraemirescriptus (designado pela letra C) e dois manuscritos de menor valor (64 e 114), em cursivas, um pertencente ao séc. X ou XI e o outro, ao séc. XIII (Bacuez e Vigouroux, 12ª ed., nº 109).

Edições Impressas

Todas as edições impressas da Septuaginta são derivadas das três recensões acima citadas.
•A Editio Princeps é a da Complutensiana ou de Alcalá. Provém da Hexápla de Orígenes. Impressa em 1514-18, não foi publicada até aparecer na Poliglota do card. Ximenes, em 1520.
•A edição Aldine (iniciada por Aldo Manúcio) apareceu em Veneza em 1518. O texto é mais puro que a edição Complutensiana e está mais próxima do Códice B. O editor diz que colecionou manuscritos antigos mais não os especifica. Foi reimpressa várias vezes.
•A mais importante edição é a Romana ou Sixtina, que reproduz quase que exclusivamente o Codex Vaticanus. Foi publicada sob a direção do card. Caraffa, com o auxílio de vários sábios, em 1586, sob a autoridade de Sixto V, com o objetivo de socorrer os revisores que preparavam a nova edição da Vulgata latina ordenada pelo Concílio de Trento. Tornou-se, assim, o textus receptus do Antigo Testamento grego e teve diversas novas edições, tais como a de Holmes e Pearsons (Oxford, 1798-1827), as sete edições de Tischendorf, que apareceram em Leipzig entre 1850 e 1887 (as duas últimas publicadas após a morte do autor e revisadas por Nestle), as quatro edições de Swete (Cambridge, 1887-95, 1901, 1909), etc.
•A edição de Grabe, publicada em Oxford de 1707 a 1720, reproduzindo, imperfeitamente, o Codex Alexandrinus de Londres. Para edições parciais, v. Vigouroux, "Dicionário da Bíblia", pp. 1643ss.

4. Valor Crítico e Linguagem Valor Crítico

A versão da Septuaginta, embora ofereça exatamente em forma e substância o verdadeiro sentido dos Livros Sagrados, difere consideravelmente do atual texto hebraico (Massorético). Essas discrepâncias, porém, não são de grande importância, mas apenas assunto de interpretação. Podem ser assim classificadas: algumas são oriundas dos tradutores que tiveram à sua disposição recensões hebraicas diferentes daquelas que são conhecidas como massoréticas; às vezes os textos variam, outras vezes, os textos são idênticos, mas lidos em ordem diferente. Outras discrepâncias devem-se à personalidade dos tradutores; para não se falar da influência exercida em suas obras em razão de seus métodos de interpretação, as dificuldades inerentes da tarefa, seus maiores ou menores conhecimentos de grego e hebraico: eles acabaram traduzindo diferentemente dos massoretas justamente porque liam os textos de forma diferente; é pois natural que o hebraico, escrito em caracteres quadrados, e certas consoantes bem similares na forma fossem vez ou outra confundidos, ocasionando erros de tradução; mais: o texto hebraico era escrito sem qualquer espaçamento entre as palavras e os tradutores facilmente poderiam confundir a separação das palavras; finalmente, como o texto hebraico não dispunha de vogais, eles poderiam suprir as palavras com vogais diversas daquelas que foram usadas mais tarde pelos massoretas. Novamente, não devemos achar que possuímos atualmente o exato texto grego como foi escrito pelos tradutores; as freqüentes transcrições feitas durante os primeiros séculos, assim como as correções e edições de Orígenes, Luciano e Hesíquio danificaram a pureza do texto: voluntária ou involuntariamente, os copistas permitiram a ocorrência de muitas corrupções textuais, transposições, adições e omissões no texto primitivo da Septuaginta. Em particular, podemos notar a adição de passagens paralelas, notas explanatórias ou traduções duvidosas causadas pelas notas marginais. A este respeito, v. "Dicionário da Bíblia" art. cit., e Swete, "Uma Introdu ção ao Antigo Testamento em Grego".
Linguagem
Todos admitem que a versão da Septuaginta foi redigida em grego popular, a koine dislektos. Mas o grego do Antigo Testamento era um idioma especial? Muitas autoridade garantem que sim, embora discordem quanto à sua real característica. O “Dicionário da Bíblia”, em seu verbete “Grego bíblico”, assegura que era “o grego hebraizante falado pela comunidade judaica de Alexandria”, o grego popular de Alexandria “com uma larga mistura de hebraísmos”. O mesmo dicionário, no verbete “Septante”, menciona a mais recente opinião de Deissmann de que o grego da Septuaginta é meramente o grego vernacular ordinário, a pura koine daquela época. Deissmann baseia sua teoria na semelhança perfeita da linguagem da Septuaginta com a dos papiros e inscrições do mesmo período; ele acredita que as peculiaridades sintáticas da Septuaginta, que a princípio parecem favorecer a teoria de uma linguagem especial (um grego hebraicizado), são suficientemente explicadas pelo fato da Septuaginta ser a tradução grega de livros hebraicos.

Autor: A. Vander Heeren
Fonte: Agnus Dei
Tradução: Carlos Martins Nabeto



A TEOLOGIA DE ARISTÓTELES

 

Neste estudo procuraremos caracterizar, em primeiro lugar, o surgimento da teologia
no solo do pensamento grego que se estabeleceu ao longo da filosofia naturalista,
sofística, socrática e platônica. Em segundo lugar, traçaremos as linhas fundamentais
da teologia que se encontram no livro 
como conclusão, pretenderemos mostrar a ruptura e superação da teologia racional do
estagirita em relação à teologia de seus antecessores. Leia o texto completo
6-9 da Metafísica de Aristóteles. E finalmente,
 
Fonte:

POROS, Uberlândia, v. 1, n. 1, p. 8-20, 2009 – www.catolicaonline.com.br/poros

As Características Filosóficas do Cristianismo

Não há propriamente uma história da filosofia cristã, assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna, pois no pensamento cristão, o máximo valor, o interesse central, não é a filosofia, e sim a religião. Entretanto, se o cristianismo não se apresenta, de fato, como uma filosofia, uma doutrina, mas como uma religião, uma sabedoria, pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida, pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. É o teísmo e o cristianismo. O cristianismo fornece ainda uma - imprescindível - integração à filosofia, no tocante à solução do problema do mal, mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. E, enfim, além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral, o cristianismo implica uma determinação, elucidação, sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação, mediante uma disciplina específica, que será a teologia dogmática.

Pelo que diz respeito ao teísmo , salientamos que o cristianismo o deve, historicamente, a Israel. Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação, uma demonstração racional, como, por exemplo, em Aristóteles, de sorte que, em definitivo, o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e, sobretudo, a Tomás de Aquino. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal, solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo - que sentiu profundamente, dramaticamente, este problema sem o poder solucionar - frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática, filosófica e moral, do cristianismo. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. Finalmente, a justificação da Revelação em geral, e a determinação, dilucidação, sistematização racional do conteúdo da mesma, têm uma importância indireta com respeito à filosofia, porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. Foi esta, especialmente, a obra da Patrística e, sobretudo, de Agostinho.
Esta parte, dedicada à história do pensamento cristão, será, portanto, dividida do seguinte modo: o Cristianismo, isto é, o pensamento do Novo Testamento, enquanto soluciona o problema filosófico do mal; a Patrística, a saber, o pensamento cristão desde o II ao VIII século, a que é devida particularmente a construção da teologia, da dogmática católica; a Escolástica, a saber, o pensamento cristão desde o século IX até o século XV, criadora da filosofia cristã verdadeira e própria.

Características Gerais do Pensamento Cristão

Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano.
A avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo.
A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política, econômica e social do Ocidente, agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. Depois vieram as guerras, a fome e as grandes epidemias. O cristianismo propaga-se por diversos povos. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições.
O período medieval não foi, porém, a "Idade das Trevas", como se acreditava. A filosofia clássica sobrevive, confinada nos mosteiros religiosos. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino, fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. No Ocidente, fundam-se as primeiras universidades, ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos, cristãos e germânicos, e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim.
Sob a influência da Igreja, as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas, tentando conciliar a fé e a razão. E é nesse esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão.

A Filosofia Medieval e o Cristianismo

Ao longo do século V d.C., o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social, política e econômica, que corresponde ao período medieval.
Em meio ao esfacelamento do Império Romano, decorrente, em grande parte, das invasões germânicas, a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros, preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana.

Apoiada em sua crescente influência religiosa, a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. Desempenhou, por exemplo, a função de órgão supranacional, conciliador das elites dominantes, contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. Conquistou, também, vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental, numa época em que a terra era a principal base de riqueza. Assim, pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias.
Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber
No plano cultural, a Igreja exerceu amplo domínio, trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana.
Em que consistia essa fé?
Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações" .

De acordo com a doutrina católica, a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas - especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. Neste sentido, afirmava Santo Ambrósio (340-397, aproximadamente): Toda verdade, dita por quem quer que seja, é do Espírito Santo .

Assim, toda investigação filosófica ou científica não poderia, de modo algum, contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. Segundo essa orientação, os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade, pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. Restava-lhes, apenas, demonstrar racionalmente as verdades da fé.

Não foram poucos, porém, aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega, sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado, a dúvida, o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja, em termos de fé).Por outro lado, surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega, na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. Conciliado com a fé cristã, o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. O objetivo era convencer os descrentes, tento quanto possível, pela razão, para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos, somente acessíveis à fé.

Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino. Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles, respectivamente.
"Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia", segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo." (São Paulo).

Patrística

"A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica"
Desde que surgiu o cristianismo, tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã, a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente, mediante um trabalho de conquista espiritual.
Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja.

Uma das principais correntes da filosofia patrística, inspirada na filosofia greco-romana, tentou munir a fé de argumentos racionais. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho.
"Compreender para crer, crer para compreender". (Santo Agostinho)

Escolástica

"Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus".
No século VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. A cultura greco-romana, guardada nos mosteiros até então, voltou a ser divulgada, passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. Era a renascença carolíngia.
Tendo a educação romana como modelo, começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática, retórica e dialética (o trivium ) e geometria, aritmética, astronomia e música (o quadrivium ). Todas elas estavam, no entanto, submetidas à teologia.
A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (de escola). A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles, descobertas até então, e à tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego.

A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se, no entanto, como problema básico de especulação filosófica. Nesse sentido, o período escolástico pode ser dividido em três fases:

Primeira fase - (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão.

Segunda fase - (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. Nesta fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida.
Terceira fase - (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica, caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão.

A Questão dos Universais:
O que há entre as palavras e as coisas
O método escolástico de investigação, segundo o historiador francês Jacques Le Goff, privilegiava o estudo da linguagem (o trivium ) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium ). Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas?
Rosa, por exemplo, é o nome de uma flor. Quando a flor morre, a palavra rosa continua existindo. Nesse caso, a palavra fala de uma coisa inexistente, de uma idéia geral. Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio, em sua obra Isagoge : "Não tentarei enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência, nem, no caso de subsistirem, se são corpóreos ou incorpóreos, nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos, formando parte dos mesmos".

Esse problema filosófico gerou muitas disputas. Era a grande discussão sobre a existência ou não das idéias gerais , isto é, os chamados universais de Aristóteles.

Fonte:


Biblioteca Ecclesia

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2. Os Santos Padres da Igreja 
3. Máximas Bíblicas e dos Pais da Igreja 
4. A Santíssima Trindade Nos Escritos dos Santos Padres dos Primeiros Séculos 
5. Testemunhos Patrísticos sobre a Santíssima Trindade 
6. Louvores dos Santos Padres à Maria
7. Los Padres de La Iglesia 
8. El Estudio de los Padres de la Iglesia 
9. DIDAQUÉ: A Doutrina dos Apóstolos 
10. 1º Concílio Ecumênico de Nicéia: Os Cânones dos 318 Bispos reunidos em Nicéia da Bítinia (325 dC) 
11. Definição de fé: Concílio da Calcedônia 
12. Santo Atanásio de Alexandria (português) 
13. Santo Atanásio de Alexandria (espanhol) 
14. Santo Atanásio: Sobre a divindade do Espírito Santo (Carta de Santo Atanásio a Serapião)
15. Santo Atanásio: «Sobre a Encarnação do Verbo»
16. Santo Atanásio: A Criação e a Queda 
17. Santo Atanásio de Alexandria: Antologia
18. São Jerônimo: A Virgindade Perpétua de Maria - Tratado contra Helvídio 
19. São Cirilo de Jerusalém: Catequeses Mistagógicas 
20. Melitão de Sardes 
21. O Pastor de Hermas 
22. Santo Ambrósio de Milão 
23. São João Crisóstomo - Vida e Obras 
24. San Juan Crisóstomo - HOMILÍA IX 
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26. Diversão Mundana e Cristã Segundo São João Crisóstomo
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28. Orígens: Antologia 
29. São Basílio, o Grande: «Um Monge no Mundo do Helenismo»
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31. São Cipriano de Cartago
32. São Cipriano de Cartago: «A Oração do Senhor»
33. São Cipriano de Cartago: «Antologia» (português)
34. São Cipriano de Cartago: «Antologia» (espanhol)
35. São Cipriano de Cartago: «Cartas» (espanhol)
36. São Cipriano de Cartago: «Sobre A Unidade da Igreja»
37. São Cipriano de Cartago: «Da Inutilidade dos Ídolos» 
38. São Cirilo de Alexandria: «Diálogo sobre a Encarnação»
39. São Cirilo de Alexandria: Discurso de pronunciado no Concílio de Éfeso sobre Maria 
40. São Cirilo de Alexandria: Antologia
41. Tradición y Eucaristía 
42. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma 
43. São Gregório Palamas e a Tradição dos Padres
44. São Gregório Palamas: Antologia 
45. São Clemente de Alexandria: Antologia. 
46. Ideais de fé, conduta e salvação São Clemente de Alexandria
47. Santo Agostinho de Hipona: «Na Vigília da Páscoa»
48. Santo Agostinho de Hipona: «Sobre a Ressurreição de Cristo, segundo São Marcos»
49. Santo EFRÉN, o Sírio: Vida
50. Santo EFRÉN, o Sírio: Obras (fragmentos)
51. Santo Epifanio: «Os Últimos Dias da Virgem Maria»
52. Santo Epifânio de Salamina: 1ª homilia para a Festa dos Ramos
53. São Germano de Constantinopla
54. São Gregório Magno: Antologia
55. São Leão Magno: Sermão n° 23: «Natal do Senhor»
56. São Leão Magno: Antologia 
57. São Leão Magno: «Sermão Sobre Pentecostes»
58. Olivier Clèment: «São Gregório Nazianzeno»
59. São Gregório Nazianzeno: «Poema sobre a Natureza Humana»
60. São Gregório de Nazianzo: Antologia
61. Olivier Clèment: São Gregório de Nissa
62. São Gregório de Nissa: Antologia
63. Santo Hilário de Poitiers: «Sobre a Santíssima Trindade»
64. Santo Hilário de Poitiers: «Antologia»
65. San Ireneo: Vida y obras (espanhol) 
66. Santo Irineu de Lião: Antologia de Textos Homiléticos
67. São João Damasceno: «Homilia Sobre a Natividade de Maria»
68. São João Damasceno: «Homilia Sobre aDormição da Santíssima Mãe de Deus»
69. São João Damasceno: Antologia de Textos Homiléticos 
70. San Juan Damasceno: El jardín de la Sagrada Escritura - (Exposición de la fe ortodoxa, 1V 17)

71. San Juan Damasceno: La fuerza de la Cruz - (Exposición de la fe ortodoxa, I14 11) 
72. San Juan Damasceno: El coro de los ángeles - (Exposición sobre la fe ortodoxa, 11, 3)

73. San Juan Damasceno: Madre de la gloria - (Homilía 2 en la dormición de la Virgen Maria, 2 y 14)

74. Santo Agostinho de Hipona: "Sobre a Ressurreição de Cristo, segundo São Marcos" 
75. São Máximo, o Confessor: Vida e Obras 
76. São Pedro Crisólogo: «Sermão de Natal»
77. São Pedro Crisólogo: «Antologia de Textos Homiléticos»
78. San Policarpo, Obispo de Esmirna 
79. São Policarpo de Esmirna: Antologia de Textos Homiléticos
80. São Simeão, o Novo Teólogo: Antologia de Textos Homiléticos
81. «Patrologia» e «Patrística»: Âmbito e definições

Fonte:

Ecclesia

Hipólito de Roma


Hipólito, nascido provavelmente na segunda metade do séc. II, teria sido, conforme o testemunho de alguns Padres da Igreja, bispo, porém não é possível precisar o lugar de sua sede. Sabe-se que ele mesmo afirmou ser discípulo de Irineu e foi o último escritor a se utilizar, em Roma, da língua grega.
Escritor erudito, transmite seus conhecimentos sem recorrer ou citar as fontes. Na época em que a Igreja tornou a penitência mais branda para os pecadores, Hipólito desentende-se com a autoridade máxima da Igreja, isto é, o papa e acaba sendo eleito antipapa por um pequeno grupo de cristãos moralistas. É exilado pelo imperador na Sardenha e aí morre em 235, juntamente com o papa Ponciano (que também fora exilado), com quem se conciliou algum tempo antes, voltando, assim, ao seio da Igreja.
Muitos obras são atribuídas a Hipólito, mas a "Tradição Apostólica" foi uma das poucas que restaram e, talvez, a mais importante, já trata-se da constituição eclesiástica mais antiga que possuímos.
Entre os diversos destaques desta obra, assinalamos os seguintes: a existência de ministérios ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) e não ordenados (viúvas, virgens, leitores, etc.); as profissões incompatíveis com o cristão; o catecumenato fixado em três anos; o batismo estendido também às crianças; a oração eucarística e os cuidados devidos ao pão e ao vinho, Corpo e Sangue do Senhor; e a eficácia da oração na vida do cristão (celebrada várias vezes ao dia), em especial o sinal da cruz.

Fonte:

Ecclesia

Tradição Apostólica de Hipólito de Roma

 2. Parte I - Ministérios Ordenados e Não Ordenados

2.1 - Introdução
Já tratamos de forma conveniente sobre os carismas, esses dons que Deus pôs à disposição dos homens desde o princípio, conforme Sua vontade, atraindo para Si a imagem que Dele se afastara. Agora, movidos pelo amor que devemos a todos os santos, atingimos o ponto máximo da tradição: o que diz respeito às igrejas. Todos, assim, bem instruídos, devem conservar a tradição que perdura até hoje e, conhecendo-a através de nossas palavras, devem permanecer absolutamente firmes, já que o ocorrido recentemente (heresia ou erro) foi motivado pela ignorância e também pelos ignorantes. Que o Espírito Santo conceda a graça perfeita àqueles que crêem na verdade ortodoxa, para que aqueles que lideram a Igreja possam saber como ensinar e preservar tudo de forma conveniente.
2.2 - Escolha e Consagração dos Bispos
Deve ser ordenado bispo aquele que tenha sido eleito incontestavelmente por todo o povo. Quando for chamado por seu nome e aceito por todos, reunir-se-ão, no domingo, todo o povo, o presbitério e os bispos. Então, após o consentimento de todos, os bispos imporão as mãos sobre ele e o presbitério permanecerá imóvel. Todos permanecerão em silêncio, orando no coração pela vinda do Espírito Santo. A seguir, um dos bispos, por consenso geral, imporá as mãos sobre o que está sendo ordenado e rezará, dizendo: "Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai da misericórdia e Deus de todo consolo, que habitas nas alturas e baixas o olhar para o humilde; tu, que sabes de todas as coisas antes de nascerem; tu, que deste as leis da tua Igreja pela palavra da graça, elegendo a raça dos justos de Abraão, desde o princípio, constituindo-os chefes e sacerdotes; tu, que não deixaste teu santuário sem administração; tu, que desde o princípio dos séculos, te agradas em ser glorificado por estes que elegeste, derrama neste momento a força que sai de ti, o Espírito de liderança que deste ao teu querido Filho, Jesus Cristo, e que Ele concedeu aos santos apóstolos, de forma que constituíram a tua Igreja por toda a parte, o teu Templo, para louvor e glória eterna do teu nome. Pai, que conheces os corações, permita a este teu servo que escolheste para o episcopado, apascentar o teu rebanho santo, desempenhando o primado do sacerdócio de forma irrepreensível perante ti, servindo-te noite e dia. Concede-lhe tornar propícia a tua imagem, incessantemente, oferecendo os sacrifícios da tua Santa Igreja e, com um espírito de superior sacerdócio, possuir o dom de perdoar os pecados conforme a tua ordem, distribuir os cargos [eclesiásticos] segundo o teu preceito, desatar quaisquer laços conforme o poder que deste aos apóstolos e ser do teu agrado, pela mansidão e pureza de coração, para que te ofereça um perfume agradável, por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".
2.3 - Oração Eucarística
Assim que se tenha tornado bispo, todos ofereçam-lhe o ósculo da paz, saudando-o por tornar-se digno. Os diáconos, então, oferecer-lhe-ão o sacrifício e ele, após impor suas mãos [sobre o sacrifício] dará graças, juntamente com todo o presbitério, dizendo: "O Senhor esteja convosco". Todos responderão: "E com o teu espírito". [Dirá:] "Corações ao alto". [Responderão:] "Já os oferecemos ao Senhor". [Dirá:] "Demos graças ao Senhor". [Responderão:] "Pois é digno e justo". Em seguida, prosseguirá: "Nós te damos graças, ó Deus, por teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos enviaste nos últimos tempos, [Ele que é nosso] Salvador e Redentor, porta-voz da tua vontade, teu Verbo inseparável, por meio de quem fizeste todas as coisas e, por ser do teu agrado, enviaste do céu ao seio de uma Virgem; aí presente, cresceu e revelou-se teu Filho, nascido do Espírito Santo e da Virgem. Cumprindo a tua vontade, obtendo para ti um povo santo, ergueu as mãos enquanto sofria para salvar do sofrimento todos aqueles que em ti confiaram. Se entregou voluntariamente à Paixão para destruir a morte, quebrar as cadeias do demônio, esmagar o poder do mal, iluminar os justos, estabelecer a Lei e trazer à luz a ressurreição. [Ele] tomou o pão e deu graças a ti, dizendo: 'Tomai e comei: isto é o meu Corpo que será destruído por vossa causa'. [Depois,] tomou igualmente o cálice e disse: 'isto é o meu sangue, que será derramado por vossa causa. Quando fizerdes isto, fá-lo-eis em minha memória'. Por isso, lembramos de sua morte e ressurreição e oferecemos-te o pão e o cálice, dando-te graças por nos considerardes dignos de estarmos na tua presença e de te servir. E pedimos: envie o teu Espírito Santo ao sacrifício da Santa Igreja, reunindo todos os fiéis que receberem a eucaristia num só rebanho, na plenitude do Espírito Santo, para fortalecer nossa fé na verdade. Concede que te louvemos e glorifiquemos, por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na tua Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".

2.4 - Bênção do Azeite, Queijo e Azeitonas
Se alguém oferecer azeite, consagre-o como se consagrou o pão e o vinho, não com as mesmas palavras, mas com o mesmo Espírito. Dê graças, dizendo: "Assim como por este óleo santificado ungiste reis, sacerdotes e profetas, concede também, ó Deus, a santidade àqueles que com ele são ungidos e aos que o recebem, proporcionando consolo aos que o experimentam e saúde aos que dele necessitam". Do mesmo modo, se alguém oferecer queijo e azeitonas, diga: "Abençoa este leite coalhado, unindo-nos à tua caridade. Concede, ainda, que este fruto da oliveira não se afaste da tua doçura por ser um exemplo da abundância que tiraste da árvore para a vida dos que em ti esperam". E, a cada bênção, diga: "Gloria a ti, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".

2.5 - Ordenação dos Presbíteros
Ao se ordenar um presbítero, o bispo (e os demais presbíteros) impõe-lhe as mãos sobre sua cabeça e, como citamos acima, rezará dizendo: "Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo: baixa o olhar sobre este teu servo e transmite a ele o Espírito da graça e do conselho do presbitério, para que ele possa ajudar e governar o teu povo com o coração puro, da mesma forma como baixaste o olhar sobre o teu povo escolhido e ordenaste a Moisés que selecionasse anciãos, nos quais derramaste o Espírito que tinhas dado ao teu servo. E agora, Senhor, dissipando-nos o Espírito da tua graça, conserva-o eternamente em nós e torna-nos dignos de te servir com simplicidade de coração e de te louvar por teu Filho, Jesus Cristo, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".

2.6 - Ordenação dos Diáconos
Seja o diácono eleito conforme acima referido e ordenado impondo-lhe as mãos apenas do bispo, como prescrevemos. Somente o bispo impõe-lhe as mãos porque o diácono não está sendo ordenado para o sacerdócio, mas apenas para se por à serviço do bispo, para executar o que este lhe ordenar. Ele não participa do conselho clerical, mas cuida da administração, informando ao bispo tudo o que for necessário. Não recebe o Espírito comum do presbitério, do qual participam os presbíteros, mas o que lhe é confiado pelo poder do bispo, razão pela qual somente o bispo ordena o diácono. Porém, na ordenação do presbítero, também os presbíteros imponham as mãos, em virtude do Espírito comum e semelhante do seu cargo: estes, por terem apenas o poder de receber, mas não o de comunicar o Espírito, não ordenam os clérigos mas, na ordenação do presbítero, imponham as mãos enquanto o bispo ordenar. Sobre o diácono, diga [o bispo]: "Ó Deus, que criaste todas as coisas e as ordenaste pelo Verbo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que enviaste para cumprir a tua vontade e para nos revelar o teu desejo, concede a este servo, que escolheste para servir a tua Igreja, o Espírito Santo da graça, do cuidado e do trabalho, para apresentar em santidade, no teu Santuário, o que te for oferecido pelo herdeiro do sumo sacerdote, para a glória do teu nome, e também para que, exercendo de forma irrepreensível e de coração puro o seu ministério, alcance um grau superior para te louvar e glorificar por teu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, pelo qual te damos glória, poder e honra, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém".

2.7 - Os Confessores
Não se deve impor as mãos sobre um confessor candidato ao diaconato ou presbiterato se este já tiver sido preso por causa do nome do Senhor. Na realidade, a dignidade de presbítero é igual à honra da sua confissão. Porém, ser-lhe-ão impostas as mãos se for ordenado bispo. Contudo, se o confessor não tiver sido levado à frente do magistrado, nem posto a ferros, nem aprisionado, nem condenado a uma outra pena, mas apenas desprezado por causa do nome do Senhor e castigado de forma branda, deve-se impor as mãos sobre ele para qualquer função que lhe seja digno. Que o bispo dê graças, tal como mencionamos. Porém, não é necessário que, dando graças, se utilize das mesmas palavras que mencionamos, como se o fizesse de memória; pelo contrário, reze cada um segundo suas possibilidades. Se alguém tiver capacidade de rezar uma oração mais longa ou mais solene, melhor; contudo, se outro proferir uma oração mais simples, deixai-o pois o correto é rezar de acordo com a ortodoxia.

2.8 - As Viúvas
Uma viúva, ao ser instituída, não é ordenada, mas eleita pela simples inscrição do nome. Se o seu marido já morreu há muito tempo, seja instituída; contudo, se o seu marido não morreu há muito tempo, não se confie nela; mas se for velha, seja experimentada por algum tempo porque, muitas vezes, as paixões envelhecem com o que as abriga no seu seio. Seja, portanto, a viúva instituída pela palavra e que se junte às demais. Não serão impostas as mãos sobre ela pois não oferece o sacrifício, nem exerce a liturgia. A ordenação é para o clero, por causa da liturgia; a viúva é instituída para a oração, que pertence a todos.

2.9 - Os Leitores
O leitor é instituído no momento em que o bispo lhe entrega o Livro. Sobre ele também não são impostas as mãos.
2.10 - As Virgens
Não serão impostas as mãos sobre a virgem, pois bastará sua decisão para fazer dela uma virgem.
2.11 - Os Subdiáconos
Também não serão impostas as mãos sobre o subdiácono. Ele será nomeado para seguir o diácono.
2.12 - O Dom da Cura
Se alguém disser que recebeu o dom da cura por revelação, não serão impostas as mãos sobre ele: os fatos demonstrarão se está dizendo a verdade.

3. Parte II - Catecúmenos e Liturgias Diversas

3.1 - Os Novatos
Aqueles que são trazidos pela primeira vez para escutar a Palavra, sejam direcionados aos catequistas, antes da chegada do povo, e sejam interrogados sobre a razão pela qual resolveram se aproximar da fé. Aqueles que os trouxerem, dêem testemunho deles, informando se estão preparados para ouvir a Palavra. Sejam também interrogados sobre a vida que levam: se possuem esposa, se são escravos... Se algum deles for escravo de um fiel (=irmão de fé) e o seu senhor permitir, que escute a Palavra; mas se o seu senhor não der bom testemunho dele, seja recusado. Se o seu senhor for pagão, seja-lhe ensinado a agradar seu senhor, para que se evite a blasfêmia. Se um homem possui mulher ou se uma mulher possui marido, sejam ensinados a se suportarem, o homem com a mulher e a mulher com o marido. Porém, se um homem não vive com a mulher, seja ensinado a não fornicar, recebendo a mulher conforme a Lei ou permanecendo como está. Se alguém estiver possuído pelo demônio, não escute a Palavra doutrinária enquanto não for purificado.

3.2 - Profissões Proibidas
Deve-se interrogar, também, a respeito dos trabalhos e ocupações exercidos por aqueles que se apresentam para ser instruídos. Aquele que possui prostíbulo: desista ou seja recusado. O escultor ou pintor: seja ensinado a não produzir ídolos, isto é, cesse ou seja recusado. O ator que representa no teatro: cesse ou seja recusado. O pedagogo: é bom que cesse, ensinando somente se não possuir outra habilitação. O cocheiro competidor e os que freqüentam espetáculos de luta: cessem ou sejam recusados. O gladiador, o treinador de gladiadores, o bestiário e os empresários de lutas gladiatórias: cessem ou sejam recusados. O sacerdote ou guardião de ídolos: abandone-os ou seja recusado. O soldado que recebe o poder de matar: não matará ninguém, mesmo se isto lhe for ordenado, nem prestará juramento. Se não concordar, seja recusado. O que possui poder de gládio e o magistrado da cidade, que se reveste de púrpura: renunciem ou sejam recusados. O catecúmeno e o fiel que desejam se tornar soldados: sejam recusados por desprezarem a Deus. A prostituta, o pervertido, o homossexual e qualquer outro que pratiquem atos indizíveis: sejam recusados por serem impuros. O mágico: não deve ser apresentado para o interrogatório. O feiticeiro, o astrólogo, o adivinho, o intérprete de sonhos, o charlatão, o ilusionista e o fabricante de amuletos: renunciem ou sejam recusados. A concubina, se for escrava do amante, se tiver educado os filhos e se tiver unido apenas a esse homem: pode ouvir a Palavra; caso contrário, seja recusada. Aquele que possuir uma concubina: renuncie a ele e receba uma mulher conforme a Lei; se não o quiser, seja recusado. Se tivermos omitido algo, as próprias ocupações dirão [se são ou não permitidas], pois todos nós temos o Espírito de Deus.

3.3 - Os Catecúmenos
Os catecúmentos devem escutar a Palavra por três anos. Se algum deles for dedicado e atencioso, não lhe será considerado o tempo: somente o seu caráter, e nada mais, será julgado. Cessando o catequista a instrução, rezarão os catecúmenos em particular, separados dos fiéis. As mulheres, sejam elas catecúmenas ou fiéis, permanecerão rezando em particular em qualquer parte da igreja. Ao concluírem as orações, ainda não darão a paz porque o seu ósculo ainda não será santo. Os fiéis, porém, saudar-se-ão, reciprocamente: os homens aos homens e as mulheres às mulheres; os homens não deverão saudar as mulheres. Estas devem cobrir a cabeça com um manto que não seja feito de linho, pois este tipo não serve para cobrir [a cabeça]. Após a prece, o catequista imporá as mãos sobre os catecúmenos, rezará e os dispensará; não importa se é clérigo ou leigo: aquele que prega a doutrina deve assim agir. Se um catecúmeno for preso por causa do nome do Senhor, não deve se desesperar: se sofrer violência e morrer antes de ter recebido o perdão de seus pecados, será justificado por ter experimentado o batismo em seu sangue.

3.4 - Os Batizandos
Escolhidos aqueles que receberão o batismo, examinar-se-á suas vidas: se viveram com dignidade durante o catecumenato, se honraram as viúvas, se visitaram os doentes, se praticaram apenas boas obras. Ouvirão o Evangelho se aqueles que os apresentaram testemunharem a seu favor, dizendo que assim agiram. Sejam impostas as mãos diariamente sobre eles a partir do momento em que foram separados e sejam, ao mesmo tempo, exorcizados. Aproximando-se o dia do batismo, o bispo exorcizará cada um deles, para saber se é puro. Se algum deles não for bom ou puro, será colocado à parte, pois não ouviu a Palavra com fé, já que não possível que o estranho se oculte para sempre. Sejam os batizandos instruídos para que se lavem e banhem no quinto dia da semana; se uma mulher estiver menstruada, será posta à parte e receberá o batismo num outro dia. Os que receberão o batismo jejuarão na véspera do sábado e, no sábado, serão todos reunidos num mesmo local designado pelo bispo. Serão ordenados todos aqueles que rezarem e se ajoelharem; impondo as mãos sobre eles, o bispo exorcizará todos os espíritos impuros, para que fujam e não retornem mais. Terminando o exorcismo, soprar-lhe-á em suas faces. Após marcá-los na fronte, nos ouvidos e narinas com o sinal da cruz, ele ordenará que se levantem. Então permanecerão vigilantes durante toda a noite: ler-se-á para eles e também serão instruídos. Os batizandos não devem ter nada em seu poder, exceto o que trouxeram para a eucaristia. O que se tornou digno deve participar do sacrifício na mesma hora.

3.5 - O Batismo
Ao cantar do galo, rezar-se-á, primeiramente, sobre a água. Deve ser água corrente, na fonte ou caindo do alto, exceto em caso de necessidade; se a dificuldade persistir ou se tratar de caso de urgência, deve-se usar a água que encontrar. Os batizandos se despirão e serão batizadas, primeiro, as crianças. Todos os que puderem falar por si próprios, falem; contudo, os pais ou alguém da família falem por aqueles que não puderem falar por si mesmos. Depois batizem-se os homens e, por último, as mulheres (que deverão estar de cabelos soltos e sem os enfeites de ouro e prata que levaram). Ninguém deve descer às águas portando objetos estranhos. No instante previsto para o batismo, o bispo renderá graças sobre o óleo que será posto em um vaso e será chamado de óleo de ação de graças. Tomará também um outro óleo que exorcizará e será denominado de óleo de exorcismo. Então o diácono trará o óleo de exorcismo e ficará à esquerda do presbítero; outro diácono pegará o óleo de ação de graças e ficará à direita do presbítero. Acolhendo cada um dos que recebem o batismo, manda renunciar, dizendo: "Renuncia a ti, Satanás, a todo teu serviço e a todas as tuas obras". Terminada a renúncia de cada um, ungirá com o óleo de exorcismo, dizendo-lhe: "Afaste-se de ti todo espírito impuro". E irá entregá-lo nu ao bispo ou ao presbítero que está junto da água, batizando. O diácono também descerá com ele e, ao chegar à água aquele que será batizado, aquele que batiza lhe dirá, impondo-lhe as mãos sobre ele: "Crês em Deus Pai todo-poderoso?". E aquele que é batizado responda: "Creio". Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o uma vez, dizendo a seguir: "Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Espírito Santo e da Virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morrendo e sendo sepultado e, vivo, ressurgiu dos mortos no terceiro dia, subindo aos céus e sentando-se à direita do Pai, donde julgará os vivos e os mortos?". Quando responder: "Creio", será batizado pela segunda vez. E dirá mais uma vez: "Crês no Espírito Santo, na Santa Igreja e na ressurreição da carne?". Responderá o que está sendo batizado: "Creio", e será batizado pela terceira vez. Depois de subir da água, será ungido com o óleo santificado pelo presbítero, que dirá: "Unjo-te com o óleo santo em nome de Jesus Cristo". Após isto, cada um se enxugará e se vestirá, entrando, a seguir, na igreja.

3.6 - A Confirmação
Impondo as mãos sobre eles, o bispo fará a invocação, dizendo: "Senhor Deus, que os tornaste dignos de merecer a remissão dos pecados pelo banho da regeneração, torna-os dignos de ser repletos do Espírito Santo; lança sobre eles a tua graça para que te sirvam conforme a tua vontade, pois a ti são a glória, ao Pai, ao Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, pelos séculos dos séculos. Amém". Após isto, derramará o óleo santo nas mãos e dirá, colocando as mãos sobre a sua cabeça: "Eu te unjo com o óleo santo, no Senhor Pai todo-poderoso e em Jesus Cristo e no Espírito Santo". Marcando-o na fronte com o sinal da cruz, oferecer-lhe-á o ósculo, dizendo: "O Senhor esteja contigo". O que foi marcado responderá: "E com o teu Espírito". Assim deve proceder com cada um. Em seguida, rezarão com todo o povo, não podendo rezar com os fiéis enquanto não atingirem tudo isso. Após a oração, oferecerão o ósculo da paz.

3.7 - A Primeira Eucaristia
Os diáconos oferecerão o sacrifício ao bispo e este dará graças sobre o pão, como exemplo do Corpo de Cristo, e sobre o cálice do vinho preparado, para imagem do Sangue que foi derramado por amor de todos que crêem nele. Fará o mesmo sobre o leite e o mel misturados, recordando a plenitude da promessa feita aos antepassados; nessa promessa, Deus anunciou a "terra onde correm leite e mel". Por ela, Cristo ofereceu a sua Carne e, assim como crianças, se alimentam os que crêem, tornando suave a amargura do coração pela docilidade da Palavra. Da mesma maneira, o bispo renderá graças sobre a água do sacrifício, como representação do batismo, para que o homem interior, isto é, a alma, obtenha os mesmos dons que o corpo. Todos esses fatos devem ser explicados pelo bispo a todos que recebem. Partindo o pão e distribuindo-o em pedaços, dirá: "O Pão Celestial em Jesus Cristo". E o que está recebendo responderá: "Amém". Se não forem suficientes os presbíteros, peguem os cálices também os diáconos e, com dignidade, coloquem-se em ordem: primeiro o que segura a água; em segundo, o que segura o leite; em terceiro, o que segura o vinho. Os que recebem provem de cada cálice e, aquele que dá, diga três vezes: "Em Deus Pai todo-poderoso". Responda o que recebe: "Amém". [O que dá:] "E em Nosso Senhor Jesus Cristo". [O que recebe:] "Amém". [O que dá:] "E no Espírito Santo e na Santa Igreja". E responda "Amém". Assim se procederá com cada um. Após a cerimônia, rapidamente pratiquem o bem, agradem a Deus, vivam corretamente, coloquem-se à disposição da Igreja, praticando o que aprenderam e progredindo na piedade. Isto, de maneira resumida, vos transmito sobre o santo batismo e o santo sacrifício, pois já fostes instruídos sobre a ressurreição da carne e tudo o demais, conforme está escrito. Se algo deve ser recordado, diga o bispo secretamente aos que tiverem recebido o batismo, para que os não fiéis não venham a conhecer antes de também receberem. Esta é a ficha branca aludida por João ao dizer: "Um novo nome foi escrito nela e ninguém o conhece a não ser aquele que a receberá".
4. Parte III - Outros Temas e Práticas

4.1 - A Comunhão Dominical
No domingo pela manhã, o bispo distribuirá a comunhão, se puder, a todo o povo com as próprias mãos, cabendo aos diáconos o partir do pão; os presbíteros também poderão parti-lo. Quando o diácono apresentar a eucaristia ao presbítero, estenderá o vaso e o próprio presbítero o tomará e distribuirá ao povo pessoalmente. Nos outros dias, os fiéis receberão a eucaristia de acordo com as ordens do bispo.

4.2 - O Jejum
As viúvas e as virgens devem jejuar e rezar freqüentemente pela Igreja. Os presbíteros e os leigos podem jejuar quando quiserem. O bispo, porém, não pode jejuar a não ser no dia em que todo o povo o faz, pois é possível que alguém queira levar algo até a igreja, não podendo ele recusar pois, se parte o pão, deverá prová-lo.

4.3 - O Ágape
Caso o presbítero não esteja presente, o diácono dará, em casos de urgência, o sinal [signum] aos enfermos com cuidado. Após dar o necessário e receber o que for distribuído, dará graças e aí comerão. Todos aqueles que recebem algo devem dar com cuidado: se alguém receber algo para levar a uma viúva, um doente ou alguém que se dedique à Igreja, devem levá-lo no mesmo dia; se não o fizer, deve levar no dia seguinte, acrescentando com algo de seu por ter permanecido na sua casa o pão dos pobres.

4.4 - A Lucerna
No início da noite, com a presença do bispo, o diácono trará a lucerna e aquele, de pé no meio de todos os fiéis presentes, dará graças. Primeiramente, fará a saudação, dizendo: "O Senhor esteja convosco". O povo responderá: "E com o teu Espírito". [Dirá:] "Demos graças ao Senhor". E responderão: "É digno e justo. A Ele convém a grandeza e a exaltação com a glória". Não dirá: "Corações ao alto" porque já o faz no sacrifício, mas rezará da seguinte forma: "Graças te damos, Senhor, pelo teu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor, pelo qual nos iluminaste, revelando-nos a luz incorruptível. Atingindo agora o fim do dia e chegando a noite, tendo-nos saturado a luz do dia que criaste para nos saciar, e não carecendo agora da luz da tarde pela tua graça, louvamos-te e glorificamos-te, pelo teu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória, o poder e a honra, com o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém". Responderão todos: "Amém". Terminada a ceia, de pé, todos rezarão e os meninos e as virgens entoarão salmos. A seguir, o diácono, ao receber o cálice preparado do sacrifício, entoará um desses salmos que possui a palavra "Aleluia". Se o presbítero ordenar, entoará outro salmo do mesmo tipo. Depois que o bispo oferecer o cálice, dirá um dos que a este se referem, tudo com "Aleluia", e todos repetirão. Recitando-os, repetirão sempre "Aleluia", que significa "louvamos Aquele que é - Deus". Glória e louvor Àquele que criou o Universo somente pelo Verbo. Concluído o salmo, o bispo abençoará o cálice e distribuirá os pedações de pão aos fiéis.

4.5 - A Ceia
Os fiéis presentes, durante a ceia, antes de cortarem o seu próprio pão, receberão das mãos do bispo o pedaço de pão que é uma "eulogia" e não a eucaristia, Corpo do Senhor. É preciso que todos tomem o cálice e rendam graças sobre ele antes de beberem. Portanto, com pureza, comam e bebam. Aos catecúmenos será dado o pão de exorcismo e oferecido um cálice. O catecúmeno não participará da ceia do Senhor. Durante todo o sacrifício, aquele que se serve deve ser digno de quem o convidou, pois para isso foi chamado a entrar sob o seu teto. Agora, quando comerdes e beberdes, fazei-o com dignidade e não com irresponsabilidade, para que ninguém fique zombando ou para que aquele que te convidou não se entristeça com a vossa afronta, esperando ser digno que os santos entrassem em sua casa porque, diz, vós sois o sal da terra. Se alguém oferecer a todos aquilo que se chama em grego apoforeton, aceitai a vossa parte. Porém, se fordes convidado a comer, fazei-o de forma a sobrar, para que todos comam o suficiente e para que aquele que vos convidou possa mandar algo a quem quiser, como sobras dos santos, e fique feliz com a vossa atenção. Comendo, sirvam-se em silêncio os convidados, sem discussões, falando somente o que for permitido pelo bispo, respondendo-lhe se perguntar algo. Ao falar o bispo, calem-se todos, com discrição e respeito, até que ele volte a fazer perguntas. Se os fiéis comparecerem à ceia sem o bispo, com a presença de um presbítero ou um diácono, deverão comer com a mesma dignidade e apressar-se a receber o pão bento da mão do presbítero ou diácono. Também o catecúmeno receba o pão do exorcismo. Reunindo-se leigos, procedam com prudência, pois um leigo não pode conferir o pão bento. Comam todos em nome do Senhor, pois agrada a Deus quando todos, iguais e sóbrios, somos ciosos do nosso comportamento, mesmo entre os gentios. As viúvas convidadas para a ceia devem ser de idade madura e devem ser dispensadas antes do final da tarde. Quem não puder convidá-las por causa do cargo que exercem, deve dispensá-las após dar-lhes alimento e vinho que tomarão em casa da forma que lhes agradar.

4.6 - Frutos Oferecidos ao Bispo
Todos devem se apressar a trazer os primeiros frutos da estação ao bispo. Este irá oferecê-los e abençoá-los e, citando quem os oferece, dirá: "Graças te damos, ó Deus, e te oferecemos as primícias dos frutos que nos deste para que os tomemos, nutrindo-os pelo teu Verbo, ordenando à terra que os produza com alegria o alimento dos homens e de todos os animais. Por causa disso tudo, te louvamos, ó Deus, e também por tudo que nos proporcionaste, provendo para nós toda a criação dos mais diversos frutos. Por teu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória pelos séculos dos séculos. Amém".

4.7 - Bênção dos Frutos
Os frutos que podem ser abençoados são a uva, o figo, a romã, a azeitona, a pêra, a maçã, a amora, o pêssego, a cereja, a amêndoa e os damascos. Não podem [ser abençoados] a melancia, o melão, os pepinos, a cebola, o alho ou qualquer outro legume. Pode-se oferecer, às vezes, flores: rosas e lírios, mas não outras. E, sobre todas as coisas, os que as recebem dêem graças ao santíssimo Deus, para a sua glória.

4.8 - Jejum da Páscoa
Na Páscoa, ninguém coma antes de se fazer o sacrifício, pois quem assim proceder não terá seu jejum considerado. Se uma mulher estiver grávida ou não se sentir bem, não podendo jejuar durante os dois dias, jejue pelo menos no sábado, já que é necessário; mas será um jejum de pão e água. Se alguém, por algum problema, se esquecer da Páscoa, jejue após a Qüinquagésima. A imagem passou, cessando no segundo mês, mas todo aquele que tiver aprendido a verdade deverá jejuar.
4.9 - Os Diáconos Trabalham com o Bispo
Que cada diácono, com seus subdiáconos, executem suas tarefas junto ao bispo. Também lhes serão recomendados os doentes, para que os visitem, caso seja de agrado do bispo, pois o doente sempre se alegra quando o chefe dos sacerdotes dele se lembra.

4.10 - A Oração
Os fiéis de Deus devem rezar assim que acordarem e levantarem, antes de tocar qualquer coisa. Só depois disso é que devem sair para o trabalho. Contudo, se houver instrução pela Palavra, que prefiram ouvir a Palavra de Deus, pois esta é o consolo da alma, e se apressem a ir para a igreja, onde o Espírito floresce.

4.11 - Comunhão Diária
Que todo fiel corra a receber a eucaristia antes de experimentar qualquer outra coisa. Se receber por causa de sua fé, não se prejudicará, mesmo sendo o homem mortal. Todos devem se esforçar para não permitir que o infiel prove a eucaristia, nem um rato ou outro animal; deve-se cuidar para que dela não caia uma migalha e se perca, pois ela é o Corpo de Cristo que deve ser comido pelos fiéis e não pode ser negligenciado. Consagrado o cálice em nome de Deus, que recebestes como a imagem do Sangue de Cristo, não queirais derramá-lo. Que o espírito hostil não venha lambê-lo, desprezando-o, pois serias culpado para com o Sangue, como quem despreza o valor pelo qual foi comprado.

4.12 - Reunião do Clero
Os diáconos e os presbíteros deverão se reunir diariamente no local determinado pelo bispo. Não se deixem de reunir a menos que a doença impeça. Reunindo-se todos, ensinem os que estão na igreja e, após a oração, dirija-se cada um ao seu trabalho.

4.13 - Os Cemitérios
Que ninguém encontre dificuldades para sepultar o irmão nos cemitérios, já que estes pertencem aos pobres. Porém, pague-se o salário ao coveiro, bem como o preço dos tijolos. O bispo deve sustentar guardas e zeladores para que nenhuma taxa seja cobrada àqueles que procuram os cemitérios.

4.14 - A Oração - II
Todo fiel, homem ou mulher, ao acordarem, lavem as mãos e rezem a Deus antes de tocar qualquer coisa. Só após isto, dirijam-se ao trabalho. Havendo instrução da Palavra de Deus, prefiram encaminhar-se ao local recordando que, na verdade, estão ouvindo a Deus na pessoa daquele que prega. Todo aquele que rezar na igreja vencerá a maldade do dia; aquele que teme a Deus considerará um grande mal não ter ido à instrução, principalmente se souber ler ou sabendo que o catequista estava presente. Que nenhum de vós se atrase para ir à igreja, lugar onde se ensina. Ao que fala, será concedido dizer o que é útil a cada um. Ouvirás coisas nas quais não imaginas e tirarás proveito do que o Espírito Santo vos disser pelo catequista. Vossa fé será reforçada com aquilo que ouvirdes. Aí também será dito o que deveis fazer em casa. Por isso, cada um deve se preocupar em ir à igreja, onde o Espírito Santo floresce. Nos dias em que não houver instrução, cada um em sua casa tome o Santo Livro e leia o que lhe parecer proveitoso. Se estiverdes em casa, rezai e bendizei a Deus na hora terceira. Se estiverdes num outro local, rezai a Deus no coração, pois foi nessa hora que Cristo se viu pregado no madeiro. Também por essa razão, a Lei do Antigo Testamento prescreve que se ofereça o pão da proposição, como imagem do Corpo e Sangue de Cristo, e a imolação do cordeiro, como imagem do Cordeiro perfeito: Cristo é o Pastor e o Pão que desceu do céu. Rezai, igualmente, na hora sexta pois, quando Cristo foi pregado na cruz, o dia se dividiu e as trevas surgiram. Nessa hora, todos rezarão uma oração fervorosa, imitando a voz Daquele que, ao rezar, cobriu de trevas toda a criação perante os judeus incrédulos. Façam, ainda, uma grande prece exaltando o Senhor por volta da hora nona, para sentirem como a alma dos justos glorifica a Deus, que não é mentiroso e lembra dos seus santos, enviando seu Verbo para iluminá-los. Foi nessa hora que Cristo, ferido no lado, verteu água e sangue, e iluminou o resto do dia até o final da tarde. Começando a dormir, Cristo originou o dia seguinte e concluiu a imagem da ressurreição. Rezai ainda antes de dormir. Por volta da meia-noite, levantai, lavai as mãos com água e rezai. Se vossa mulher estiver presente, rezai ambos; se ainda não for batizada, retirai-vos para outro quarto, rezai e voltai para a cama. Não hesitai, porém, de rezar, pois aquele que se encontra casado não está manchado. Em verdade, os que já tomaram banho não precisam tomar outro pois encontram-se limpos. Fazei o sinal da cruz com o sopro úmido, recolhendo a saliva com a mão, e o vosso corpo será purificado até os pés, pois o dom do Espírito e a água do banho, oferecidos por um coração puro como se saíssem de uma fonte, purificam todo aquele que crê. Assim, é necessário rezar nesse momento. Os antigos, que nos deixaram a tradição, ensinaram-nos que nessa hora toda criatura descansa um momento para louvar o Senhor; até mesmo as estrelas, as árvores e as águas param por um instante e, com toda a milícia dos anjos que servem a Deus, e junto com as almas dos justos, glorificam a Deus. Por esse motivo, todos os que crêem devem se apressar para rezar nessa hora. Para dar testemunho disso, assim diz o Senhor: "Eis que por volta da meia-noite ouviu-se o clamor dos que diziam: 'Aí vem o noivo. Saiam ao seu encontro'. E concluiu, dizendo: 'Vigiai, pois não sabeis a hora em que virá'". Quando o galo cantar, levantai e rezai, pois nessa hora, ao cantar do galo, os filhos de Israel negaram a Cristo, que conhecemos pela fé, confiantes na esperança da eterna luz da ressurreição dos mortos; temos os olhos fixos nesse dia. Fiéis: procedendo dessa forma, respeitando a tradição, instruindo-vos mutuamente e exortando os catecúmenos, não sereis tentados nem perecereis, pois o Cristo estará sempre presente na lembrança.

4.15 - O Sinal da Cruz
Durante a tentação, fazei piedosamente na fronte, o sinal da cruz, pois este é o sinal da Paixão reconhecidamente provado contra o demônio, desde que feito com fé e não para vos exibir diante dos homens, servindo eficazmente como um escudo: o Adversário, vendo quão grande é a força que sai do coração do homem que serve o Verbo (pois mostra o sinal interior do Verbo projetado no exterior), fugirá imediatamente, repelido pelo Espírito que está no homem. Era isso que o profeta Moisés representava através do cordeiro morto na Páscoa e ensinava ao aspergir o sangue nos batentes das portas: simbolizava a fé que agora se encontra em nós, ou seja, a fé no Cordeiro perfeito. Ora, persignando-nos na fronte e nos olhos com a mão, afastamos tudo aquilo que tenta nos destruir.

5. Final

Se estes ensinamentos forem recebidos com gratidão e fé ortodoxa, permitirão a edificação da Igreja e a vida eterna àqueles que crerem. Aconselho que [estes ensinamentos] sejam guardados por todos que tiverem o coração puro. Se todos ouvirem e seguirem a tradição dos apóstolos, nenhum herege (nenhum mesmo!) poderá vos afastar do reto caminho. Na verdade, muitas heresias se desenvolveram porque os chefes não quiseram aprender a doutrina dos apóstolos mas, seguindo a própria fantasia, fizeram o que quiseram, isto é, o que não deveriam fazer. Amados: se omitimos algo, Deus revelará [a verdade] aos que forem dignos, dirigindo a Igreja para que atraque no porto da paz.

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