Diálogo com Trifão de Justino Mártir.

A presente pesquisa de mestrado se propôs a analisar a relação entre o judaísmo e o cristianismo no século II. Os pilares sobre os quais construímos nosso trabalho foram os processos de estigmatização e diferenciação entre as duas religiões citadas, com destaque para a representação dos judeus nos meios cristãos que proporcionaram a criação de uma identidade religiosa cristã a partir da negação da validade do judaísmo, conforme se depreende da análise da obra Diálogo com Trifão do filósofo e apologista cristão Justino Mártir.

O presente estudo se faz relevante dada a virtual inexistência de obras na historiografia nacional dedicadas a estudar a contribuição de Justino para a criação de uma identidade religiosa e eclesial cristã por meio de sua obra Diálogo com Trifão. Apenas na produção acadêmica estrangeira encontramos estudos que enfocam, de modo restrito, o presente tema.
A fim de analisar historicamente o papel pretendido por Justino com seu Diálogo, buscamos contextualizar a obra dentro do cristianismo normativo. Para obter tal enquadramento histórico, sentimos a necessidade de relatar e analisar as condições históricas que possibilitaram o surgimento do movimento de Jesus e da fé cristã. Entretanto, isso nos remeteu ao desenvolvimento do judaísmo do Segundo Templo, ao qual pertence o grupo de Jesus. A seguir, narramos criticamente o surgimento das primeiras comunidades cristãs e sua divisão nos dois blocos identitários preponderantes, a saber, o judeu-cristianismo e o cristianismo gentílico. Dando prosseguimento à nossa investigação, identificamos os pontos de atrito que geraram intolerância mútua e posterior separação entre o judaísmo e o cristianismo. Leia o Texto completo


Fonte:

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO


Segundo Século da era Cristã Situação Política: Imperador Trajano

Imperador romano (98-117) nascido em Itálica, na Bética, no sul da Espanha, perto de Híspalis, depois Sevilha, primeiro de fora da península itálica, que levou as fronteiras do império ao ponto máximo de sua extensão geográfica e realizou um vasto programa de obras públicas. De família nobre, concluiu a formação militar junto ao pai, governador primeiro da Síria e depois da Ásia, à época de Vespasiano. Comandou uma legião na Espanha e participou das campanhas na Germânia, nas quais conquistou grande prestígio. Nomeado cônsul por Domiciano (91), mais tarde adotado por Nerva, a quem sucedeu (98).

Eficiente administrador, reorganizou o império, com apoio decisivo do Senado, que lhe concedeu o título excepcional de optimus princeps. Manteve um contato permanente e íntimo com a intelectualidade romana como consta da correspondência que manteve com Plínio o Jovem. Reativou o comércio e a agricultura, reduziu a carga tributária e a realizou um ambicioso programa de obras em todo o império.

Além de edifícios públicos, como o novo forum de Roma, construiu estradas, pontes, aquedutos, portos, banhos públicos e infra-estrutura sanitária. Algumas dessas obras sobrevivem ainda na Itália, Espanha, norte da África e Balcãs. Seu prestígio, no entanto, não se deveu somente aos êxitos na política interna, mas também às conquistas militares e territoriais, destinadas a aumentar e consolidar o poder de Roma e a proporcionar os recursos necessários para suas reformas. Ampliou o Exército e reforçou as fronteiras com a Germânia, derrotou os dácios em duas brilhantes campanhas e criou a nova província da Dácia (106), hoje Romênia. Assegurada a fronteira oeste do império, voltou a atenção para o leste. Anexou o reino da Nabatéia, a parte da Arábia que se estende a leste e sul da Judéia, e empreendeu uma guerra contra o poderoso reino parto (110), que culminou com a anexação da Armênia e da Mesopotâmia, a conquista das principais cidades partas e a chegou com suas tropas até ao golfo Pérsico.

Com uma série de revoltas nos territórios recém-conquistados e nas comunidades judias de diversas províncias orientais (116) e com a saúde abalada, entregou o comando do Exército ao sobrinho Adriano, que seria seu sucessor, e partiu de Antióquia de volta para Roma, porém morreu na viagem (117), em Selino, posteriormente Selindi, Cilícia, no sul da Anatólia. Seu nome está ligado a um dos mais belos monumentos da escultura romana nos tempos imperiais e que continua impressionante mesmo muito depois de desaparecida a antiga civilização romana: a Coluna de Trajano.

Como exemplar do nível da escultura daquele império, é uma seqüência de relevos narrativos e encontra-se na capital itlaiana. Sempre à vista de visitantes e moradores da cidade, a Coluna de Trajano tem a altura de um edifício de dez andares e foi construída (113) para homenagear o imperador, cuja estátua dourada estava colocada no topo e foi substituída no século XVI pela de São Pedro.

O mármore da superfície é talhado de modo a parecer um pergaminho que se desenrola em espiral coluna acima, totalizando mais de 180 metros de comprimento. Incluindo mais de 2500 figuras humanas esculpidas em relevos rasos, a espiral mostra uma série de cenas das triunfais campanhas do imperador na Dácia, hoje região da Romênia. A extraordinária obra de arte com 150 episódios em sucessão, forma uma narrativa continua e clara do aventura dos romanos naquela conquista.

O castigo para os cristãos, conforme a lei de Trajano, eram a crucificação ou o ser devorados pelas feras. Comparativamente, no entanto, este imperador foi menos cruel e perseguidor que outros imperadores romanos, já que segundo a lei os cristãos poderiam viver livres não havendo contra eles nenhuma acusação.

Fonte:


UFCG

Segundo Século da era Cristã Situação Política: Caio Plínio Cecílio

Caio Plínio Cecílio Segundo (em latim: Caius Plinius Caecilius Secundus; Como 61 ou 62 - Bitínia? 114), também conhecido como Plínio, o Jovem, o Moço ou o Novo, foi orador insígne (Panegírico de Trajano, 100), jurista, político, e administrador imperial na Bitínia (111-112). Sobrinho-neto de Plínio, o Velho, que o adoptou, estava com o mesmo no dia da grande erupção do Vesúvio (79 d.C.), mas não o acompanhou na viagem de barco até o vulcão em erupção que se revelaria mortal. Seus escritos sobre esse dia, no qual Pompeia se afogou em cinzas, são o principal documento escrito que versam a respeito de como sucedeu tal erupção. Hoje, as erupções desse tipo são chamadas de erupções plinianas.
Plínio, o Jovem iniciou-se na vida pública aos 18 anos, primeiro como advogado, onde os seus dotes oratórios começaram a ser notados, em julgamentos de funcionários imperiais e militares acusados de delitos políticos. No ano de 93 foi nomeado pretor e posteriormente cônsul e governador da Bitínia em 111, onde viria a morrer.

Da sua oratória o Panegyricus Traiano Dictus ("Panegírico de Trajano"), foi única peça oratória sua que se conservou. Nela, Plínio, ao estilo da época, agradece a sua nomeação para cônsul. De outros textos sobreviventes, sabemos que se dedicou ao estudo do âmbar e suas qualidades, comparando-o com a pedra-ímã, cujas propriedades já eram bastante conhecidas.

O seu legado principal são as suas litterae curatius scriptae, 247 missivas escritas a amigos, no estilo da época entre os anos de 97 e 109. Nelas encontramos das melhores descrições da vida quotidiana, política etc. da Roma Imperial. As cartas estão agrupadas em nove livros, acrescidos de um décimo volume, que contém as duas célebres cartas (Plin. Ep. X.95, 96) que abordam o tema do cristianismo, um dos primeiros documentos não neotestamentários sobre a igreja primitiva. As cartas que compõem o Livro X foram escritas durante o seu consulado na Bitínia: são 122 ao todo, trocadas com o imperador Trajano, onde é visível a sua grande proximidade e confiança mútuas.

Leia a Carto de Plinio a Trajano

Tenho por praxe, Senhor, consultar Vossa Majestade nas questões duvidosas. Quem melhor dirigirá minha incerteza e instruirá minha ignorância? Nunca presenciei nenhum julgamento de cristãos. Por isso ignoro as penalidades e investigações costumeiras, bem como as pautas em uso. Tenho muitas dúvidas a respeito de certas questões, tais como: estabelecem-se diferenças e distinções de acordo com a idade? Cabe o mesmo tratamento a enfermos e robustos? Aqueles que se retratam devem ser perdoados? A quem sempre foi cristão, compete gratificar quando deixa de sê-lo? Há de punir-se o simples fato de alguém ser cristão, mesmo que inocente de qualquer crime, o exclusivamente os delitos praticados sob esse nome?

Entretanto, eis o procedimento que adotei nos casos que me foram submetidos sob acusação de cristianismo. Aos incriminados pergunto se são cristãos. Na afirmativa, repito a pergunta segunda e terceira vez, ameaçando condená-los à pena capital. Se persistirem, condeno-os à morte. Não duvido que, seja qual for o crime que confessem, sua pertinácia e obstinação inflexíveis devem ser punidas. Alguns apresentam indícios de loucura; tratando-se de cidadãos romanos, separo-os para enviá-los a Roma.

Mas o que geralmente se dá é o seguinte: o simples fato de julgar essas causas confere enorme divulgação às acusações, de modo que meu tribunal está inundado com uma grande variedade de casos. Recebi uma lista anônima com muitos nomes.

Os que negaram ser cristãos, considerei-os merecedores de absolvição. De fato, sob minha pressão, devotaram-se aos deuses e reverenciaram com incenso e libações vossa imagem colocada, para este propósito, ao lado das estátuas dos deuses, e, pormenor particular, amaldiçoaram a Cristo, coisa que um genuíno cristão jamais aceita fazer. Outros inculpados da lista anônima começaram declarando-se cristãos e, logo, negaram sê-lo, declarando ter professado esta religião durante algum tempo e renunciando a ela há três ou mais anos; alguns a tinham abandonado há mais de vinte anos.

Todos veneraram vossa imagem e as estátuas dos deuses, amaldiçoando a Cristo. Foram unânimes em reconhecer que sua culpa se reduzia apenas a isso: em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento não a algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento. Este, aliás, era um alimento comum e inofensivo.

Eles deixaram essas práticas depois do edito que promulguei, de conformidade com vossas instruções, proibindo as sociedades secretas. Julguei ser mais importante descobrir o que havia de verdade nessas declarações através da tortura a duas moças, chamadas diaconisas, mas nada achei senão superstição baixa e extravagante. Suspendi, portanto, minhas observações na espera do vosso parecer.

Creio que o assunto justifica minha consulta, mormente tendo em vista o grande número de vítimas em perigo. Muita gente, de todas as idades e de ambos os sexos, corre o risco de ser denunciada e o mal não terá como parar. Esta superstição contagiou não apenas as cidades, mas as aldeias e até as estâncias rurais.

Contudo, o mal ainda pode ser contido e vencido. Sem dúvida os templos que estavam quase desertos são novamente freqüentados; os ritos sagrados há muito negligenciados, celebram-se de novo; vítimas para sacrifícios estão sendo vendidas por toda a parte, ao passo que, até recentemente, raramente um comprador era encontrado. Esses indícios permitem esperar que legiões de homens sejam susceptíveis de emenda, desde que tenham a oportunidade de se retratar.


Fonte:

Região da Bitínia Ásia Menor



Bitínia foi um reino antigo, e tornou-se uma província romana na parte setentrional da Ásia Menor (corresponde à moderna Turquia Asiática). Estava situada no que agora é o noroeste da Turquia, estendendo-se para o Leste de Istambul, ao longo do litoral meridional do Mar Negro. Esta província surge várias vezes referida como Bitínia e Ponto.

A Bitínia foi governada por Dédalo, que causou problemas à cidade grega de Astaco, fundada por colonos de Mégara e reforçada por atenienses. Ele foi sucedido por seu filho Boteiras, que viveu 76 anos. Boteiras foi sucedido por seu filho Bas, que derrotou Calas, general de Alexandre, e manteve os macedônios fora da Bitínia. Bas viveu 71 anos, sendo rei por 50, e foi sucedido por seu filho Zipoetas.
Zipoetas matou um dos generais de Lisímaco, e expulsou outro general do seu reino. Após derrotar Lisímaco e Antíoco, filho de Seleuco, rei da Ásia, Zipoetas fundou uma cidade que ganhou o seu nome. Ele viveu 76 anos, e reinou por 48 anos, deixando quatro filhos.
Nicomedes, o filho mais velho de Zipoetas, não agiu como irmão, mas como executor dos filhos de Zipoetas. Ele aumentou o poder da Bitínia, ajudou os gauleses a cruzarem para a Ásia, durante a invasão gaulesa da Grécia, e fundou a cidade que leva seu nome.

O cristianismo na província

Segundo o Novo Testamento, na segunda viagem missionária, o apóstolo Paulo, na companhia de Timóteo e Silas, fez empenho de viajar para a Bitínia, mas uma revelação divina o teria mandado ir para Macedónia (Atos 16:7). Não se menciona esta região como um campo missionário durante a era apostólica.
Já havia uma comunidade cristã quando apóstolo Pedro escreveu a sua primeira epístola canónica, por volta de 62–64 d.C. (I Pedro 1:1). Plínio, o Moço, Governador de Bitínia, ao escrever ao Imperador Trajano menciona muitos cristãos na província, declarando que, no começo do século II, o cristianismo não se confinava apenas às cidades, mas se havia espalhado "também às aldeias e aos distritos rurais".

Fonte:

WP

Primeiro Século da era Cristã Situação Política: Imperador Nero

O Imperador Romano Nero (Nero Cláudio Augusto Germânico) nasceu no dia 15 de dezembro do ano de 37, na cidade de Anzio, localizada no litoral da península Itálica. Filho de Agripina e enteado do Imperador Cláudio, Nero tornou-se imperador graças a uma trama de sua mãe e do filosofo Sêneca, que percebendo que se aproximava a morte do Imperador, convenceu-o a adotar Nero, que além de seu enteado, era também seu genro, casado com sua filha Otávia. A verdadeira intenção de Agripina era dominar Roma por intermédio do filho.

Com a morte de Cláudio, Nero tornou-se o imperador romano (em 13 de outubro do ano de 54), e passou a chamar-se Tibério Nero Claudio Domiciano César. Para evitar futuras disputas, no ano seguinte, Sêneca providenciou a morte de Britânico, filho legítimo de Cláudio, portanto seu verdadeiro sucessor.
Os primeiros cinco anos de Nero como imperador, lhe renderam a fama de bom administrador, obra de Sêneca e Sexto Afrânio Burro (prefeito de Roma), que no papel de conselheiros, influenciavam as decisões de Nero enquanto atendiam a todos os seus desejos. Porém, a autoridade que sua mãe tentava lhe impor tornou-se incomoda, e no ano de 59, Nero mandou matar Agripina, sua mãe.
Dando sinais de desequilíbrio, Nero passou a agir com tirania. Divorciou-se de Otávia, em seguida assassinada, e casou-se com Pompéia.

No ano de 64, grande parte da cidade de Roma foi devastada por um incêndio. Nero foi acusado de ter ateado fogo a cidade, embora não existam provas, segundo historiadores, de que isso seja verdade. Acreditando que o incêndio tenha sido causado pelos cristãos, odiados naquela época, Nero ordenou que fossem perseguidos e jogados para as feras no Coliseu.

Um ano depois, Nero assassinou, com um chute no ventre, sua esposa Pompéia, que estava grávida. Esse e outros desmandos, inclusive de ordem financeira, tornaram crescente a oposição a Nero. Como garantia, o já paranóico Nero passou a doar grandes quantidades de trigo aos pobres, de quem ganhou a simpatia.
Casou-se novamente no ano de 66, com Messalina, e em seguida partiu para a Grécia, então sob os domínios do império Romano, em uma viagem exuberante que durou 2 anos. Antes de retornar a Roma, libertou a Grécia do domínio romano, tornando-a independente.


O antigo Fórum Romano


De volta a Roma, o cenário encontrado por Nero era de rebeliões espalhadas por todo o seu império. A guarda pretoriana, responsável pela proteção de Nero e sua família, logo o abandonou, o que o levou a fugir para uma propriedade no campo. Em 6 de junho do ano de 68, aos 37 anos, Nero suicidou-se, para a tristeza dos gregos e dos pobres, por quem era apreciado. Ele foi o último imperador da dinastia Julio-Claudiana.

Perseguição sob Nero, 54-68

Cristãos sendo usados como tochas humanas, na perseguição sob Nero, por Henryk Siemiradzki, Museu Nacional, Cracóvia, Polônia, 1876.O primeiro caso documentado de perseguição aos cristãos pelo Império Romano direciona-se a Nero. Em 64, houve um grande incêndio em Roma, destruindo grandes partes da cidade e devastando economicamente a população romana. Nero, cuja sanidade já há muito tempo havia sido posta em questão, era o suspeito de ter intencionalmente ateado fogo. Em seus Annales, Tácito afirma que "para se ver livre do boato, Nero prendeu os culpados e infligiu as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamada cristãos pelo populacho".

Ao associar os cristãos ao terrível incêndio, Nero aumentou ainda mais a suspeita pública já existente e, pode-se dizer, exacerbou as hostilidades contra eles por todo o Império Romano. As formas de execução utilizadas pelos romanos incluíam crucificação e lançamento de cristãos para serem devorados por leões e outras feras selvagens. Os Annales de Tácito informam: "... uma grande multidão foi condenada não apenas pelo crime de incêndio mas por ódio contra a raça humana. E, em suas mortes, eles foram feitos objetos de esporte, pois foram amarrados nos esconderijos de bestas selvagens e feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes, ou incendiados, e, ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna".

Fonte:

InfoEscola

Wikipédia



Primeiro Século da era Cristã Situação Política: Imperador Domiciano

Tito Flávio Domiciano (em latim Titus Flavius Domitianus), 24 de outubro do 51 — 18 de setembro de 96), habitualmente conhecido como Domiciano, foi imperador romano de 14 de outubro de 81 d.C. até a sua morte a 18 de setembro de 96. Tito Flávio Domiciano era filho de Vespasiano com sua mulher Domitila e irmão de Tito Flávio, a quem ele sucedeu.

A sua juventude e os começos da sua carreira transcorreram à sombra do seu irmão Tito, que alcançou considerável renome militar durante as campanhas na Germânia e Judeia dos anos 60. Esta situação manteve-se durante o reinado do seu pai Vespasiano, coroado imperador a 21 de dezembro de 69, após um longo ano de guerras civis conhecido como o ano dos quatro imperadores. Ao tempo que o seu irmão gozou de poderes semelhantes aos do seu pai, ele foi recompensado com honras nominais que não implicavam responsabilidade alguma. À morte do seu pai a 23 de junho de 79, Tito sucedeu-lhe pacificamente, mas o seu curto reinado finalizou abrupta e inesperadamente à sua morte por doença, a 13 de setembro de 81. Ao dia seguinte, Domiciano foi proclamado imperador pela guarda pretoriana. O seu reinado, que duraria quinze anos, seria o mais longo desde o de Tibério.

As fontes clássicas descrevem-no como um tirano cruel e paranoico, localizando entre os imperadores mais odiados ao comparar a sua vileza com as de Calígula ou Nero. Porém, a maior parte das afirmações a respeito dele têm a sua origem em escritores que foram abertamente hostis para com ele: Tácito, Plínio, o Jovem e Suetônio. Estes homens exageraram a crueldade do monarca ao efetuar adversas comparações com os cinco bons imperadores que o sucederam. Como consequência, a historiografia moderna recusa a maior parte da informação que contêm as obras destes escritores ao considerá-los pouco objetivos. É descrito como um autocrata despiedado, mas eficiente, cujos programas pacíficos, culturais e econômicos foram precursores do próspero século II, comparado com o turbulento crepúsculo do século I. A sua morte marcou o final da dinastia Flaviana, bem como a instauração da dinastia Antonina.

Política religiosa

Domiciano acreditava firmemente na religião romana tradicional e dirigiu uma intensa política com o objeto de ressuscitar os antigos costumes e restabelecer a moral romana. A fim de justificar a divina posição da dinastia Flaviana, enfatizou as fictícias conexões com a deidade romana mais importante, Júpiter. Foi restaurado o Templo de Júpiter da colina Capitolina e construída uma pequena capela dedicada a Jupiter Conservator nas imediações do edifício onde se escondeu o imperador a 20 de dezembro de 69. No fim do seu reinado o edifício seria ampliado e consagrado a Jupiter Custos.Contudo, a deidade favorita do imperador era Minerva.

Não somente manteve um santuário dedicado a ela no seu dormitório, mas ordenou à sua administração que a deusa aparecesse regularmente nas suas moedas. Além disso, na sua honra foi fundada a Legio I Minervia. Domiciano também ressucitou a prática do culto imperial, caída em desuso durante o reinado de Vespasiano; além disso, conferiram-se honras ao seu irmão e foi completado o Templo de Vespasiano e Tito, dedicado ao seu pai e irmão. A fim de estimular a memória dos triunfos dos "Flávios"', foram construídos o Templum Divorum e o Templum Fortuna Redux e finalizado o Arco de Tito.

Os projetos de construção constituem a parte mais ostensível da política religiosa efetiva durante o seu reinado, embora o imperador também se preocupasse em fazer cumprir a lei religiosa e a moral pública. Em 85 designou-se a si mesmo censor perpétuo, magistratura responsável pela supervisão da moral e da conduta romana. De novo, o imperador desempenhou as responsabilidades derivadas do seu cargo com grande diligência. Foi restaurada a Lex Iulia de Adulteriis Coercendis, pela qual os adúlteros eram exilados. Golpeou e expulsou um cavaleiro que fazia parte de um jurado por se ter divorciado da sua esposa e expulsou do Senado a um ex-questor por agir e bailar. Perseguiu desapiadadamente a corrupção existente entre os funcionários públicos através da eliminação de jurados que aceitaram subornos e a derrogação de leis quando a existência de um conflito de interesses era suspeita.

Castigou com o exílio ou o assassinato os autores de escritos difamatórios, especialmente quando esses escritos iam dirigidos contra ele. Os atores eram controlados opressivamente pois as suas atuações podiam ser objeto de sátiras para desprestigiar ao imperador; em consequência, foram proibidas as aparições públicas dos mimos. Em 87, foi descoberto que as virgens vestais quebraram o seu voto de castidade durante a sua época ao serviço do império; devido a que estas eram consideradas filhas da comunidade, esta ofensa constituía em essência um incesto. Jones afirma que os implicados no delito foram condenados à morte e queimadas vivas as vestais.

As religiões estrangeiras eram toleradas enquanto não interferissem na ordem pública e que pudessem ser assimiladas à tradicional religião romana. Durante o reinado da dinastia Flaviana cresceu o culto às diferentes deidades egípcias de um modo que não se voltaria a ver até o começo do reinado de Cômodo. Entre as deidades veneradas destacam-se Serapis e Ísis, identificadas com Júpiter e Minerva respectivamente. Uma tradição baseada nos escritos de Eusébio de Cesareia defende que cristãos e judeus foram implacavelmente perseguidos em finais do seu reinado.

Muitos eruditos defendem a teoria de que o livro do Apocalipse foi escrito durante o reinado de Domiciano como reação à intolerância religiosa do imperador. Contudo, não existem provas determinantes de uma verdadeira opressão religiosa exercida durante o seu reinado. Embora os judeus fossem fortemente gravados com impostos, nenhuma fonte contemporânea dá ao manifesto a existência de juízos ou execuções baseados em ofensas religiosas desta natureza.

Fonte:

Wikipédia

Carta das Igrejas de Viena e Lyon

Os servos de Cristo que habitam em Viena e Lyon nas Galias, a seus irmãos de Ásia e Frigia, que participam de nossa fé e nossa esperança na redenção, paz, graça e gloria pelo Pai e Nosso Senhor Jesus Cristo. Ninguém podia explicar, nem nós descrever, a grandeza das tribulações que os abençoados Martires padeceram, nem a raiva e furor dos gentis contra os santos. Nosso adversário reuniu todas suas forças contra nós, e em seus desígnios de perder-nos, foi com cautela fazendo-nos sentir ao princípio alguns sinais de ódio. Não deixou pedra por mover, sugerindo a seus satélites toda classe de meios contra os servos do Senhor; chegou a tal extremo que nem nas casas nem nos banhos, nem ainda no foro, tolerava-se nossa presença; em nenhum lugar nos podíamos apresentar.

2. A graça de Deus nos assistiu contra o demônio; ela fortaleceu aos mais débeis e lhes fez fortes como colunas, que resistiram a todos os empuxos do inimigo. Estes, surpreendidos de improviso, suportaram toda sorte de ultrajes e tormentos que a outros tivessem parecido demasiado longos e dolorosos, mas a eles lhes pereciam ligeiros e suaves: tal era seu desejo de unir-se com Cristo. Mostraram-nos com seu exemplo que não há comparação entre as dores desta vida e a glória que na outra temos de possuir. Em primeiro lugar, tiveram de sofrer todos os insultos e vexações que o povo em massa lhes esbanjou, gritos, golpes, detenções, confiscações de bens, lapidações e, por fim, o cárcere; em soma, quanto um povo furioso costuma esbanjar a suas vítimas. Tudo foi suportado com admirável constância. Os que tinham sido presos foram conduzidos ao foro pelo tribuno da cidade, e interrogados ante o povo. Todos confessaram sua fé e foram encarcerados até o regresso do legado imperial.

3. A sua volta foram levados a sua presença, e como tratasse com extrema dureza aos nossos, Vecio Epágato, um de nossos irmãos que assistia ao interrogatório, tão acendido no amor de Deus como no do próximo, e que desde muito jovem tinha merecido os elogios que o ancião como Zacarías, por sua vida austera e perfeita, caminhando com firmeza pelas vias do Senhor, impaciente de fazer-se de algum modo útil, não pôde sofrer tão manifesta iniqüidade, e cheio do zelo de Deus pediu para se a defesa dos acusados, comprometendo-se a provar que não mereciam a acusação de ateísmo e impiedade. Os que rodeavam o tribunal exclamaram a vozes contra ele. O legado recusou sua demanda, por mais justificada do que fora, e lhe perguntou simplesmente se era cristão: Sim, respondeu ele com voz clara e resolvida; e foi agregado ao número de Martires. Vede aí ao advogado dos cristãos, disse o presidente com ironia. Mas Vecio tinha dentro de sim ao advogado por excelência, ao Espírito Santo, em maior abundância ainda do que Zacarías, já que lhe inspirou entregar-se a se próprio em defesa de seus irmãos. Foi e é genuíno discípulo de Cristo, e segue ao Cordeiro por tudo lugar que vai.

4. Desde aquele momento, também os demais confessores começaram a distinguir-se. Os primeiros Martires confessaram sua fé com todo ousadia e alegria de ânimo. Então também se conheceram os que não estavam tão fortes e preparados para tão furioso ataque. Destes, dez apostaram, o que nos produziu grande pena, e foi causa de abundantes lágrimas, porque com sua conduta atemorizaram a outros muitos, que ficaram livres, os quais, a costa de inumeráveis perigos, assistiram aos que tinham confessado sua fé.Por aqueles dias todos éramos presa de um grande temor e sobressalto pelo sucesso incerto da confissão da fé, mais bem do que por temor aos tormentos que se nos davam, pelo das apostasias. Cada dia novos detenções vinham encher os esvaziamento deixados pelas defecções, e muito cedo os mais preclaros dos membros das duas igrejas, seus fundadores, estiveram encarcerados. Também o foram alguns servos nossos ainda que eram gentis, porque a ordem de detenção do procônsul nos englobava a todos. Estes desgraçados, incitados pelo demônio, aterrorizados pelos tormentos que viam padecer aos fiéis, e movimentados a isso pelos soldados, declararam que infanticídios, banquetes de carne humana, incestos e outros crimes, que não se podem nomear, nem ainda imaginar, nem é possível que jamais homem algum tenha cometido, eram cometidos por nós os cristãos. Estas calúnias, espalhadas entre o vulgo, comoveram de tal maneira os ânimos contra nós, que ainda aqueles que até então, por razões de parentesco, tinham-se mostrado moderados, se ficavam com raiva contra nós. Então se cumpriu o que disse o Senhor: Chegará um dia em que aqueles que vos tirem a vida criam fazer uma obra agradável a Deus. Desde aqueles dias os Martires santos sofreram tais torturas, que nem explicar-se podem, com as quais oo diabo pretendia fazer-lhes confessar-se réus dos crimes de que se os acusava.

5. Se manifesto de um modo particular o furor do povo, do presidente e dos soldados sobre o diácono de Viena Santos, sobre Maturo neófito, mas, apesar disso, valente atleta de Cristo, sobre Atalo, originário de Pérgamo, apoio e coluna de nossa igreja sobre Blandina, na qual demonstrou Cristo que o que aos olhos dos homens é vil, ignominioso e desprezível, é para Deus de grande estima, em razão do amor demonstrado ao e da fortaleza em confessar-lhe; porque Deus aprecia as coisas como em si são, não as aparências. Todos temíamos, e em particular a que fala sido sua senhora (também se encontrava entre os Martires), que aquele corpo tão diminuto e débil não poderia confessar a fé até o fim; mas foi tal a fortaleza de Blandina, que os verdugos que se relevavam uns a outros desde a manhã até a noite, depois de aplicá-la todos os tormentas, tiveram que desistir, rendidos de fadiga. Esgotados todos seus recursos, confessaram-se vencidos, admirando-se de que ainda ficasse com vida depois de ter todo o corpo rasgado e desfeito pelos tormentos, chegando a confessar que uma só das torturas tivesse bastado para causá-la a morte, quanto mais todas elas. Apesar de tudo, ela, como um forte atleta, renovava seus torças confessando a fé. E pronunciando estas palavras: Sou cristã e Nós não fazemos maldade alguma, parecia descansar e cobrar novos ânimos esquecendo-se da dor presente.

6. Também Santos, tendo experimentado em seu corpo todo os tormentos que o talento humano pôde imaginar, e quando esperavam seus verdugos que a força de torturas conseguiriam fazer-lhe confessar algum crime, esteve tão constante e firme que não disse seu nome nem o de sua nação, nem o de sua cidade, nem ainda se era servo ou livre, senão que a todas as perguntas respondia em latim: Sou cristão . isto era para ele seu nome, sua pátria e sua raça, e os gentis não puderam fazer-lhe pronunciar outras palavras. Por tudo o qual se acendeu contra ele de um modo especial a ira e furor do presidente e dos verdugos; a tal ponto, que não lhes ficando já mais lugar em que lhe atormentar, aplicaram-lhe lâminas de bronze ardendo sobre as partes mais sensíveis do corpo Enquanto seus membros se abrasavam, ele permanecia firme em sua confissão, porque estava banhado e fortificado pelas águas de vida que manam do corpo de Cristo. O corpo mesmo do mártir atestava claramente o que tinha sofrido, porque tudo ele era uma chaga, contraído e retorcido, de tal forma que m a figura de homem conservava. No qual, padecendo o mesmo Cristo, fazia grandes milagres, derrotando por completo ao inimigo e dando exemplo aos demais fiéis, de que onde reina a caridade do Pai não há nada que temer, porque a dor se muda em glória para Cristo. Passados alguns dias, aqueles malvados voltaram a atormentar ao mártir, crendo que se reiteravam os tormentos sobre as chagas sangrentas e torcidas sairiam vencedores, porque em tal estado até o só tocá-las com a mão produziria uma dor insuportável Ao menos esperavam que se morriam nos tormentos, os demais se intimidariam. Nada disto ocorreu, porque contra o que todos esperavam, o corpo de repente recobrou seu vigor e antiga beleza, de tal modo que o segundo tormento mais bem foi para ele um refrigério do que uma pena.

7. Bibliada era uma mulher daquelas que tinham renegado de Cristo, oo diabo, crendo-a já sua, e querendo-a fazer responsável de um novo crime, o de blasfêmia, conduziu-a ao tormento, esperando que como antes se tinha mostrado débil, agora conseguiria dela fazê-la confessar nossos crimes. Mas ela o recuso, ainda que a aplicaram o tormento, e despertando como acordando de um profundo sonho, os tormentos que tinha presentes a fizeram pensar nos do inferno. E disse a seus verdugos: Como credes vocês que uns homens a quem está proibido comer carne de animais têm de comer-se aos meninos? Desde aquele momento se confessou cristã e foi contada entre o número dos Martires.
8. Como todos os tormentos inventados pelos tiranos fossem superados pela constância que Cristo concedeu a seus confessores, o o diabo inventou novos modos de tormentos. Se os encerrou em escuro e muito incômodos calabouços, com os pés metidos em cepos e esticados..., além de todos os inventos de novos suplícios que os cruéis carcereiros, inspirados pelo demônio, Imaginaram para dar tormento a suas vítimas. A tal extremo chegaram que muitos pereceram asfixiados nos cárceres Deus, que em todas as coisas mostra sua glória, fala-lhes reservado tal gênero de morte. Outros que falam sido tão martirizados que nem Imaginar-se podia, ficaram com vida, ainda que se lhes tivessem aplicado todos os remédios, continuaram no cárcere, destituídos de auxílio humano, mas confortados pelo Senhor, firmes espiritual e corporalmente, os quais consolavam aos demais. Outros que falam sido apresados posteriormente e que não estavam tão acostumados aos tormentos, não podendo suportar os padecimentos do cárcere, expiraram nela.

9. O abençoado Potino, bispo da igreja de Lyon, com o corpo tão débil que mal retinha em si o espírito, recobrou novos forças ante a iminência do martírio, também o foi conduzido ao tribunal. Seu corpo, débil pela idade, e ademais enfermo, encerrava um alma disposta a triunfar por Cristo Foi levado ao tribunal pelos soldados, acompanhando-lhe os magistrados da cidade e uma multidão imensa, que lhe aclamava a vozes como se ele fora o mesmo Cristo. Ante o tribunal deu bom depoimento de sua fé. Perguntado pelo presidente qual era o Deus dos cristãos, respondeu: Se és digno lhe conhecerás. Depois, sem respeito algum, foi arrastado e talher de feridas, porque os que estavam próximos a ele lhe deram de pontapés e murros, sem o menor respeito a seus cabelos brancos. Os que estavam mais longe lhe arrojaram quanto lhes veio às mãos: todos eles se tivessem crido réus de um grande crime se não lhe tivessem atormentado quando puderam Assim criam vingar a injúria de seus deuses. Naquele estado foi levado ao cárcere onde expirou aos dois dias.

10. Então brilhou de um modo particular a providência divina, e se manifestou a imensa misericórdia de Jesus Cristo num fato que a nós nos parece raro, mas muito próprio da sabedoria e bondade de Cristo. Todos aqueles irmãos que tinham sido apresados quando a primeira ordem de detenção e que tinham renegado a fé, foram encarcerados o mesmo que os que a tinham confessado, e sofriam as mesmas penalidades que os Martires. Nada lhes valeu seu apostasia. Aqueles que se confessaram cristãos foram encarcerados como tais, e não se lhes imputou outro crime. Em mudança, aos outros se lhe encarcerava como a homicidas e homens criminosos, e sofriam duplo tormento que os demais. Porque aos verdadeiros Martires lhes consolava e dava ânimo o gozo do martírio, a esperança da glória e o amor a Jesus Cristo e do Espírito do Pai. Pelo contrário, aos renegados lhes remordia sua consciência, tanto que com só olhá-los à cara se lhes conhecia e se lhes distinguia dos demais. Os verdadeiros Martires andavam alegres, refletindo-se em suas caras uma verdadeira majestade e nobreza, de maneira que as correntes para eles eram um enfeite, que aumentava seu beleza, como a de uma desposada vestida de seu traje de casamento. AOS apóstatas se lhes via com a cabeça baixa, sujos, mau vestidos, talheres de ignomínia até para os mesmos gentis, que desprezava sua covardia e os tratavam como a assassinos confessos por seu próprio depoimento. Tinham perdido o glorioso nome de cristãos. Tudo isto era um grande estímulo para os confessores da fé que o viam. Quando depois eram apedrejados alguns outros, em seguida confessavam a fé para não cair na tentação de mudar de propósito.

11. Mais tarde se dividiu aos Martires por grupos, segundo o gênero de martírio: desta sorte os gloriosos confessores apresentaram ao Pai uma coroa tecida de flores de diversas cores. Era justo que aqueles valentes lutadores que tinham tido tantos combates e tantos triunfos, recebessem a coroa da imortalidade. Maturo, Santos, Blandina e Atalo foram condenados às bestas no anfiteatro, para dar um público espetáculo de inumanidade a costa dos cristãos. Maturo e Santos de novo suportaram no anfiteatro toda a série dos tormentos como se antes nada tivessem sofrido; ou, melhor dito, como atletas que, superados a maior parte dos obstáculos, lutam por conseguir a coroa. De novo deveram padecer os mesmos suplícios; as varas, as mordidas das feras que os arrastavam pela areia e tudo o que o vulgo furioso pedia a gritos. Ao fim as grelhas ao vermelho, sobre as quais se assavam as carnes dos Martires, despedindo cheiro intolerável, que se estendia por todo o anfiteatro. Nem isto bastou para acalmar aqueles instintos sanguinários, muito ao invés, aumentou seu furor com o desejo de vencer a constância dos Martires. A Santos não conseguiram fazer-lhe pronunciar outra palavra que aquela que tinha repetido desde o princípio: Sou cristão. Por fim, depois de tão horrível martírio, como ainda respirassem, tare mandado que os degolassem. Aquele dia eles deram o espetáculo ao mundo em lugar dos variados jogos dos gladiadores. Blandina foi exposta às feras suspendida num poste. Atada ao em forma de cruz, constantemente esteve fazendo oração a Deus com o qual esforçava o valor dos demais Martires, os quais, na pessoa da irmã, viam com seus próprios olhos a imagem daquele que morreu crucificado por sua salvação, e para demonstrar aos que acreditassem em ele que tudo aquele que padecesse pela glória de Cristo fala de ser partícipe com Deus. Não atacando nenhuma fera o corpo da mártir. foi deposta do madeira e encerrada no cárcere, reservando-a para um novo combate. Vencido o inimigo em todas estas coisas , a derrota da tortuosa serpente seria inevitável e segura, e com seu exemplo estimularia o valor dos irmãos. Já que ainda que de por si era delicada e desprezível, revestida da fortaleza do invicto atleta Cristo, triunfaria repetidas vezes do inimigo e conseguiria, em glorioso combate uma coroa incorruptível . O populacho pediu a grandes vozes o suplício de Atalo, porque era de família nobre; ele se apresentou ao combate com a consciência calma por ter feito com justiça . Porque estava bem imposto na doutrina do cristianismo e sempre tinha sido entre nós uma fiel testemunha da verdade. Levaram lhe pelo anfiteatro, e adiante dele era levada uma tabela, sobre a qual se fala escrito em latim: Leste é Atalo, o cristão, o qual foi motivo para que os espectadores se ficaram com mais raiva contra ele. Quando o legado se deu conta de que era cidadão romano, mandou que fora de novo conduzido ao cárcere com todos os demais. Depois conferiu ao Cessar sobre o que fala de fazer-se com os encarcerados, e esperou sua resposta.

12. Esta trégua não foi infrutuosa e sem proveito, porque graças à indulgência dos confessores se revelou a imensa misericórdia de Cristo; os membros da igreja que tinham perecido, com a ajuda e solicitação dos membros vivos, foram devolvidos à vida, e com grande gozo da igreja virgem e mãe, voltaram a seu seio sãos e salvos aqueles filhos abortivos que ela tinha arrojado. Por mediação dos Martires santos aqueles outros que tinham apostatado a fé voltaram à igreja e foram como concebidos de novo, e animados de novo com calor vital aprendiam a confessar a fé. Quando estiveram já devolvidos à vida e confortados pela misericórdia de Deus, que não quer a morte do pecador, senão mais bem do que se arrependa e viva por segunda vez, apresentaram-se ao tribunal para ser interrogados pelo legado; porque já este tinha recebido uma carta do imperador, segundo o qual os que perseverassem na confissão da fé deviam ser decapitados, e os que renegassem absolvidos e postos em liberdade. O dia da grande feira, que se celebra entre nós, e à que vão mercadores de todas as províncias, o legado mandou comparecer aos Martires ante seu tribunal, tentando dar ao povo uma espécie de função teatral. No novo interrogatório todos os que eram cidadãos romanos foram condenados à pena capital e os demais a ser expostos às feras.

13. Aquilo foi um triunfo para Cristo; todos os que antes tinham negado a fé, então a confessaram com grande valentia contra tudo o que esperavam os gentis. Se os interrogou aparte dos demais, crendo que renegariam a fé e seriam postos em liberdade; mas como confessaram, foram agregados ao grupo dos Martires. Só ficaram fora aqueles em cujas almas não tinha nem sinal de fé, nem respeito pelo traje do Batismo, nem traça de temor de Deus; filhos de perdição, que com sua maneira de viver infamaram a religião que professavam. Todos os outros foram incorporados à Igreja. Quando estes eram interrogados, Alejandro, frigio de nação, e de profissão médico, quem já fazia muitos anos que morava nas Galias, e a quem todos conheciam por seu grande amor de Deus e seu zelo por pregar a fé (porque nele habitava a graça da predicação), achava-se junto ao tribunal e animava com gestos aos confessores. Mas o populacho, irritado já porque os que tinham apostado confessavam de novo a fé, começou a vociferar contra Alejandro, acusando-lhe de ser o causador de tal retratação. Instando o presidente, perguntou-lhe quem era. Como contestasse que era cristão, irritado o juiz lhe condenou às feras. Ao dia seguinte foi jogado a elas junto com Atalo, porque o legado não quis opor-se às reclamações do povo. Ambos, depois de passar por todos os tormentos inventados pelo ódio contra os cristãos, depois de um magnífico combate, foram degolados. Alejandro no tempo todo que durou o martírio não pronunciou uma palavra nem exalou um gemido, senão que esteve abstraído em Deus. Atalo por sua vez, ao ser torrado numa grelha, como exalasse muito mau cheiro seu corpo, falou desta maneira ao povo Isto que estais fazendo, isto é comer-se aos homens; nós nem nos comemos aos homens, nem fazemos mal nenhum. E como os gentis lhe perguntassem pelo nome de Deus, contestou: Deus não tem um nome como nós os mortais.

14. Depois de todos estes, o último dia dos espetáculos de novo tocou a vez a Blandina, com o jovem de quinze anos Póntico. Os dois em dias anteriores tinham sido introduzidos para que vissem como eram atormentados os demais. Foram várias vezes incitados a Jurar pelos deuses dos gentis, mas como permanecessem firmes em seu propósito e se burlassem deles, isto lhes atraiu de tal modo as iras do populacho, que não tiveram consideração alguma com a terna idade do um e a debilidade do sexo da outra. Experimentaram neles toda classe de torturas e vexações para conseguir fazê-los jurar pelos deuses, mas tudo inútil. Todos os espectadores se davam conta de que as exortações da irmã eram as que sustentavam ao Jovem, que finalmente depois de sofrer com grande ânimo os tormentos expirou. Já só ficava Blandina, que como uma mãe tinha animado a seus filhos ao combate, e tinha feito que todos a precedessem vencedores adiante do rei, seguindo-lhes a todos ela pelo sangrento caminho que tinham traçado, gozosa de seu próximo triunfo, como quem foi convidado a um banquete nupcial, não como um condenado às bestas. Depois de tolerar os relhos, depois de ser arrastada pelas feras, depois das grelhas ardentes, foi envolvida numa rede e exposta a um touro bravo, o qual a lançou repetidas vezes pelos ares mas ela não sentiu nada: tão abstraída estava na esperança dos bens futuros e em sua íntima união com Cristo. Ao fim a degolaram. Os mesmos gentis chegaram a confessar que nunca entre eles se tinha visto a uma mulher padecer tantos tormentos.

15. Nem com tudo isto chegou a acalmar-se o furor e sanha dos gentis contra os cristãos. Aquelas gentes, bárbaras e ferozes exacerbadas mais ainda pela raiva da besta cruel, não eram fáceis de aplacar. Sua sanha se mostrou nos corpos dos Martires. A vergonha de sua derrota não lhes fazia humilhar-se, pareciam não ter nem sentimentos nem razão humana. A raiva e furor do delegado e do povo cresciam como os de uma fera, por mais do que não tivesse motivo algum para odiar-nos daquele modo. Assim se cumpria a escritura, que diz: O malvado que se perverta mais ainda, e o justo, justifique-se mais,. Os corpos dos que tinham morrido asfixiados no cárcere foram arrojados aos cachorros, pondo guarda de dia e de noite para que não pudéssemos recolhê-los e sepultá-los. O que perdoaram as feras e o fogo, bocados rasgados, membros torrados e carbonizados, cabeças truncadas. tudo isso ficou durante muitos dias insepulto, com uma escolta militar para guardá-lo. E ainda tinha quem se enfureciam e rechinaram os dentes contra os mortos, e tivessem querido lhes aplicassem mais refinados tormentos. Outros se riam e os falavam mal, dando glória e exaltando aos deuses pelas penas que tinham feito padecer aos Martires. Alguns outros, um pouco mais humanos, e que aparentavam ter-nos compaixão, também nos escarneciam dizendo: Onde está seu Deus? E daí lhes aproveitou sua religião pela qual deram suas vidas? Esta era a atitude dos gentis para com nós. Por nossa parte a dor era muito grande por não poder sepultar os cadáveres. Porque nem de noite, nem a força de dinheiro, nem com súplicas, pudemos quebrantar suas vontades; ao invés, punham todo seu empenho em custodiar os cadáveres como se disso se lhes seguisse um grande benefício.

16. Assim, pois, os corpos dos Martires foram objeto de toda sorte de ultrajes durante os seis dias que estiveram expostos; depois se lhes queimou e reduziu a cinzas, e estas arrojadas à corrente do Ródano, para que não ficasse nem sinal delas. Com isto criam fazer-se superiores a Deus e privar aos Martires da ressurreição. Deste modo, diziam eles, não lhes ficará nenhuma esperança de ressuscitar, confiados na qual introduziram esta nova religião, e sofrem alegres os mais atrozes tormentos, desprezando a mesma morte. Agora veremos se ressuscitam e se seu Deus lhes pode auxiliar e livrá-los de nossas mãos.

17. Aqueles que tanto se tinham esforçado por imitar a Cristo, que tendo a natureza divina nada usurpou a Deus ao fazer-se igual a O, e que depois de ter sido elevados a tanta glória e de ter tolerado não uno que outro, senão tantos gêneros de suplícios, que sabiam o que eram as feras e o cárcere, que ainda conservavam as chagas das queimaduras e tinham os corpos cobertos de cicatrizes; aqueles homens, pois, não ousavam chamar-se Martires, m permitiam que se o chamassem. Se alguns de nós, por escrito ou de palavra, atrevia-se a chamar-se, lhe repreendiam com severidade. Tal título de mártir só lhe davam a Cristo, testemunha verdadeira e fiel, primogênito dos mortos e princípio e autor da vida divina. Também concediam este título àqueles que tinham morrido na confissão da fé. Eles já são Martires, diziam, porque Cristo recebeu sua confissão e a selou como com seu anel. Nós só somos pobres e humildes confessores. E com lágrimas nos olhos nos rogavam pedíssemos ao Senhor que também eles pudessem um dia atingir tão grande fim. Realmente mostravam ter valor verdadeiramente de Martires ao responder com tanta liberdade e confiança aos gentis, dando mostras de grande tempere de alma. Recusavam o nome de Martires que lhes davam os irmãos, possuídos como estavam de temor de Deus, e se humilhavam sob sua poderosa mão que tão alto lhes tinha elevado. A todos escusavam e não condenava a ninguém. A todos perdoavam e a ninguém acusavam. Ainda por aqueles por quem tão cruelmente tinham sido atormentados faziam oração ao Senhor, e a imitação de Estevão diziam: Senhor, não lhes incrimineis este pecado. E se O orava pelos que lhe apedrejavam, Com quanta maio razão temos de crer que o farta pelos irmãos? A maior luta a tiveram de livrar contra o demônio, movidos de ardente e sincera caridade para com os irmãos, porque pisando o pescoço da antiga serpente, obrigaram-na a restituir a presa que se dispunha a devorar. Respeito dos caídos, não fizeram com soberbia e desdém; ao invés, esbanjavam-lhes quantos favores podiam, mostrando-lhes um amor maternal, derramando ante o Senhor abundantes lágrimas para atingir-lhes a salvação. Pediram ao Senhor a vida, e se a concedeu, e eles, a sua vez, se a comunicaram a seus próximos. Em tudo saíram vitoriosos.Amaram a paz e nos a recomendaram, e em paz foram à presença de Deus. Não foram nem causa de dor para a mãe, nem de discórdia para os irmãos, senão que a todos deixaram como herança a alegria, a concórdia e o amor.
18. Alcibíades, um dos Martires, levava uma vida dura e mortificada, vivia só de pão e água. Como no cárcere quisesse seguir o mesmo regime, depois de ser expostos pela primeira vez no anfiteatro, foi-lhe revelado a Atalo que Alcibíades não fazia bem em não querer usar das criaturas de Deus, e porque era ocasião de escândalo para os demais. No ponto obedeceu Alcibíades, e em adiante usou sem distinção de todos os alimentos, dando obrigado ao Senhor. A graça divina não deixo de ajudar os , sendo sua guia e conselheiro o Espírito Santo. (Atas seletas dos Martires Págs. 31-41, Edit. Apostolado Mariano, C/ Recaredo 44, 41003 Sevilla. Sevilla 1991)

Fonte:

Dicionário da igreja primitiva

Epístola a Policarpo de Esmirna

Inácio, também chamado Teóforo, a Policarpo, bispo da Igreja dos esmirnenses, ou antes àquele que tem a Deus-Pai e ao Senhor Jesus Cristo como o bispo os melhores votos de felicidades.

1. Dando acolhida a teus sentimentos em Deus, me rejubilo exaltado, porque eles estão fundados numa rocha inabalável e porque eu fui julgado digno de contemplar teu rosto puro, gozo este que gostaria de perpetuar em Deus. Pela graça de que estás revestido, eu te exorto a acelerar ainda teu passo e a exortar também os outros para que se salvem. Justifica tua posição, empenhando-te todo, física e espiritualmente. Cuida da unidade; nada melhor do que ela. Promove a todos como o Senhor te promove; suporta a todos com amor, como aliás o fazes. Dispõe-te para orações ininterruptas; pede ainda maior inteligência do que já tens; sê vigilante, dono de um espírito sempre alertado. Fala a cada qual no estilo de Deus. Vai levando as enfermidades de todos como atleta consumado. Quanto maior o labor, maior o lucro.
2. Se te agradares dos bons discípulos não terás méritos; submete antes com doçura os contaminados. Nem toda ferida se cura com o mesmo emplastro. Crises violentas acalmam-se com compressas úmidas. Faze-te prudente como serpente em todos os assuntos, sempre simples como a pomba. Por isso é que és carnal e espiritual para atraíres a teu rosto o que te aparece ante os olhos. As coisas invisíveis pede que te sejam reveladas, para que não te chegue a faltar nada e tenhas toda graça em abundância. O tempo atual exige tua presença, para chegares até Deus, assim como os pilotos anelam pelos ventos e os açoitados da tempestade pelo porto. Sê sóbrio como atleta de Deus. O premio é a incorruptibilidade e a vida eterna, do que aliás já te convenceste. Em todos os sentidos, somos teu resgate eu e minhas cadeias que te são caras.
3. Aqueles que parecem dignos de fé e no entanto ensinam o erro não te abalem. Mantém-te firme como bigorna sob os golpes. É próprio de um grande atleta receber pancadas e vencer. Não tenhas nenhuma dúvida, temos que suportar tudo pela causa de Deus, para que também Ele nos suporte. Torna-te ainda mais zeloso do que és; aprende a conhecer os tempos. Aguarda o que está acima do oportunismo, o atemporal, o invisível que por nossa causa se fez visível, o impalpável, o impassível que por nós se fez passível, o que de todos os modos por nós sofreu!

4. Viúvas não fiquem desatendidas; depois do Senhor, providencia tu por elas. Nada se faça sem o teu consentimento; nada faças tu sem Deus; o que aliás não fazes. Sê firme. As reuniões sejam freqüentes; procura a todos, um por um. Não trates com sobranceria a escravos e escravas; também eles não se encham de orgulho, mas sirvam com mais dedicação para a glória de Deus, a fim de alcançarem da parte de Deus uma liberdade melhor. Que não se inflamem sabendo que poderiam libertar-se à custa da comunidade, a fim de não acabarem por escravizar-se à cobiça.
5. Foge às más artes, prega antes contra elas. Fala às minhas irmãs, que amem o Senhor e se contentem com os maridos na carne e no espírito. Da mesma forma, recomenda aos meus irmãos em nome de Jesus Cristo que amem suas esposas como o Senhor ama a Igreja. Se alguém é capaz de perseverar na castidade em honra da carne do Senhor, persevere sem orgulho. Caso se orgulhar, está perdido; se ainda for tido como mais do que o Bispo, está corrompido. Convém aos homens e às senhoras que casam contraírem a união como consentimento do bispo, a fim de que o casamento se realize segundo o Senhor e não conforme a paixão. Tudo se faça para honra de Deus.

6. Atendei ao bispo para que Deus vos atenda. Ofereço-me como resgate daqueles que se sujeitam ao bispo, aos presbíteros e diáconos. Com eles me seja concedido ter parte em Deus. Labutai uns ao lado dos outros, lutai juntos, correi, sofrei, dormi, acordai unidos, como administradores de Deus, como Seus assessores e servos. Procurai agradar Aquele sob cujo estandarte combateis, de quem igualmente recebeis o soldo. Que não se encontre desertor entre vós. Vosso batismo há de permanecer como escudo, a fé como capacete, o amor como lança, a paciência como armadura. Vossos fundos de reserva são vossas obras, para receberdes um dia os vencimentos devidos. Sede pois magnânimos uns com os outros na doçura, como Deus o é convosco. Oxalá possa alegrar-me convosco sempre.
7. Uma vez que a Igreja em Antioquia da Síria goza de paz, como me foi participado, graças a vossas orações, também eu me encorajei mais, pela confiança em Deus; contanto que me encontre com Ele pelo sofrimento e assim no dia da ressurreição possa ser contado como vosso discípulo. Convém, ó Policarpo feliz em Deus, convocar uma reunião agradável a Deus e escolher alguém, tido como especialmente querido e incansável, para poder chamar-se estafeta de Deus; encarregar pois a um tal de viajar para a Síria e aí celebrar vossa caridade infatigável para a glória de Deus. Um cristão não tem poder sobre si mesmo, mas está à disposição de Deus. Esta obra é de Deus e vossa, caso a leveis ao fim. Confio na graça, que estejais prontos para uma obra boa que convém a Deus. Conhecendo vosso zelo pela verdade, acabei por exortar-vos com essas poucas linhas.

8. Uma vez que não pude escrever a todas as Igrejas, por ter que partir apressadamente de Trôade para Nápoles, como manda a vontade de Deus, escreverás às Igrejas mais do Oriente, pois que possuis o espírito de Deus, a fim de que elas também façam o mesmo: umas – as que podem – enviando mensageiros, as outras por sua vez cartas através de enviados teus. Assim sereis enaltecidos por uma obra imperecível, como bem o mereces. Saudações a todos nominalmente, também à viúva de Epitropos com toda a família e filhos. Saudações a Átalo meu amigo; saudações àquele que for julgado digno de viajar à Síria. A graça há de estar sempre com ele e com Policarpo que o envia. Faço votos que passeis bem para sempre em nosso Deus Jesus Cristo, no qual haveis de permanecer na união com Deus e o bispo. Saudações a Alceu, que me é tão caro. Passar bem no Senhor.

Fonte:

Ecclesia Una

Sete Carta de Inacio de Antioquia: Epístola aos Efésios

PARTE I – SAUDAÇÃO INICIAL
Inácio, também chamado Teóforo, àquela que é bendita em grandeza na plenitude de Deus Pai, predestinada antes dos séculos a existir em todo o tempo, unida para uma glória imperecível e imutável, e eleita na Paixão verdadeira, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo nosso Deus à Igreja digna de bem-aventurança, que vive em Éfeso da Ásia, todos os bens em Jesus Cristo e os cumprimentos numa alegria impoluta.

PARTE II – AMOR AOS EFÉSIOS
1. Tomei conhecimento em Deus de vosso nome tão apreciado, que granjeastes por uma apresentação correta, baseada na fé e caridade em Jesus Cristo nosso Salvador. Sendo imitadores de Deus reanimados no sangue de Deus, levastes a termo a obra que vos é congênita. Assim ouvindo que eu vinha da Síria, preso pelo Nome e pela esperança que nos são comuns, confiando chegar até Roma para combater as feras, graças à vossa oração, a fim de ter a felicidade de tornar-me discípulo, vós vos apressastes em ver-me. Recebi, pois, toda a vossa grande comunidade em nome de Deus na pessoa de Onésimo, dotado de indizível caridade e vosso bispo segundo a carne. Peço-vos que o ameis em Jesus Cris­to e que a Ele todos vos assemelheis. Bendito Aquele que vos fez a graça, já que vos mostrastes dignos de possuirdes tal bispo.
2. Quanto a Burrus, meu companheiro de serviço e vosso diácono bendito em todas as coisas segundo o coração de Deus, pediria que continue a meu lado para honra vossa e de vosso bispo. Mas também Crocos, digno de Deus e de vós, a quem acolhi como prova de vosso amor, confortou-me ele de toda a sorte, como também o Pai de Jesus Cristo lhe há de dar conforto junto com Onésimo, Burrus, Euplos e Fronton, pois em suas pessoas vi a todos vós na caridade. Gostaria de merecer a graça de alegrar-me convosco em tudo. Bem, por isso é que convém glorificar de toda sorte a Jesus Cristo que vos tem glorificado para que, reunidos em uma só submissão, sujeitos ao bispo e ao presbitério, vos santifiqueis em todas as coisas.

PARTE III – EXORTAÇÃO À UNIDADE
3. Não vos dou ordens como se fora alguém. Mesmo que carregue os grilhões pelo Nome, ainda não cheguei à perfeição em Jesus Cristo. Pois agora é que começo a instruir-me e vos falo como a meus condiscípulos. Eu de fato deveria ser ungido por vós com fé, exortações, paciência, grandeza d’alma. Mas, desde que a caridade não me permite calar-me sobre vós, tomei a dianteira de exortar-vos a correr de acordo com o pensamento de Deus. Pois Jesus Cristo, nossa vida inseparável, é o pensamento do Pai, como por sua vez os bispos, estabelecidos até os confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo.

4. Segue daí, que vos convém avançar junto, de acordo com o pensamento do bispo, como aliás fazeis. Pois vosso presbitério digno de tão boa reputação, digno que é de Deus, sintoniza com o bispo como cordas com a cítara. Por isso, no acorde de vossos sentimentos e em vossa caridade harmoniosa, Jesus Cristo é que é cantado. Mas também, um por um, chegais a formar um coro, para cantardes juntos em harmonia; acertando o tom de Deus na unidade, cantais em uníssono por Jesus ao Pai, a fim de que vos escute e reconheça pelas vossas boas obras, que sois membros de seu Filho. Vale assim a pena viver em unidade intangível, para que a toda hora também participeis de Deus.

5. Pois, se em tão curto lapso de tempo tive tal intimidade com vosso bispo, não em sentido humano mas espiritual, quanto mais devo felicitar-vos por estardes tão profundamente ligados a ele como a Igreja a Jesus Cris­to e como Jesus Cristo ao Pai, para que todas as coisas estejam em sintonia na unidade. Não se iluda ninguém. Se não se encontrar no interior do recinto do altar, ver-se-á privado do pão de Deus. Vede, se a oração de um e dois possui tal força, quanto mais então a do bispo e de toda a Igreja! Aquele que não vem à reunião comum já se revela como orgulhoso e se julgou a si próprio, pois está escrito: «Deus se opõe aos orgulhosos». Por conseguinte, cuidemo-nos de não nos opormos ao bispo, para estarmos submissos a Deus.
6. E quanto mais alguém percebe que o bispo se cala, mais o respeite. Pois aquele a quem o dono da casa delega para a administração e preciso que o recebamos como receberíamos ao que o enviou. Torna-se pois evidente que se deve olhar para o bispo, como para o próprio Senhor. De fato, porém, o mesmo Onésimo exalta vossa boa disciplina em Deus, dizendo que viveis to­dos conforme a verdade e que entre vós não há heresia que chegue a tomar pé. Antes pelo contrário, a ninguém mais prestais ouvido, a não ser a Jesus Cristo, que fala na verdade.

PARTE IV – FUGIR DA HERESIA
7. Há os que costumam, por um ardil pernicioso, servir-se por toda parte do Nome, mas praticam coisas indignas de Deus. A estes evitareis como a animais selvagens. São realmente cães raivosos, que mordem traiçoeiramente. É preciso precaver-vos de suas mordeduras, difíceis de curar. Um é o médico, em carne e espírito, gerado e não gerado, aparecendo na carne como Deus, na morte vida verdadeira, tanto de Maria como de Deus, primeiro capaz de sofrer, depois impassível, Jesus Cristo Senhor Nosso.
8. Que ninguém vos iluda pois. Nem vos deixeis aliás iludir, sendo todo inteiros de Deus. Pois, se nenhuma intriga se armou entre vós, que vos possa atormentar, é sinal de que viveis segundo Deus. Sou vossa vítima e me ofereço em sacrifício por vossa Igreja, efésios, que será celebrada pelos séculos. Os carnais não podem praticar obras espirituais, nem os espirituais obras carnais, como nem a fé pratica as obras da infidelidade nem a infidelidade as da fé. Mas também aquilo que praticais, segundo a carne, é espiritual, pois fazeis tudo em Jesus Cristo.
9. Soube de pessoas que por lá passaram, fazendo-se portadoras de más doutrinas: não lhes permitistes espalhá-las entre vós, tapando os ouvidos para não acolher as sementes por eles espalhadas, sabendo que sois pedras do templo do Pai, preparadas para a construção de Deus Pai, alçadas para as alturas pela alavanca de Jesus Cristo, alavanca que é a Cruz, servindo-vos do Espírito Santo como de um cabo. Vossa fé por um lado é o guia, enquanto a caridade se transforma em caminho que leva para cima, até Deus. Sois assim todos companheiros de viagem, portadores de Deus, porta­dores de um templo, portadores de Cristo, portadores do que é santo, adornados em todos os sentidos com os preceitos de Jesus Cristo. Alegro-me por isso convosco, por­que tive a honra de falar-vos através dessa carta e de vos felicitar, porque, segundo a nova vida, nada amais senão somente a Deus.

PARTE V – DAR EXEMPLO DE VIRTUDES
10. Mas também pelos demais homens rezai sem cessar. Pois neles existe esperança de conversão, de chegarem a Deus. Permiti-lhes que se instruam junto a vós por vossas obras. Diante de suas explosões de cólera, vós sereis mansos; diante de sua presunção, se­reis humildes; diante de suas blasfêmias, oferecereis orações, diante dos erros deles, manter-vos-eis firmes na fé, diante de sua selvageria, sereis pacíficos, sem pro­curar imitá-los. Que nos encontrem como irmãos pela bondade. Esforcemo-nos por sermos imitadores do Senhor; quem mais do que Ele foi injustiçado? Quem mais despojado? Quem mais desprestigiado? Assim não seja encontrada entre vós planta alguma do diabo, mas que em toda pureza e temperança, permaneçais em Jesus Cristo, corporal e espiritualmente.

PARTE VI – PROCURAR CRISTO, FONTE DE VIDA E UNIDADE
11. Chegamos aos últimos tempos: resta envergonharmo-nos, temermos a longanimidade de Deus, para que ela não se transforme para nós em condenação. Ou temeremos a ira vindoura, ou amaremos a graça presente. Uma das duas. Só o fato de nos encontrarmos em Cristo Jesus nos garantirá entrada para a vida verdadeira. Fora dele, nada tenha valor para vós. É n’Ele que carrego os grilhões, estas pérolas espirituais. Com elas gostaria de ressuscitar, graças à vossa oração, na qual espero ter sempre parte para compartilhar também a herança dos cristãos de Éfeso, que também sempre estiveram unidos aos Apóstolos na força de Jesus Cristo.
12. Sei quem sou e a quem escrevo. Eu, um condenado; vós, os que alcançastes misericórdia. Eu, em perigo; vós, seguros. Vós sois o lugar de trânsito dos que são assumidos para Deus, iniciados nos mistérios com Paulo, o santificado, que recebeu testemunho, e mereceu chamar-se bem-aventurado, em cujas pegadas gostaria de encontrar-me na hora de estar com Deus, ele que em todas as cartas de vós se lembra em Cris­to Jesus.
13. Cuidai, pois, de reunir-vos com mais freqüência, para dar a Deus ação de graças e louvor. Pois, quando vos reunis com freqüência, abatem-se as forças de Satanás e desfaz-se o malefício, pela vossa união na fé. Nada melhor que a paz, que aniquila toda guerra de poderes celestes ou terrestres.

PARTE VII – FÉ E CARIDADE: CRITÉRIO DO VERDADEIRO DISCÍPULO
14. Nada disso constitui novidade, se mantiverdes de modo perfeito em Jesus Cristo a fé e a caridade, que são o começo da vida e seu fim. Pois o começo é a fé e o fim a caridade. Ambas reunidas são Deus, enquanto que tudo o mais é conseqüência para a perfeição humana. Ninguém peca enquanto professa a fé, ninguém odeia enquanto possui a caridade. Conhece-se a árvore pelos seus frutos, assim os que professam ser de Cristo serão reconhecidos pelas obras. Pois nesta hora não é de profissão de fé que se trata, mas de nos mantermos na prática da fé até ao fim.

PARTE VIII – NÃO SE DEIXAR SEDUZIR PELA HERESIA
15. É melhor calar-se e ser do que falar e não ser. É maravilhoso ensinar, quando se faz o que se diz. Assim, um é o Mestre «que falou e tudo foi feito», também aquilo que realizou em silêncio é digno do Pai. Quem de fato possui a Palavra de Jesus pode até ouvir-lhe o silêncio; para ser perfeito, para agir pelo que fala e ser reconhecido pelo que cala. Nada escapa ao Senhor; antes, o que é segredo para nós está perto d’Ele. Façamos pois tudo como se Ele em nós morasse, para sermos seus templos e Ele nosso Deus em nós. E é essa a realidade; e ela se manifestará aos nossos olhos, se o amarmos devidamente.
16. Não vos iludais, meus irmãos, os corruptores da família não herdarão o Reino de Deus. Pois, se pereceram os que praticavam tais coisas segundo a carne, quanto mais os que perverterem a fé em Deus, ensinando doutrina má, fé pela qual Jesus Cristo foi crucificado? Um tal, tornando-se impuro, marchará para o fogo inextinguível, como também marchará aquele que o escuta.
17. Por isso, recebeu o Senhor unção sobre a cabeça para exalar em favor da Igreja o perfume da incorrupção. Não vos deixeis ungir pelo mau odor da doutrina do príncipe deste mundo, de forma que vos leve cativos para longe da vida que vos espera. Por que não nos tornamos prudentes, aceitando o conhecimento de Deus, isto é, Jesus Cristo? Por que morrermos tolamente, desconhecendo o dom que o Senhor nos enviou de verdade?

PARTE IX – O HOMEM NOVO
18. Meu espírito é vítima destinada à Cruz, e esta é escândalo para os incrédulos; para nós, porém, salvação e vida eterna. Onde se encontra o sábio? Onde o pesquisador? Onde a fama dos assim chamados intelectuais? Pois nosso Deus, Jesus Cristo, tomou carne no seio de Maria segundo o plano de Deus, sendo de um lado descendente de Davi, provindo por outro do Espírito Santo. Nasceu, foi batizado, para purificar a água pela sua Paixão.
19. Permaneceu oculta ao príncipe deste mundo a virgindade de Maria e seu parto, como igualmente a morte do Senhor: três mistérios de grande alcance que se processaram no silêncio de Deus. Como então foram eles manifestados aos séculos? Um astro brilhou no céu, mais que todos os astros, sua luz era inenarrável e sua novidade suscitou estranheza; todas as demais estrelas por sua vez junto com o sol e a lua formaram coro em torno do astro, ele, no entanto, projetava mais luz que todos os demais; produziu-se con­fusão: donde viria a novidade, tão diversa deles próprios? A conseqüência disso foi que toda a magia se desfez e que desapareceu toda cadeia de maldade; a ignorância se dissipou, o antigo reinado se destruiu, quando Deus apareceu em forma humana, para a novidade da vida eterna; começou a realizar-se o que fora decidido jun­to a Deus. Desde então tudo se movimentou a um tempo, porque se preparava a destruição da morte.
20. Se Jesus Cristo, pela vossa oração, me tornar digno e se for de Sua vontade, num segundo escrito que desejo compor para vós, hei de esclarecer o que iniciei, a saber, o plano da salvação, em relação ao homem novo, Jesus Cristo, na fé para Ele e no amor para com Ele, em Sua Paixão e Ressurreição. Sobretudo se o Senhor me revelar, que todos, em particular e em comum, na graça que procede do Nome, vos reunis na mesma fé e em Jesus Cristo, que descende segundo a carne de Davi, filho do homem e filho de Deus, para obedecermos ao bispo e ao presbitério numa concórdia indivisível, partindo um mesmo pão, que é o remédio da imortalidade, antídoto contra a morte, mas vida em Jesus Cristo para sempre.

PARTE X – DESPEDIDA E RECOMENDAÇÕES
21. Sou preço de resgate para vós e para os que enviastes para honra de Deus a Esmirna, donde também vos escrevo, em sinal de gratidão ao Senhor e como prova de amor a Policarpo como a vós. Lembrai-vos de mim, como também Jesus Cristo se lembra de vós. Rezai pela Igreja da Síria, donde sou levado preso para Roma. Sendo o último dos fiéis de lá fui julgado digno de servir à honra de Deus. Saudações em Deus Pai e em Jesus Cristo, nossa esperança comum.

Fonte:

Ecclesia Una

Sete Carta de Inacio de Antioquia: Epístola aos Esmirnenses

Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja de Deus Pai e de Jesus Cristo amado, Igreja que encontrou misericórdia em todo dom da graça, repleta de fé e amor, sem que lhe falte dom algum, agradabilíssima a Deus e portadora de santidade, situada em Esmirna, na Ásia. Cordiais saudações em espírito irrepreensível e na pa­lavra de Deus.
1. Glorifico a Jesus Cristo, Deus, que vos fez tão sábios. Cheguei a saber efetivamente que estais aparelhados com fé inabalável, como que pregados de corpo e alma na Cruz do Senhor Jesus Cristo, confirmados na caridade no Sangue de Cristo, cheios de fé em Nosso Senhor, que é de fato da linhagem de Davi, segundo a carne, Filho de Deus porém consoante a vontade e o poder de Deus, de fato nascido de uma Virgem e batizado por João, a fim de que se cumpra n’Ele toda a justiça. Sob Pôncio Pilatos, e o tetrarca Herodes foi também de fato pregado (na Cruz), em carne, por nossa causa – fruto pelo qual temos a vida, pela Sua Paixão bendita em Deus – a fim de que Ele por Sua ressurreição levantasse Seu sinal para os séculos em beneficio de Seus santos fiéis, tanto judeus, como gentios, no único corpo de Sua Igreja.
2. Tudo isso padeceu por nossa causa, para obtermos salvação. Padeceu de fato, como também de fato ressuscitou a Si próprio, não padecendo só aparente­mente, como afirmam alguns infiéis. Eles é que só vivem aparentemente, e, conforme pensam, também lhes sucederá: não terão corpo e se assemelharão aos demônios.
3. Eu porém sei e dou fé que Ele, mesmo depois da ressurreição, permanece em Sua carne. Quando se apresentou também aos companheiros de Pedro, disse-lhes: Tocai em mim, apalpai-me e vede que não sou espírito sem corpo. De pronto n’Ele tocaram e creram, entrando em contato com Seu Corpo e com Seu espírito. Por isso, desprezaram também a morte e a ela se sobrepuseram. Após a ressurreição, comeu e bebeu com eles, como alguém que tem corpo, ainda que es­tivesse unido espiritualmente ao Pai.
4. Encareço tais verdades junto a vós, caríssimos, embora saiba que também vós assim pensais. Quero prevenir-vos contra os animais ferozes em forma humana. Não só não deveis recebê-los, mas, quanto possível, não vos encontreis com eles. Só haveis de rezar por eles, para que, quem sabe, se convertam, coisa por certo difícil. Sobre eles, no entanto, tem poder Jesus Cristo, nossa verdadeira vida. Pois, se nosso Senhor só realizou as obras na aparência, então também eu estou preso só aparentemente. Por que então me entreguei a mim mesmo, à morte, ao fogo, à espada, às feras? Mas estar perto da espada é estar perto de Deus; encontrar-se em meio às feras é encontrar-se junto a Deus, unicamente, porém, quando em nome de Jesus Cristo. Para padecer junto com Ele, tudo suporto, confortado por Ele, que se tornou perfeito homem.
5. Alguns O negam, por ignorância, ou melhor, foram renegados por Ele, por serem antes advogados da morte do que da verdade. A estes não conseguiram converter as profecias, nem a lei de Moisés, nem mesmo até hoje o Evangelho e as torturas de cada um de nós. Pois sobre nós professam eles a mesma opinião. De que me vale um homem – ainda que me louve – se blasfema contra meu Senhor, não confessando que Ele assumiu carne? Quem não o professa negou-O por completo e carrega consigo seu cadáver. Os nomes deles, uma vez que são infiéis, não me pareceu necessário escrevê-los; preferiria até nem lembrar-me deles, enquanto se não converterem à Paixão, que é a nossa Ressurreição.
6. Ninguém se iluda: mesmo os poderes celestes e a glória dos anjos, até os arcontes – visíveis e in­visíveis hão de sentir o juízo, caso não crerem no sangue de Cristo. Compreenda-o quem for capaz de o compreender. Ninguém se ufane de sua posição, pois o essencial é a fé e o amor, e nada se lhes prefira. Considerai bem como se opõem ao pensamento de Deus os que se prendem a doutrinas heterodoxas a respeito da graça de Jesus Cristo, vinda a nós. Não lhes importa o dever de caridade, nem fazem caso da viúva e do órfão, nem do oprimido, nem do prisioneiro ou do liberto, nem do que padece fome ou sede.
7. Abstêm-se eles da Eucaristia e da oração, por­que não reconhecem que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que padeceu por nos­sos pecados e que o Pai, em Sua bondade, ressuscitou. Os que recusam o dom de Deus, morrem disputando. Ser-lhes-ia bem mais útil praticarem a caridade, para também ressuscitarem. Convém, pois, manter-se longe de tais pessoas, deixar de falar delas em particular e em público, e passar toda a atenção aos Profetas, especialmente ao Evangelho, pelo qual se nos patenteou a Paixão e se consumou a Ressurreição. Fugi das dissensões, fonte de misérias.
8. Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; sigam ao presbitério como aos apóstolos. Acatem os diáconos, como à lei de Deus. Ninguém faça sem o bispo coisa alguma que diga respeito à Igreja. Por legítima seja tida tão-somente a Eucaristia, feita sob a presidência do bispo ou por delegado seu. Onde quer que se apresente o bispo, ali também esteja a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus também nos assegura a presença da Igreja Católica. Sem o bispo, não é permitido nem batizar nem celebrar o ágape. Tudo, porém, o que ele aprovar será também agradável a Deus, para que tudo quanto se fizer seja seguro e legítimo.

9. No mais, é razoável voltarmos ao bom-senso, e convertermo-nos a Deus, enquanto ainda for tempo. Bom é tomarmos conhecimento de Deus e do bispo. Quem honra o bispo será também honrado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo presta culto ao diabo. Que tudo redunde em graça a vosso favor, pois bem o mereceis. Vós me confortastes de toda maneira e Jesus Cristo a vós. As provas de carinho me seguiram, presente estivesse eu ou ausente. Que Deus seja a paga, por cujo amor tudo suportais, pelo que também haveis de chegar a possuí-lo.

10. Fizestes bem em receber, como diáconos de Cristo-Deus, a Fílon e Reos Agátopos – que pela causa de Deus me seguiram. Agradecem eles ao Senhor por vós, porque os confortastes de toda a sorte. Nada disso se perderá para vós. Dou-vos como preço de resgate meu espírito e minhas algemas que vós não desprezastes e de que também não vos envergonhastes. Jesus Cristo também de vós não se envergonhará, Ele que é a fé perfeita.
11. Vossa oração aproveitou à Igreja de Antioquia na Síria, de onde vim preso com grilhões, tão do agrado de Deus, e donde a todos saúdo, embora não seja digno de ser de lá, eu, o menor dentre eles. Mas, pela vontade de Deus, fui tido por digno, não pelo julgamento de minha consciência, mas sim pela graça de Deus. Desejo que ela me seja concedida em sua perfeição, a fim de que eu, por meio de vossa oração, encontre a Deus. No entanto, para que vossa obra seja per­feita, tanto na terra como no céu, cumpre que a Vossa Igreja, para honra de Deus, escolha um seu legado que vá até a Síria, para se congratular com eles, porque gozam novamente de paz, readquiriram sua grandeza e lhes foi restaurado o corpo. É a meu ver de fato obra digna enviardes um legado de vosso meio, com uma carta, a fim de celebrar com eles a paz que lhes foi con­cedida, consoante a vontade de Deus, pois já chegaram ao porto, graças à vossa oração. Sendo perfeitos, pensai também no que é perfeito, pois se tencionais agir bem, Deus está igualmente disposto a vo-lo conceder.

12. Saúda-vos a caridade dos irmãos de Trôade, donde vos escrevo por intermédio de Burrus, a quem enviastes juntamente com os efésios, vossos irmãos, para me fazer companhia. Animou-me em todo sentido. Todos deveriam imitá-lo como exemplo no serviço de Deus. A graça o recompensará em todo sentido. Saudações ao bispo, digno de Deus, a vosso presbitério tão agradável a Deus, aos diáconos, meus companheiros de serviço a cada um em particular e a todos em geral, em nome de Jesus Cristo, na Sua carne e no Seu sangue, na Paixão e na Ressurreição, em corpo e alma, na unidade de Deus e na vossa. Para vós a graça, a misericórdia, a paz, e a paciência para todo sempre.
13. Saudações às famílias de meus irmãos, com suas esposas e filhos e com as virgens, chamadas viúvas. Passar bem na força do Pai. Saudações da parte de Fílon que está comigo. Meus cumprimentos à família de Tavia, a quem desejo se robusteça na fé e na caridade, tanto corporal como espiritual. Saudações a Alceu, nome tão querido, a Dafnos o incomparável e a Eutecno. Enfim, a todos nominalmente. Passar bem na graça de Deus.

Fonte:

Ecclesia Una

Sete Carta de Inacio de Antioquia: Epístola aos Filadélfos

SAUDAÇÃO

Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo de Filadélfia da Ásia, que encontrou misericórdia e se fortaleceu na união que vem de Deus, cheia de imperturbável alegria na Paixão de Nosso Senhor e plenamente convencida da Ressurreição d’Ele, em toda misericórdia. Saúdo-a no sangue de Jesus Cristo, pois ela é minha perene e constante alegria, sobretudo se continuarem unidos ao Bispo, aos Presbíteros e Diáconos que estão com ele, instituídos segundo o plano de Jesus Cristo, que por Sua própria vontade os fortaleceu no Seu Espírito Santo.

I. ELOGIO AO BISPO

1. Sei que não foi por si mesmo, nem por meios humanos, nem tampouco por ambição, mas na caridade de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, que o Bispo obteve a incumbência de estar a serviço da comunidade. Admiro comovido sua bondade, que, calada, mais ressonância encontra que as invencionices dos faladores. Harmoniza-se ele com os mandamentos, como a cítara com as cordas. Bem por isso, minha alma lhe engrandece a mente voltada para Deus – pois é virtuosa e perfeita – seu caráter firme e manso, tão do agrado do Deus vivo.

II. FUGIR DA HERESIA

2. Filhos que sois da luz da verdade, fugi da cisão das más doutrinas. Onde estiver o pastor, segui-o, quais ovelhas. Pois muitos lobos, aparentemente dignos de fé, apanham, através dos maus prazeres, os atletas de Deus. Se porém permanecerdes unidos, não acharão lugar entre vós.
3. Apartai-vos das ervas daninhas que Jesus Cristo não cultiva, por não serem plantação do Pai. Não que tenha encontrado em vosso meio discórdias, pelo contrário encontrei um povo purificado. Na verdade, os que são propriedade de Deus e de Jesus Cristo estão com o Bispo, e todos os que se converterem e voltarem à unidade da Igreja, pertencerão também a Deus, par terem uma vida segundo Jesus Cristo. Não vos deixeis iludir, meus irmãos. Se alguém seguir a um cismático, não herdará o reino de Deus; se alguém se guiar por doutrina alheia, não se conforma com a Paixão de Cristo.

III. UNIDADE NA EUCARISTIA

4. Sede solícitos em tomar parte numa só Eucaristia, porquanto uma é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, um o cálice para a união com Seu sangue; um o altar, assim como também um é o Bispo, junto com seu presbitério e diáconos, aliás meus colegas de serviço. E isso, para fazerdes segundo Deus o que fizerdes.

IV. FUGIR DO JUDAÍSMO

5. Meus irmãos, transbordo todo de amor para convosco e em meu júbilo procuro confortar-vos. Não eu, mas Jesus Cristo. Estando preso em Seu Nome, temo tanto mais achar-me ainda imperfeito. No entanto, vossa prece me aperfeiçoará para Deus, com o intuito de conseguir a herança na qual obtive misericórdia, buscando refúgio no Evangelho, como na carne de Jesus, e nos Apóstolos como no presbitério da Igreja. Amemos igualmente os Profetas, por terem também eles anunciado o Evangelho, terem esperado n’Ele e O terem aguardado. Foram salvos por Lhe terem dado fé, e, unidos a Jesus Cristo, se tornarem santos dignos do nosso amor e admiração, aprovados pelo testemunho de Jesus Cristo, sendo enumerados no Evangelho da comum esperança.

6. Se, no entanto, alguém vier com interpretações judaizantes, não lhe deis ouvido. É melhor ouvir doutrina cristã dos lábios de um homem circuncidado do que a judaica de um não-circuncidado. Se porém ambos não falarem de Jesus Cristo, tenha-os em conta de colunas sepulcrais e mesmo de sepulcros, sobre os quais estão escritos apenas nomes de homens. Fugi pois das artimanhas e tramóias do príncipe deste século, para que não venhais a esmorecer no amor, atribulados pela sagacidade dele. Todos vós, porém, uni-vos num só coração indiviso. Agradeço a Deus, porque gozo de consciência tranqüila a vosso respeito e porque não há motivo de ninguém gloriar-se, nem oculta nem publicamente, por lhe ter sido eu um peso em coisa pequena ou grande. Faço votos que todos a quem falei assimilem minhas palavras, não porém em testemunho contra si mesmos.

V. INVESTIDAS CONTRA A UNIDADE

7. Alguns desejaram de fato enganar-me segundo a carne, mas o Espírito, que é de Deus, não se deixa enganar, pois Ele sabe donde vem e para onde vai e revela os segredos. Clamei, quando estive entre vós, e o disse alto e bom som, na voz de Deus: «Apegai-vos ao Bispo, ao Presbitério e aos Diáconos!» Alguns desconfiaram que eu assim falava, porque sabia da separação de diversos deles. No entanto, é-me testemunha Aquele, por quem estou preso, que por intermédio de homem carnal não vim a saber coisa alguma. O Espírito é que mo anunciou: Nada façais sem o Bispo! Guardai vosso corpo como templo de Deus! Amai a união! Fugi das discórdias! Tornai-vos imitadores de Jesus Cristo, como Ele o é do Pai!
8. Eu por minha parte cumpri o meu dever, agindo como homem destinado a unir. Deus não mora onde houver desunião e ira. A todos porém que se converterem perdoa o Senhor, se voltarem à unidade de Deus e ao senado do Bispo. Confio na graça de Jesus Cristo, pois Ele livrará de toda cadeia. Exorto-vos a nada praticar em espírito de dissenção, mas sim em conformidade com os ensinamentos de Cristo. É que ouvi alguns dizerem: «Se não o encontro nos documentos antigos, não dou fé ao Evangelho». Dizendo eu a eles «Está escrito», responderam-me: «É o que se deve provar! Para mim, documentos antigos são Jesus Cristo; para mim documentos invioláveis constituem a Sua Cruz, Sua Morte, Sua Ressurreição, como também a Fé que nos vem d’Ele! Nisso é que desejo, por vossa oração, ser justificado.

VI. ORIGINALIDADE DO EVANGELHO

9. Embora fossem honrados também os sacerdotes, coisa melhor porém é o Sumo-sacerdote, responsável pelo santo dos santos, pois só a Ele foram confiados os mistérios de Deus. É Ele a porta para o Pai, pela qual entram Abraão, Isaac e Jacó, os Profetas, os Apóstolos e a Igreja. Tudo isso leva à unidade de Deus. O Evangelho contém porém algo de mais sublime, a saber, a vinda do Salvador e Senhor nosso Jesus Cristo, a Sua Paixão e Ressurreição. A respeito d’Ele vaticinaram os queridos Profetas. O Evangelho constitui mesmo a consumação da imortalidade. Tudo se reveste de grande importância, se confiardes no Amor.

CONCLUSÃO E DESPEDIDA

10. Recebi notícia, que graças à oração e à participação íntima que cultivais em Jesus Cristo, a Igreja de Antioquia na Síria recobrou a paz. Convém portanto que vós, como Igreja de Deus, escolhais um diácono para presidir uma embaixada de Deus àquela cidade, e congratular-se com eles, por estarem unidos pelos mesmos vínculos, e glorificar o Nome. Felicito em Jesus Cristo aquele que for achado digno deste ministério; também vós tereis a vossa glória. Se o quiserdes, isso não vos será impossível para a glória de Deus, pois que também as Igrejas mais vizinhas mandaram ou Bispos, ou Presbíteros e Diáconos.

11. A respeito de Fílon, diácono da Cilícia, posso informar: é homem de prestígio, que ainda agora me serve no ministério da palavra de Deus, juntamente com Reos Agátopos, outro homem de consideração, que me acompanha desde a Síria, com desprezo da própria vida. Também eles dão testemunho de vós. Da mesma forma eu agradeço a Deus por vós, porque os recebestes, como o Senhor vos recebeu. Aqueles que lhes faltaram de respeito encontrem o perdão pela graça de Deus. Saúda-vos a caridade dos irmãos de Trôade, donde também vos escrevo por intermédio de Burrus que, a pedido dos efésios e esmirnenses, me acompanha, como penhor de honra. O Senhor Jesus Cristo honrá-los-á, pois, n’Ele esperam com corpo, alma, espírito, fé, amor e concórdia. Adeus em Jesus Cristo, esperança comum de nós todos.

Fonte:

Ecclesia Una