As relações do império com a Igreja Católica e os Habsburgo
Na então chamada de França Oriental, após um período de enfraquecimento do poder católico, assumiu o poder em 919 o duque da Saxônia, Henrique, sagrado pelo papa como Henrique 1º, rei dos germanos. Tal sagração é tida como a origem do reino alemão, já em forte vinculação com a Igreja.
Essa relação império germânico com Roma foi intensificada em 962, quando o papa sagrou o filho de Henrique 1º, Otto 1º, imperador dos germanos. É esse episódio que é usualmente considerado como a gênese do Sacro Império.
O sacro império romano-germânico foi palco da Guerra dos Trinta Anos.
Histórico
O poder político da Igreja Católica consolidou-se ao longo da Idade Média, paralelamente ao declínio da noção de Estado que trouxe o fim do Império Romano.
No vácuo gerado pela pulverização do poder político, cada vez mais fragmentado pelas relações de vassalagem, a Igreja assumiu um papel centralizador na vida européia. Um dos fatos que marcou essa importância católica na vida política foi a coroação de Carlos Magno como imperador, no ano de 800.
Numa Europa já quase integralmente cristã, o título de imperador pressupunha um poder sobre a cristandade. A idéia vigente na época era de que havia um único poder, o poder de Deus, manifestando-se em termos espirituais no papado que legava ao imperador os assuntos temporais (da Terra).
O Tratado de Verdun, assinado entre os netos de Carlos Magno, em 843, dividindo o Império, representou um primeiro golpe nessa suposta unidade sob Deus, o papa e o imperador.
Na área ocidental do Império, basicamente a atual França, o declínio do poder dos descendentes direto de Carlos Magno permitiu a ascensão de Hugo Capeto, em 938. Esse rei, fundador da dinastia capetíngia, visando consolidar seu poder entrou em atritos com a Igreja Católica, não sendo confiável ao papado.
O poder papal mantinha, então, mais força na região alemã, onde havia surgido o sacro império. O título de imperador, ali, não era dinástico (ou seja, não passava de pai para filho, através de dinastia). Era eleito por governantes de alguns dos principais Estados componentes do Império.
A configuração do eleitorado variou até o ano de 1356, quando a Bula Dourada fixou os 7 eleitores, mantidos até o final do Império, estabelecendo ainda funções para cada um dos chamados "príncipes eleitores".
Eram eles o arcebispo de Mainz, arce-chanceler do império para a Alemanha; o arcebispo de Trier, arce-chanceler do império para a Gália; o arcebispo de Colônia, arce-chanceler do império para Itália; o rei da Boêmia, arce-copeiro do Império; o conde Palatino do Reno (cujas terras eram conhecidas como o Palatinado), arce-comissário do Império; o conde Palatino e duque da Saxônia, arce-marechal do Império; e o marquês de Brandemburgo, arce-camareiro do Império.
Dinastia dos Habsburgo
Paralelamente a isso, consolidava-se o poder da mais importante família reinante européia no início da Idade Moderna, os Habsburgo. A família tem origem no século 12 e o nome deriva de Habichtsburg, o castelo do falcão, sua morada oficial, construído em 1020, na Suíça.
A casa de Habsburgo subirá pela primeira vez ao trono imperial com Rodolfo I, que reinará o Sacro Império Romano-Germânico de 1273 a 1291. Em 1278, após a derrota e morte do Rei da Boêmia Otokar 2º na batalha de Dürnkrut (no Marchfeld), o imperador obteve os ducados da Áustria e da Estíria.
Os Habsburgo ampliaram sua influência graças à política de casamentos. A fórmula Bella gerant alii; tu, felix Austria, nube (que outros guerreiem (enquanto) você, feliz Áustria, faz casamentos) sintetiza essa prática.
A eleição de Alberto 2º em 1438 e a de Frederico 3º em 1440 marcam o início de uma presença duradoura da chamada Casa da Áustria na chefia do Sacro Império. A partir daí, todos os imperadores, até o final do Império, com exceção do período entre 1740 e 1745, pertenceram a essa família.
O apogeu do poder Habsburgo começou a se firmar com Maximiliano I, imperador do Sacro Império entre 1508 e 1519. Com seu casamento com Maria da Borgonha, passou a governar Países Baixos, Luxemburgo e a Borgonha, além do Franco Condado, um território a leste na França, na fronteira com a Suíça.
Ao casar-se com a infanta Joana de Castela, seu filho Filipe, o Belo, tornou-se rei de Castela, Aragão, Nápoles e senhor das terras espanholas do Novo Mundo. Pelo tratado de Viena, em 1515, Maximiliano 1º assegurou o casamento de seus dois netos com as herdeiras de Ladislau II da Polônia, dando aos Habsburgos as coroas da Boêmia e da Hungria a partir de 1526.
O neto de Maximiliano 1º da Áustria, Carlos 1º da Espanha (filho de Filipe, o Belo, arquiduque da Áustria, e de Joana, a Louca, rainha de Castela), foi o o grande herdeiro dessa política. Herdando os domínios Habsburgo, Borgonha, Aragão, Castela, além dos imensos domínios espanhóis no Novo Mundo, ele foi eleito, em 1519, imperador do Sacro Império, com o título de Carlos 5º. Nunca o ideal de uma monarquia imperial fortemente aliada à Igreja de Roma esteve tão próximo.
Mas foi durante seu reinado que a unidade sob o Império e Roma começou a ruir, com o advento da reforma luterana na Alemanha, dando início ao movimento protestante que se alastrou por grande parte da Europa.
Não há uma linha divisória clara entre as questões religiosas e políticas no período as contestações ao poder imperial ou dinástico assumissem sempre um caráter de contestação ao poder também de Roma.
Tal vinculação já se evidenciara na própria Boêmia, palco da Guerra dos Trinta Anos, ainda no século 15. Ali, um movimento liderado por John Huss, propunha a reforma da Igreja, questionando a autoridade do papado em assuntos temporais. Excomungado e morto na fogueira, Huss deixou a semente de uma rebeldia nacional contra a autoridade do papado e do Império. Essa mesma semente, decisiva para a vitória do movimento luterano, não foi contemplada na Boêmia, onde o poder católico voltaria a ser questionado.
O final das guerras de religião na Alemanha, advindas da reforma luterana, estabelecia o princípio do cujus regio ejus religio, cada governante teria a liberdade de adotar a religião que quisesse e essa seria a religião dos súditos.
Tal fórmula, entretanto, aplicava-se apenas às religiões católica e luterana. Por outro lado, a segunda metade do século 16 foi marcada por uma forte penetração das idéias calvinistas na Alemanha, notadamente na região da Boêmia, encontrando ali um terreno fértil dada a herança que vinha desde John Huss.
Esse fato confrontava-se com as medidas católicas visando recuperar a força perdida. A ação catequizante, notadamente dos jesuítas, permitiu a Roma recuperar parte dos seus fiéis, levando a uma posição de confronto com os luteranos e principalmente com os calvinistas, não contemplados por qualquer liberdade dentro do Império.
Sacro Império Romano-Germânico
![]() |
| IMAGEM USP |
No século XI recebeu o nome de Império Romano e no século XII, Sacro Império. A denominação de Sacro Império Romano-Germânico foi adotada no século XIII. Embora suas fronteiras tenham se ampliado de forma notável ao longo de sua história, os estados germânicos foram sempre seu núcleo principal. Desde o século X, seus governantes eram eleitos reis da Germânia e, geralmente, pretendiam que os papas os coroassem em Roma como imperadores, embora nem sempre o conseguissem.
O Sacro Império Romano foi na realidade uma tentativa de reviver o Império Romano do Ocidente, cuja estrutura política e legal sucumbiu durante os séculos V e VI para ser substituída por reinos independentes, governados por nobres germânicos. O trono imperial de Roma ficou vago depois que Rômulo Augústulo foi deposto em 476. Durante o turbulento início da Idade Média, o conceito tradicional de um reino temporal convivendo com o reino espiritual da Igreja foi encorajado pelo Papado. O império bizantino, com capital em Constantinopla (hoje Istambul, Turquia), que controlava as províncias do Império Romano do Oriente, conservava nominalmente a soberania sobre os territórios que anteriormente eram possessões do Império do Ocidente. Muitas tribos germânicas que haviam conquistado esses territórios reconheceram formalmente o imperador de Bizâncio como seu senhor. Devido em parte a essa situação e também a outras razões, entre as quais se incluem a dependência derivada da proteção bizantina contra os lombardos, os papas reconheceram a autoridade do Império do Oriente durante um grande período de tempo depois da abdicação forçada de Rómulo Augústulo.
Depois da fusão das tribos germânicas, motivo da criação de uma série de estados cristãos independentes nos séculos VI e VII, a autoridade política dos imperadores bizantinos praticamente desapareceu no ocidente. Ao mesmo tempo, foram sentidas as conseqüências religiosas da divisão da Igreja ocidental, de modo particular durante o pontificado (590-604) de Gregório I. Conforme o prestígio político do império bizantino declinava, o Papado se mostrava cada vez mais ressentido pela ingerência das autoridades civis e eclesiásticas de Constantinopla nos assuntos e atividades da Igreja ocidental. A conseqüente inimizade entre as ramificações da Igreja alcançou seu ponto crítico durante o reinado do imperador bizantino Leão III o Isauro, (717-741) que tentou abolir o uso de imagens nas cerimônias cristãs.
A resistência do Papado ao decreto de Leão culminou (730-732) com a ruptura com Constantinopla. O Papado alimentou então o sonho de ressuscitar o Império do Ocidente. Alguns papas estudaram a possibilidade de embarcar no projeto e assumir a liderança desse futuro estado. Sem força militar alguma nem administração de fato, e em uma situação de grande perigo pela hostilidade dos lombardos na Itália, a hierarquia eclesiástica abandonou a idéia de um reino temporal unido ao reino espiritual e decidiu outorgar o título imperial à potência política dominante na Europa Ocidental no momento: o reino dos francos. Alguns dos governantes francos já haviam provado sua fidelidade à Igreja; Carlos Magno, que ascendeu ao trono franco em 768, havia demonstrado uma grande capacidade para tão elevado cargo, especialmente pela conquista da Lombardia em 773 e pela ampliação de seus domínios até alcançar proporções imperiais.
Em 25 de dezembro do ano 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno como imperador. Esse ato originou um precedente e criou uma estrutura política que estava destinada a representar um papel decisivo nos assuntos da Europa Central. O precedente estabeleceu a pretensão papal de eleger, coroar e também depor os imperadores, direito que fez valer, pelo menos em teoria, durante quase 700 anos.
Fonte:
Funcionalidade de um feudo e Posição da Igreja
1 – Celeiro; estábulo; 2 - Igreja; 3 - Ferraria; 4 - Campos de pastagem comuns; 5 - Campos cultivados senhoriais; 6 - Pântano; 7 - Forno; 8 - Solo improdutivo; 9 - Terra de pousio; 10- Bosque;
11- Campos cultivados pelos camponeses; 12- Pomar;13- Prado; 14- Moinho; 15- Castelo;16- Casa do pároco; 17- Aldeia.
Fonte:
HistBlog
Caminhos de Santiago na Europa Medieval
Três instituições de Portugal, Espanha e França apresentam quinta-feira um projecto para redescobrir e dinamizar itinerários, recuperar património e criar albergues e pontos de apoio aos peregrinos do caminho da peregrinação a Santiago de Compostela.
O “Loci Iacobi – Lugares de Santiago”, promovido pelo governo autónomo da região espanhola da Galiza, Comunidade Urbana da cidade francesa de Le Puy-en-Velay e Diocese de Beja, é apresentado no Seminário Internacional “O Caminho de Santiago e a Identidade Europeia”, que vai decorrer no Centro Cultural de Alvito (Beja).
“O principal intuito é contribuir para dinamizar itinerários usados ao longo dos séculos pelos peregrinos”, redescobrindo os “outrora famosos mas que caíram no esquecimento”, como os do Baixo Alentejo, e criar novos, explicou hoje à Lusa o director do Departamento do Património Histórico e Artístico (DPHA) da Diocese de Beja, José António Falcão.
Em Espanha e França, a marcação dos itinerários “está a ser feita com grande disciplina e há uma articulação de esforços entre as autoridades diocesanas e civis”, mas em Portugal “há a tendência de cada concelho marcar unilateralmente o seu caminho de Santiago”.
“Isto é complicadíssimo” porque “muitos dos caminhos não foram marcados com critério científico, não são reconhecidos pela Igreja, desembocam no nada, não têm continuidade e, por isso, não são praticáveis”, disse.
“Não se pode actuar isoladamente. A organização é a chave do sucesso”, frisou, defendendo que “é necessário um esforço concertado”, aos níveis nacional e internacional.
O projecto, orçado em um milhão de euros e que irá decorrer até final de 2011, vai “identificar os itinerários mais praticáveis” para “obter a sua homologação pelas entidades religiosas e civis”, ou seja, as dioceses, a Junta da Galiza e a Unesco, explicou José António Falcão.
Depois, “é preciso criar condições de circulação, albergues e pontos de apoio”, “uma das grandes lacunas com que se deparam os peregrinos”, e “recuperar e tornar acessíveis os monumentos e outros valores culturais e naturais associados ao Caminho”.
Após a restauração da independência de Portugal, lembrou, por “motivos nacionalistas” e “porque se pensava que o Caminho de Santiago era uma coisa espanhola”, o caminho português “entrou em decadência e praticamente morreu no sul” e “manteve-se no Norte, mas de forma decadente”.
Nos últimos anos, os antigos itinerários dos caminhos existentes no território abrangido pela diocese de Beja, a segunda maior de Portugal, têm vindo a ser redescobertos por investigadores e peregrinos e recuperados pelo DPHA.
Ao longo do território existem “alguns dos principais itinerários do Caminho de Santiago no Sudoeste Peninsular”, como o chamado “Caminho Atlântico”, que “é o mais conhecido e o que regista maior número de peregrinos” e entra no Alentejo por S. Teotónio (Odemira) e tem “referências importantes em Odemira, Santiago do Cacém e Alcácer do Sal”, disse José António Falcão.
Além da apresentação do “Loci Iacobi – Lugares de Santiago”, o seminário, organizado pelo DPHA, vai reflectir sobre o passado, presente e futuro do Caminho de Santiago e dar a conhecer a experiência e as perspectivas das instituições envolvidas no projecto.
Fonte:
Rio Mira
Igreja no apogeu da Idade Média
Nos séculos XII e XIII, o cristianismo na Europa ocidental foi marcado por um zelo religioso que se manifestou em termos de participação em movimentos de cruzadas e reformas. Sobre a bandeira da Igreja Romana muitos cristãos batalhavam por motivos religiosos contra mulçumanos e hereges, enquanto movimentos de reformas eram ensaiados através das ordens monásticas e dos cristãos leigos (que não faziam parte do clero). Embora fosse um período de ardor espiritual, poucos sabiam o que estavam fazendo, uma vez que as Escrituras estavam distantes dos cristãos, ao passo que o poder por trás do trono papal não parava de aumentar.
Fonte:
União Presbiteriana de Adolescentes
Literatura Cristã Primitiva
Definição da Literatura Cristã Primitiva
Essa é a literatura que o cristianismo cria para si com os próprios meios, porquanto cresceu no chão e no interesse próprio da comunidade cristã, ainda antes de se misturar com o mundo circundante (Overbeck,p.36).
Isso não quer dizer que todas as suas formas são novas – com exceção quiçá dos Evangelhos – e, sim, que, onde a literatura primitiva faz uso de formas preestabelecidas (Apocalipse), ela recorre apenas a formas da literatura religiosa, enquanto ainda se mantém totalmente afastada das formas de literatura mundial profana existente.
Essa literatura cristã primitiva, portanto, é formalmente sui generis, no que diz respeito às convenções literárias seculares de seu tempo.
Delimitação da Literatura Cristã Primitiva
É preciso determinar o volume da literatura do cristianismo primitivo, isto é, ela tem que ser delimitada em relação à subseqüente literatura da Igreja Antiga. A pergunta é sobre se a literatura do cristianismo primitivo se desenvolveu para a literatura da Igreja Antiga, ou seja, para a literatura dos escritores eclesiásticos (a partir de meados do séc.II d.C.), de modo que se trate apenas da distinção de literatura mais antiga e mais recente; ou se cada uma das duas literaturas tem algo tão peculiar que se faz necessária uma delimitação e distinção entre as mesmas.Parece ser esse o ponto.
Franz Overbeck, em seu fomoso ensaio – “Sobre os Inícios da Literatura Patrística” (1882) - situa o começo da literatura da Igreja Antiga na apologética1, a qual faz uso de formas profanas e se dirige a não-cristãos; ele também define essa literatura como “literatura greco-romana de confissão cristã e interesse cristão”. 2
O desaparecimento das formas cristãs primitivas (mais do tipo sui generis), portanto, e a recepção das formas da grande literatura mundial indicam uma mudança fundamental da literatura cristã primitiva para a literatura dos Pais eclesiásticos.
Quanto à abrangência da literatura cristã primitiva, vejamos: Além do NT, temos os escritos dos chamados :
Pais Apostólicos3: Epístolas de Clemente de Roma, Epístolas de Inácio, Epístolas de Policarpo, Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas4, a Didaquê e Fragmentos de Papias e Hegésipo, preservados por Eusébio e Irineu.5
Depois temos os Livros Apócrifos do Novo Testamento ou Novo Testamento Apócrifo: Evangelhos Apócrifos, Atos Apócrifos,Epístolas Apócrifas e Apocalipses Apócrifos.6
Produção Literária Cristã Primitiva na Geografia de Seu Tempo
Sem dúvida, o cristianismo se origina do ministério de Jesus e das primeiras comunidades cristãs na Palestina, se propagando depois para as regiões da Síria e do Egito. Não obstante, sua literatura mais importante desenvolveu-se nas culturas urbanas do Mediterrâneo Oriental, principalmente em Antioquia e nas cidades da região do mar Egeu. E é com base nessas regiões geográficas que têm lugar a produção literária do cristianismo primitivo, sempre com vistas à experiência e as necessidades das comunidades cristãs.
Objetivos do Estudo da Literatura Cristã Primitiva
Mostrar como surgiu a atividade literária dos primeiros cristãos e de que modo os livros refletem a particularidade de seus autores e as condições da época de sua redação.
Abordar o Novo Testamento antes como parte da Literatura Cristã Primitiva, situando-o assim em seu contexto literário e histórico-eclesiástico, para que depois de sua compreensão histórica o possamos compreender teológica e canonicamente.
Conhecer e compreender o significado, motivação e contribuição da literatura Apócrifa do Novo Testamento para a história do cristianismo primitivo e, mesmo, para a interpretação dos documentos neotestamentários (especialmente os Evangelhos).
Descrever os escritos edificantes dos Pais Apostólicos com o fim de compreendermos melhor o ambiente de fé da igreja cristã primitiva e nos deixarmos também ser edificados por eles,como o foram também os primeiros cristãos.
Justificativa para o Estudo da Literatura Cristã Primitiva
Essa literatura reflete a doutrina e prática da igreja cristã primitiva, a qual, por sinal, é o terreno fértil onde são fecundados todos os livros do Novo Testamento.7 Sem dúvida alguma, nossa compreensão do Novo Testamento depende em muito de nossa compreensão das comunidades cristãs primitivas responsáveis pela sua produção.8
Além disso,por terem servido de modelo para os escritos cristãos posteriores,os gêneros literários do Novo Testamento podem ser melhor compreendidos,de caminho inverso,através do estudo e análise desses escritos.9
Os apócrifos permitem vislumbrar a existência de coleções muito antigas de logia de Jesus,de testimonia das Escrituras e/ou tradições orais e/ou escritas sobre Jesus e os Apóstolos.10
Nesse sentido, a contribuição histórica desses escritos para o conhecimento da igreja cristã primitiva é inegável.11
Notas
1 Apologia de Justino, O Mártir, por exemplo.
2 Overbeck,F.Über die Anfäge der patristischen Literatur,1882,Neudruck (reimpressão), Libelli XV,1966.
3 A expressão “pais apostólicos” surgiu no século XVII como designação dos presumidos discípulos de apóstolos, Barnabé, Hermas, Clemente de Roma, Inácio e Policarpo, quando as obras a eles atribuídas foram reunidas e publicadas juntamente com cartas e relatos. No século XIX a coleção foi ampliada com a recém descoberta Didaquê, Cartas de Inácio e fragmentos de Papias preservados por Eusébio e Irineu. A expressão “Pais Apostólicos” portanto não designa um antigo corpo de escritos, mas, sim, é um título editorial moderno, escolhido por falta de outro melhor, para uma compilação de abrangência variável de escritos e fragmentos dos séculos I e II d.C. Estes foram considerados inicialmente apostólicos devido sua suposta “ortodoxia” em oposição ao apócrifos.
4 “O Pastor de Hermas ocupa seu justo lugar nessa coleção, embora seja difícil determinar sua data exata” (Köester,p.13).
5 Não fazemos menção nesse elenco à importante Carta a Diogneto, uma vez que, embora seja frequentemente incluída na lista dos Pais Apostólicos, ela aparenta ser um tratado apologético posterior, talvez final do II século d.C.
6 Os apócrifos do NT são todos os escritos cristãos primitivos que não foram aceitos no cânon,não pertencem aos Pais Apostólicos e fazem alusão ao NT pelo conteúdo,gênero e identificação de autores neotestamentários.São verdadeiros desdobramentos literários, tradicionais e conteudísticos do Novo Testamento - “Re-escritura neotestamentária”.
7 Alguns dos escritos dos Pais Apostólicos, por exemplo, podem ter sido redigidos antes do final do I século, isto é, ainda dentro do contexto histórico formativo do Novo Testamento. Köester, por exemplo, afirma que “1 Clemente, a Epístola de Barnabé e as fontes inseridas na Didaquê foram compostas antes do ano 100 d.C.”.
8 O’Callaghan, José.A formação do novo testamento.Paulinas: São Paulo.p.25.
9 cf. BARRERA,Julio Trebolle.A Bíblia Judaica e A Bíblia Cristã – Uma Introdução à História da Bíblia.São Paulo:Vozes,1999.pg.202s.
10 BARRERA,op.cit.,pgs.285-86.
11 Paulo Siepierski (Siepierski,Paulo & Hinson,Glenn E.Vozes do cristianismo primitivo. Sepal:São Paulo) argumenta sobre a importância do conhecimento histórico sobre a igreja cristã primitiva para a resolução dos dilemas atuais da igreja com base na experiência da igreja cristã primitiva (p.15).
Essa é a literatura que o cristianismo cria para si com os próprios meios, porquanto cresceu no chão e no interesse próprio da comunidade cristã, ainda antes de se misturar com o mundo circundante (Overbeck,p.36).
Isso não quer dizer que todas as suas formas são novas – com exceção quiçá dos Evangelhos – e, sim, que, onde a literatura primitiva faz uso de formas preestabelecidas (Apocalipse), ela recorre apenas a formas da literatura religiosa, enquanto ainda se mantém totalmente afastada das formas de literatura mundial profana existente.
Essa literatura cristã primitiva, portanto, é formalmente sui generis, no que diz respeito às convenções literárias seculares de seu tempo.
Delimitação da Literatura Cristã Primitiva
É preciso determinar o volume da literatura do cristianismo primitivo, isto é, ela tem que ser delimitada em relação à subseqüente literatura da Igreja Antiga. A pergunta é sobre se a literatura do cristianismo primitivo se desenvolveu para a literatura da Igreja Antiga, ou seja, para a literatura dos escritores eclesiásticos (a partir de meados do séc.II d.C.), de modo que se trate apenas da distinção de literatura mais antiga e mais recente; ou se cada uma das duas literaturas tem algo tão peculiar que se faz necessária uma delimitação e distinção entre as mesmas.Parece ser esse o ponto.
Franz Overbeck, em seu fomoso ensaio – “Sobre os Inícios da Literatura Patrística” (1882) - situa o começo da literatura da Igreja Antiga na apologética1, a qual faz uso de formas profanas e se dirige a não-cristãos; ele também define essa literatura como “literatura greco-romana de confissão cristã e interesse cristão”. 2
O desaparecimento das formas cristãs primitivas (mais do tipo sui generis), portanto, e a recepção das formas da grande literatura mundial indicam uma mudança fundamental da literatura cristã primitiva para a literatura dos Pais eclesiásticos.
Quanto à abrangência da literatura cristã primitiva, vejamos: Além do NT, temos os escritos dos chamados :
Pais Apostólicos3: Epístolas de Clemente de Roma, Epístolas de Inácio, Epístolas de Policarpo, Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas4, a Didaquê e Fragmentos de Papias e Hegésipo, preservados por Eusébio e Irineu.5
Depois temos os Livros Apócrifos do Novo Testamento ou Novo Testamento Apócrifo: Evangelhos Apócrifos, Atos Apócrifos,Epístolas Apócrifas e Apocalipses Apócrifos.6
Produção Literária Cristã Primitiva na Geografia de Seu Tempo
Sem dúvida, o cristianismo se origina do ministério de Jesus e das primeiras comunidades cristãs na Palestina, se propagando depois para as regiões da Síria e do Egito. Não obstante, sua literatura mais importante desenvolveu-se nas culturas urbanas do Mediterrâneo Oriental, principalmente em Antioquia e nas cidades da região do mar Egeu. E é com base nessas regiões geográficas que têm lugar a produção literária do cristianismo primitivo, sempre com vistas à experiência e as necessidades das comunidades cristãs.
Objetivos do Estudo da Literatura Cristã Primitiva
Mostrar como surgiu a atividade literária dos primeiros cristãos e de que modo os livros refletem a particularidade de seus autores e as condições da época de sua redação.
Abordar o Novo Testamento antes como parte da Literatura Cristã Primitiva, situando-o assim em seu contexto literário e histórico-eclesiástico, para que depois de sua compreensão histórica o possamos compreender teológica e canonicamente.
Conhecer e compreender o significado, motivação e contribuição da literatura Apócrifa do Novo Testamento para a história do cristianismo primitivo e, mesmo, para a interpretação dos documentos neotestamentários (especialmente os Evangelhos).
Descrever os escritos edificantes dos Pais Apostólicos com o fim de compreendermos melhor o ambiente de fé da igreja cristã primitiva e nos deixarmos também ser edificados por eles,como o foram também os primeiros cristãos.
Justificativa para o Estudo da Literatura Cristã Primitiva
Essa literatura reflete a doutrina e prática da igreja cristã primitiva, a qual, por sinal, é o terreno fértil onde são fecundados todos os livros do Novo Testamento.7 Sem dúvida alguma, nossa compreensão do Novo Testamento depende em muito de nossa compreensão das comunidades cristãs primitivas responsáveis pela sua produção.8
Além disso,por terem servido de modelo para os escritos cristãos posteriores,os gêneros literários do Novo Testamento podem ser melhor compreendidos,de caminho inverso,através do estudo e análise desses escritos.9
Os apócrifos permitem vislumbrar a existência de coleções muito antigas de logia de Jesus,de testimonia das Escrituras e/ou tradições orais e/ou escritas sobre Jesus e os Apóstolos.10
Nesse sentido, a contribuição histórica desses escritos para o conhecimento da igreja cristã primitiva é inegável.11
Notas
1 Apologia de Justino, O Mártir, por exemplo.
2 Overbeck,F.Über die Anfäge der patristischen Literatur,1882,Neudruck (reimpressão), Libelli XV,1966.
3 A expressão “pais apostólicos” surgiu no século XVII como designação dos presumidos discípulos de apóstolos, Barnabé, Hermas, Clemente de Roma, Inácio e Policarpo, quando as obras a eles atribuídas foram reunidas e publicadas juntamente com cartas e relatos. No século XIX a coleção foi ampliada com a recém descoberta Didaquê, Cartas de Inácio e fragmentos de Papias preservados por Eusébio e Irineu. A expressão “Pais Apostólicos” portanto não designa um antigo corpo de escritos, mas, sim, é um título editorial moderno, escolhido por falta de outro melhor, para uma compilação de abrangência variável de escritos e fragmentos dos séculos I e II d.C. Estes foram considerados inicialmente apostólicos devido sua suposta “ortodoxia” em oposição ao apócrifos.
4 “O Pastor de Hermas ocupa seu justo lugar nessa coleção, embora seja difícil determinar sua data exata” (Köester,p.13).
5 Não fazemos menção nesse elenco à importante Carta a Diogneto, uma vez que, embora seja frequentemente incluída na lista dos Pais Apostólicos, ela aparenta ser um tratado apologético posterior, talvez final do II século d.C.
6 Os apócrifos do NT são todos os escritos cristãos primitivos que não foram aceitos no cânon,não pertencem aos Pais Apostólicos e fazem alusão ao NT pelo conteúdo,gênero e identificação de autores neotestamentários.São verdadeiros desdobramentos literários, tradicionais e conteudísticos do Novo Testamento - “Re-escritura neotestamentária”.
7 Alguns dos escritos dos Pais Apostólicos, por exemplo, podem ter sido redigidos antes do final do I século, isto é, ainda dentro do contexto histórico formativo do Novo Testamento. Köester, por exemplo, afirma que “1 Clemente, a Epístola de Barnabé e as fontes inseridas na Didaquê foram compostas antes do ano 100 d.C.”.
8 O’Callaghan, José.A formação do novo testamento.Paulinas: São Paulo.p.25.
9 cf. BARRERA,Julio Trebolle.A Bíblia Judaica e A Bíblia Cristã – Uma Introdução à História da Bíblia.São Paulo:Vozes,1999.pg.202s.
10 BARRERA,op.cit.,pgs.285-86.
11 Paulo Siepierski (Siepierski,Paulo & Hinson,Glenn E.Vozes do cristianismo primitivo. Sepal:São Paulo) argumenta sobre a importância do conhecimento histórico sobre a igreja cristã primitiva para a resolução dos dilemas atuais da igreja com base na experiência da igreja cristã primitiva (p.15).
Fonte:
CRITÉRIOS PARA A DETERMINAÇÃO DA CANONICIDADE DE UM LIVRO DO NOVO TESTAMENTO
A Igreja primitiva tinha três autoridades: o Antigo Testamento, o Senhor Jesus e os Apóstolos, a autoridade última, decisiva, era Cristo, o Senhor, que falou imediatamente em suas palavras e obras e imediatamente através de suas testemunhas.
a) No começo, as palavras do Senhor e o relato de seus atos eram repetidos e relatados
oralmente. Mas logo eles começaram a ser escritos. Mas, depois que pregaram o evangelho, os
apóstolos tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades, como fez São Paulo em suas
cartas. Alguns desses escritos eram trocados entre as igrejas e logo ganharam a mesma autoridade dos escritos do Antigo Testamento (Cf. 2Pd 3,15s).
É, porém, compreensível que tenha decorrido algum tempo antes que a coleção desses
escritos do tempo dos Apóstolos tivesse tomado o seu lugar ao lado dos livros do Antigo
Testamento, com o mesmo peso de autoridade, especialmente quando se considera que muitos eram escritos ocasionais endereçados às igrejas individuais.
b) Por volta do ano 125, havia dois grupos de escritos que possuíam a garantia apostólica e
cuja autoridade era reconhecida por todas as comunidades que os possuíam: os evangelhos e as
cartas de São Paulo. Contudo, não havia pronunciamento oficial e as coleções variavam de igreja
para igreja.
As palavras escritas do Senhor, os evangelhos, embora não sejam os escritos mais antigos
do Novo Testamento, foram os primeiros a serem colocados em pé de igualdade com o Antigo
Testamento e reconhecidos como canônicos. Por volta do ano 140, Pápias, bispo de Hierápolis, na
Frígia, reconhecia os Evangelhos de Marcos e Mateus.
Os escritos dos Padres Apostólicos fornecem certa prova de que, desde as primeiras décadas do século II, as grandes igrejas possuíam um livro ou grupo de livros que eram comumente conhecidos como “Evangelho” e aos quais se fazia referência como a um documento que tinha autoridade e era universalmente conhecido.
É provável que já pelo fim do século I ou começo do século II, treze epístolas paulinas (excluindo Hebreus) fossem conhecidas na Grécia, Ásia Menor e Itália. Todos os manuscritos e textos das epístolas paulinas resultaram de uma coleção que se harmoniza com nosso Corpus Paulinum.
É verdade que as primitivas coleções mostram variações na ordem das epístolas, mas o número de escritos permanecia o mesmo. Não há citação de Paulo que não seja tirada de uma das epístolas canônicas, embora seja certo que o Apóstolo escreveu outras cartas.
c) Temos poucos relatos de outros escritos apostólicos na primeira metade do século II.
Clemente conhecia Hebreus; Policarpo conhecia 1Pd e 1Jo; Papias conhecia 1Pd, 1Jo e Apocalipse.
Na segunda metade do século, Atos, Apocalipse e, pelo menos, 1Jo e 1Pd eram considerados
canônicos; eles tomaram o seu lugar ao lado dos evangelhos e das epístolas paulinas.
a) No começo, as palavras do Senhor e o relato de seus atos eram repetidos e relatados
oralmente. Mas logo eles começaram a ser escritos. Mas, depois que pregaram o evangelho, os
apóstolos tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades, como fez São Paulo em suas
cartas. Alguns desses escritos eram trocados entre as igrejas e logo ganharam a mesma autoridade dos escritos do Antigo Testamento (Cf. 2Pd 3,15s).
É, porém, compreensível que tenha decorrido algum tempo antes que a coleção desses
escritos do tempo dos Apóstolos tivesse tomado o seu lugar ao lado dos livros do Antigo
Testamento, com o mesmo peso de autoridade, especialmente quando se considera que muitos eram escritos ocasionais endereçados às igrejas individuais.
b) Por volta do ano 125, havia dois grupos de escritos que possuíam a garantia apostólica e
cuja autoridade era reconhecida por todas as comunidades que os possuíam: os evangelhos e as
cartas de São Paulo. Contudo, não havia pronunciamento oficial e as coleções variavam de igreja
para igreja.
As palavras escritas do Senhor, os evangelhos, embora não sejam os escritos mais antigos
do Novo Testamento, foram os primeiros a serem colocados em pé de igualdade com o Antigo
Testamento e reconhecidos como canônicos. Por volta do ano 140, Pápias, bispo de Hierápolis, na
Frígia, reconhecia os Evangelhos de Marcos e Mateus.
Os escritos dos Padres Apostólicos fornecem certa prova de que, desde as primeiras décadas do século II, as grandes igrejas possuíam um livro ou grupo de livros que eram comumente conhecidos como “Evangelho” e aos quais se fazia referência como a um documento que tinha autoridade e era universalmente conhecido.
É provável que já pelo fim do século I ou começo do século II, treze epístolas paulinas (excluindo Hebreus) fossem conhecidas na Grécia, Ásia Menor e Itália. Todos os manuscritos e textos das epístolas paulinas resultaram de uma coleção que se harmoniza com nosso Corpus Paulinum.
É verdade que as primitivas coleções mostram variações na ordem das epístolas, mas o número de escritos permanecia o mesmo. Não há citação de Paulo que não seja tirada de uma das epístolas canônicas, embora seja certo que o Apóstolo escreveu outras cartas.
c) Temos poucos relatos de outros escritos apostólicos na primeira metade do século II.
Clemente conhecia Hebreus; Policarpo conhecia 1Pd e 1Jo; Papias conhecia 1Pd, 1Jo e Apocalipse.
Na segunda metade do século, Atos, Apocalipse e, pelo menos, 1Jo e 1Pd eram considerados
canônicos; eles tomaram o seu lugar ao lado dos evangelhos e das epístolas paulinas.
Fonte: Capuchinhos
Marcião de Sínope 85 - 160 d.C
![]() |
| Marcião mostrando seu cânon |
Teólogo radical ortodoxo nascido em Sínope, no Ponto, na Ásia Menor, cujo traço capital do seu cristianismo era o seu paulinismo e idealizou uma seita, os marcionitas, que colocava o Deus do Velho Testamento como um Deus falso, inspirada no seu agnosticismo, ou seja, segundo ele Jeová era um Falso Deus. Filho do bispo de Sínope, no Ponto, passou a considerar a Bíblia de Israel como um documento inaceitável (140) para o cristianismo e passou a pregar por um único evangelho, o de Lucas, e as dez Epístolas dejudaizadas de Paulo. Conforme Hipólito, levou à Roma (141), essas Epístolas endereçadas aos Romanos, aos Gálatas e aos Coríntios, as quais não foram inicialmente consideradas merecedoras de fé e sofreram rigorosa triagem, sendo cortada muita coisa que não convinha à Igreja e nesta ocasião compôs suas Antíteses.
Membro influente da comunidade em Roma, contemporâneo de Justino, insistiu no contraste absoluto entre a Bíblia de Israel e a pregação de Jesus, entre o Deus de Israel e o Deus de Jesus. Essa sua corajosa investida forçou a jovem Igreja cristã a esclarecer o cânone das Sagradas Escrituras obrigatórias e necessárias para a Cristandade em um duplo livro. Primeiro as escrituras do anúncio de Cristo compostas em uma coleção obrigatória, conhecida como Novo Testamento. E segundo, as Escritura de Israel, o Antigo Testamento. Assim, desse processo surgiu uma só Bíblia, mas em duas partes, como tradicionalmente conhecemos hoje.
Com muitos seguidores, os marcionitas, ele continuou com suas idéias, rejeitando o Antigo Testamento e falando mal do Deus Jeová, Javé ou Yavé, considerou-o um deus fraco, admitindo inclusive que Jesus Cristo não poderia ser filho desse Deus do Deus do Antigo Testamento, o Demiurgo: justiceiro, vingativo, impiedoso. Em conflito com as autoridades da Igreja de Roma, organizou sua contra-igreja e estabeleceu seu próprio cânone bíblico baseado no Evangelho de Lucas e nas Epistolas de Paulo. Assegurando que o Deus verdadeiro era o Deus pregado por Jesus Cristo, um Deus de amor, perdão, bondade, mutilou os Evangelhos nas passagens que não lhe interessava, rejeitando tudo o que poderia contradizê-lo nas Escrituras. Assim, em função de suas doutrinas excêntricas, foi excluído do rol dos membros da Igreja Cristã Primitiva e considerado herege (144).
Popular, carismático e milenarista, embora não sendo um grande teólogo, sua doutrina obteve um imenso êxito, e através do seu notável senso de organização, sua seita constituiu-se numa verdadeira Igreja, as igrejas marcionitas, composta hierarquicamente de bispos, diáconos e diaconisas, presbíteros e leitores, que foram muito poderosas na Mesopotâmia, onde precederam o maniqueísmo do século III. Os marcionitas cresceram tanto que pareciam ter invadido todo o mundo cristão e mesmo depois de sua morte (~160), suas comunidades continuaram a existir. Porém seus sucessores não se revelaram a altura do mestre, excetuando-se Apeles, que diminuiu um pouco o rigor das teses do fundador. Na sua Primeira Apologia (~150), Justino assinalou a existência dos marcionismo e refutou-o em um tratado especial. Ireneu consagrou-lhe apenas breve nota no seu Syntagma: Adversus Haereses, mas deu-lhe grande combate em documentos posteriores. Dionísio de Corinto escreveu uma carta contra o chefe marcionita aos cristãos de Nicomédia, e Filipe, Bispo de Gortina, em Creta, compôs uma obra contra ele.
Ródon, discípulo de Taciano, também o combateu, assim como Bardesanes no fim do segundo século. Tertuliano, o grande teólogo africano, escreveu um tratado denominado de Adversas Marcionem (200). Teófilo, sexto bispo da Igreja de Antioquia, compôs um livro Contra Marcião, que existe até hoje.
Fonte:
UFCG
Os Valentinianos E A Ruptura Com O Cristianismo Eclesiástico No Século II
Adversus Haereses escrita no século II, com o intuito de apresentar e refutar os movimentos gnósticos. Também vamos recorrer a alguns escritos valentinianos como contraponto a obra de Irineu de Lião, mais especificamente aos seguintes escritos: “O Evangelho da Verdade”, que alguns estudiososAdversus Haereses.
Fonte:
Este trabalho tem por objetivo discutir a ruptura dos valentinianos com o cristianismo eclesiástico no século II. Nesse período o cristianismo já estava presente em quase todas as partes do Império Romano, não era mais um fenômeno especificamente do contexto judaico. Porém, essa expansão causou a divisão do movimento cristão, vários grupos se diziam fazer parte da ‘’verdadeira igreja’’, mas cada grupo tinha uma visão totalmentediversa em relação as questões doutrinarias e ao significado das Escrituras, na verdade, alguns grupos nem aceitavam alguns textos do Novo Testamento, outros recusavam o Antigo Testamento na integra, outros tinham os seus próprios textos. Um desses grupos era o dos valentinianos, liderado por um mestre e poeta gnóstico chamado Valentino, o gnosticismo ao longo do século II foi uma grande ameaça para o grupo que se dizia fazer parte da ‘’verdadeira igreja’’, ou seja, o grupo de qual fazia parte, por exemplo, Irineu de Lião.
O movimento liderado por Valentino talvez tenha sido o mais importante e o que mais incomodou os lideres da igreja no século II. Nessa perspectiva, vamos refletir do por que os valentinianos eram considerados uma ameaça pela “florescente ortodoxia’’. Para esse trabalho, vamos nos utilizar como fonte, da obra de Irineu de Lião,
acreditam ter sido escrito pelo próprio Valentino,”Uma exposição valentiniana. Sobre a unção, Sobre o batismo” e “A Interpretação do Conhecimento”, todos escritos provavelmente no século II, mesmo período em que foi escrito
Primeiramente vamos analisar a trajetória individual do mestre gnóstico e poeta Valentino, em seguida vamos
discutir o relacionamento entre o cristianismo eclesiástico e gnosticismo ao longo do século, refletindo sobre o processo de hierarquização da igreja e sobre o surgimento do movimento gnóstico, mais adiante vamos analisar os embates entre os discípulos de Valentino e os lideres da “florescente ortodoxia” e as causas da ruptura dos valentinianos com a igreja, para depois analisar a organização interna desse circulo gnóstico, discutindo sobre a sua organização, hierarquia, apresentando os seus sacramentos e apresentando também os embates dentro do próprio circulo valentiniano, devido a brigas internas, o que acarretaria o seu enfraquecimento em relação a igreja. leio o artigo completo
Fonte:
Congresso Internacional de História
O ‘ Contexto religioso’ do cristianismo antigo e gnosticismo:
Fonte:
Revista Jesus Histórico
A Atual pesquisa visa o estudo das relações de identidade no Cristianismo Antigo a partir da recepção de Elementos do Helenismo Religioso. Estas confluências, advindas anteriormente das relações com o Judaísmo da Diáspora, no Egito Ptolomaico (LXX – séc. IV a.C), são consolidadas com a formação geopolítica e religiosa da Expansão do Cristianismo na Ásia Menor, durante o IIo século. Através da exposição de „The Religious Context of Early Christianity‟ (KLAUS, 2000) abordaremos as vicissitudes da Religião Helênica em mutação. Lei o artigo completo
Gnosticismo
Gnosticismo (do grego Γνωστικισμóς (gnostikismós); de Γνωσις (gnosis): 'conhecimento') é um conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas que chegaram a mimetizar-se com o cristianismo nos primeiros séculos de nossa era, vindo a ser declarado como um pensamento herético após uma etapa em que conheceu prestígio entre os intelectuais cristãos. De fato, pode falar-se em um gnosticismo pagão e em um gnosticismo cristão, ainda que o pensamento gnóstico mais significativo tenha sido alcançado como uma vertente heterodoxa do cristianismo primitivo.
Alguns autores fazem uma distinção entre "Gnosis" e "gnosticismo". A gnose é, sem dúvida, uma experiência baseada não em conceitos e preceitos, mas na sensibilidade do coração. Gnosticismo, por outro lado, é a visão de mundo baseada na experiência de Gnose, que tem por origem etimológica o termo grego gnosis, que significa "conhecimento". Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental; Sabedoria. É usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência eterna, centelha divina, maravilhosa e crística, pela via do coração. É uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva.
O movimento originou-se provavelmente na Ásia Menor, difundindo-se da região do Irã à Gália, exercendo a sua maior influência sobre o cristianismo entre os anos de 135 e 200. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas como os do Elêusis, do Zoroastrismo, do Hermetismo, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo.
Num texto hermético lê-se que a gnosis da Mente é a "visão das coisas divinas". G.R.S.Mead acrescenta que "Gnosis não é conhecimento sobre alguma coisa, mas comunhão, conhecimento de Deus". Este é o grande objetivo, conhecer "Deus", a Realidade em nós. Não é a crença, a fé ou o simples conhecimento o que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da Mente individual com a Mente universal, a capacidade do homem "transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina".
A posse da Gnosis significa a habilidade para receber e compreender a revelação. O verdadeiro Gnóstico é aquele que conhece a revelação interior ou oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. Ele não é alguém que descobriu a verdade a seu respeito por meio de sua própria desamparada reflexão, mas alguém para quem as manifestações do mundo interior são mostradas e tornaram-se inteligíveis. O início da Perfeição é a Gnosis do Homem, porém a Gnosis de Deus é a Perfeição aperfeiçoada. "Aperfeiçoamento" é um termo técnico para o desenvolvimento na Gnosis, sendo o Gnóstico realizado conhecido como o "perfeito", "parfait".
Alguns autores fazem uma distinção entre "Gnosis" e "gnosticismo". A gnose é, sem dúvida, uma experiência baseada não em conceitos e preceitos, mas na sensibilidade do coração. Gnosticismo, por outro lado, é a visão de mundo baseada na experiência de Gnose, que tem por origem etimológica o termo grego gnosis, que significa "conhecimento". Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental; Sabedoria. É usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência eterna, centelha divina, maravilhosa e crística, pela via do coração. É uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva.
O movimento originou-se provavelmente na Ásia Menor, difundindo-se da região do Irã à Gália, exercendo a sua maior influência sobre o cristianismo entre os anos de 135 e 200. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas como os do Elêusis, do Zoroastrismo, do Hermetismo, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo.
Num texto hermético lê-se que a gnosis da Mente é a "visão das coisas divinas". G.R.S.Mead acrescenta que "Gnosis não é conhecimento sobre alguma coisa, mas comunhão, conhecimento de Deus". Este é o grande objetivo, conhecer "Deus", a Realidade em nós. Não é a crença, a fé ou o simples conhecimento o que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da Mente individual com a Mente universal, a capacidade do homem "transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina".
A posse da Gnosis significa a habilidade para receber e compreender a revelação. O verdadeiro Gnóstico é aquele que conhece a revelação interior ou oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. Ele não é alguém que descobriu a verdade a seu respeito por meio de sua própria desamparada reflexão, mas alguém para quem as manifestações do mundo interior são mostradas e tornaram-se inteligíveis. O início da Perfeição é a Gnosis do Homem, porém a Gnosis de Deus é a Perfeição aperfeiçoada. "Aperfeiçoamento" é um termo técnico para o desenvolvimento na Gnosis, sendo o Gnóstico realizado conhecido como o "perfeito", "parfait".
A entrada na senda da Gnosis é chamada 'voltar para casa'. Como vimos, é um retorno, um virar as costas ao mundo, um arrependimento de toda natureza: "Devemos nos voltar para o velho, velho caminho".
"Somente o batismo não liberta mas sim, a gnosis, o conhecimento interior de quem somos, o que nos tornamos, onde estamos, para onde vamos. O que é nascimento, o que é renascimento". "Gnosis sobre quem éramos e no que nos tornamos; onde estávamos e onde viemos parar; para onde nos dirigimos e onde somos redimidos; o que é a geração, e o que é a regeneração". (Extratos de Theodotus)
Ingressar na Gnosis é um despertar do sono e da ignorância de Deus, da embriaguez do mundo para a temperança virtuosa. "Pois o mal [ilusão] do não conhecimento está inundando toda a terra e trazendo total ruína à alma aprisionada dentro do corpo, impedindo-a de navegar para os portos da salvação."
Fonte:
WK
Assinar:
Postagens (Atom)









