Campanha da Fraternidade 2012

Apresentação da CF 2012
“Converte-te e crê no Evangelho”!
Ao recebermos a imposição das cinzas, no início da quaresma,
somos convidados a viver o Evangelho, viver da Boa Nova.
A Boa Nova que recebemos é Jesus Cristo. Ele abriu um novo
horizonte para todas as pessoas que nele creem.
Crer no Evangelho é crer em Jesus Cristo que na doação amoro-
sa da cruz deu-nos vida nova e concedeu-nos a graça de sermos filhos
do Pai. Com sua morte transformou todas as realidades, criando um
novo céu e uma nova terra.
A quaresma é o caminho que nos leva ao encontro do Crucifica-
do-ressuscitado. Caminho, porque processo existencial, mudança de
vida, transformação da pessoa que recebeu a graça de ser discípulo-
missionário. A oração, o jejum e a esmola indicam o processo de
abertura necessária para sermos tocados pela grandeza da vida nova
que nasce da cruz e da ressurreição.
Assim, atingidos por Ele e transformados n’Ele, percebemos que
todas as realidades devem ser transformadas, para que todas as pessoas possam ter a vida plena do Reino.

Leia o texto: CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2012
Lema: Que a Saúde se Difunda sobre a Terra (cf. Eclo 38,8)
Tema: A fraternidade e Saúde Pública

Mensagem quaresmal do bispo de Lamego

O Papa Bento XVI inspirou-se na bela homilia que é a Carta aos Hebreus para falar, nesta Quaresma, ao coração da Igreja inteira e fazer soar e ressoar as suas cordas mais sensíveis, no sentido de nos fazer acordar da nossa letargia e nos persuadir a «prestar atenção uns aos outros, para acender em nós o paroxismo do amor e das obras boas e belas» (Hebreus 10,24).
«Prestar atenção» significa, como bem indica o verbo grego katanoéô, olhar de forma nova, próxima e dedicada para os outros e pelos outros. Olhar atentamente para os outros será sempre, em boa verdade, olhar pelos outros, pondo-nos ao seu serviço. Este olhar novo, limpo e diaconal dissolve o nosso olhar tantas vezes patronal, e faz-nos compreender que o outro, qualquer outro, tem sempre prioridade e precedência sobre nós.
Este procedimento novo de nos descentrarmos de nós mesmos para ficarmos por amor atentos aos outros e a olhar pelos outros é o caminho por excelência ou hiperbólico da vida cristã, como bem nos indicou São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (12,31). Por isso, nos tempos difíceis mas cheios de graça e de esperança que vivemos hoje, não temos o direito de nos acomodar (Romanos 12,2), passando insensivelmente ao lado das dores dos nossos irmãos, vivam eles aqui perto ou lá longe.
A Quaresma é um tempo de graça, de verdade e de escuta em alta fidelidade. É também um tempo de prova. Tempo de rasgar novas avenidas de nova sensibilidade, de abrir caminhos de caridade mais intensa, sempre a partir da Vida nova do Ressuscitado, sempre a caminho da Vida nova do Ressuscitado. Em boa verdade, é sempre bom e belo tomarmos consciência de que estamos hoje e aqui, a viver esta Quaresma do Ano da Graça de 2012, depois da Ressurreição do Senhor e por causa da Ressurreição do Senhor.
Depois da Ressurreição do Senhor e por causa da Ressurreição do Senhor. São estas as coordenadas nucleares da nossa estrada quaresmal. Não podemos, portanto, queridos irmãos, deixar de testemunhar que também hoje é possível, belo, bom e justo viver a existência humana de acordo com o Evangelho, e empenhar-nos, por isso e para isso, em viver uma vida verdadeira, plena, bela, de tal modo bela, que não seria possível explicá-la se Cristo não tivesse sido Crucificado e se não tivesse verdadeiramente Ressuscitado.
Querida Igreja desta Diocese de Lamego, não esqueças a tua identidade. Não te percas no caminho. Não te esqueças de onde vens e para onde vais. Não percas de vista Cristo Crucificado e Ressuscitado. E não te esqueças de que Ele continua vivo e atuante em ti, e solenemente exposto no rosto de cada irmão e irmã mais pequeninos.
Assim sendo e assim é, querida Igreja de Lamego, «enquanto temos tempo, façamos o bem para com todos» (Gálatas 6,10). E tu, meu irmão e minha irmã, «não deixes de fazer o bem a quem tem necessidade, quando está em tuas mãos fazê-lo. Não digas ao teu próximo: “Vai-te embora, volta amanhã e dar-te-ei, se tens aquilo de que ele necessita”» (Provérbios 3,27-28).
Lembro ainda, queridos irmãos, que esta viagem quaresmal é mais intransitiva do que transitiva. Não é tanto uma viagem exterior, nas estradas e no mapa. É mais, muito mais, uma viagem por dentro de nós, para refazer um coração que vê, entranhas que amam sem medida, pés que correm a anunciar o Evangelho, mãos abertas que acolhem e dão, mente cheia de grandes ideais. Ou, para o dizer com São Paulo: «Revesti-vos […] de entranhas de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e magnanimidade, levantando-vos uns aos outros e fazendo-vos graça uns aos outros» (Colossenses 3,12-13).
Amados irmãos, queria propor-vos também, para este itinerário quaresmal, uma maneira concreta de prestarmos atenção aos nossos irmãos, de olharmos pelos nossos irmãos, de perto e de longe. Falo do destino a dar ao nosso contributo quaresmal diocesano, que é uma das expressões da nossa caridade.
Olhando para os nossos irmãos de perto, vamos destinar uma parte do contributo da nossa caridade para o fundo solidário diocesano, para ajudar a aliviar os irmãos mais necessitados. Olhando para os nossos irmãos de longe, vamos destinar outra parte do contributo da nossa caridade para as missões de Malema e Nametil (Diocese de Nampula, Moçambique), para sentirmos também a alegria de levar um pouco de alívio a irmãos nossos que experimentam muito mais dificuldades do que nós.
Com a ternura de Jesus Cristo, saúdo todas as crianças, jovens, adultos e idosos, catequistas, acólitos, leitores, escuteiros, cantores, ministros da comunhão, membros de todas as associações, serviços e secretariados, todos os nossos seminaristas, todos os religiosos e religiosas, todos os diáconos e sacerdotes que habitam e servem a nossa Diocese de Lamego ou estão ao serviço de outras Igrejas. Saúdo com particular afeto todos os doentes, carenciados e desempregados, e as famílias que atravessam dificuldades. Uma saudação especial aos nossos emigrantes.
Na certeza da minha oração e comunhão convosco, a todos vos abraça o vosso bispo.

Fonte:

Agência Ecclesia

Cipriano de Cartago (†258) Bispo de Cartago e Mártir: Da Inutilidade dos Ídolos

Tradução: Luiz Fernando Karps Pasquotto

stes que não são deuses, os quais as pessoas comuns adoram, são conhecidos por isto. Eles eram anteriormente reis, que por conta de suas memórias reais começaram a ser adorados por seus povos, mesmo depois de mortos. Desde então templos foram erigidos em honra deles; desde então imagens foram esculpidas para conservar as expressões do falecido; e homens sacrificaram vítimas, e celebraram dias de festas, com a intenção de lhes dar honras. Então, para os que vieram depois, estes ritos tornaram-se sagrados, os quais, primeiramente, foram adotados como um conforto. E agora vamos ver se esta verdade é sensata em casos particulares.

2. Melicertes e Leucothea são precipitados no mar, e tornam-se divindades do mar. Os Castores morreram periodicamente, para que possam viver. Esculápio é atingido por um raio para que possa se transformar em um deus. Hércules, para que possa se transformar em um deus, é queimado nas chamas de Oeta. Apolo alimentou os rebanhos de Admeto; Netuno erigiu muralhas para Laomedon, e infelizmente não recebeu pagamento por seu trabalho. A caverna de Júpiter é para ser vista em Creta, e sua sepultura é mostrada; e é manifestado que Saturno foi expulso por ele, e que por ele Lácio recebeu seu nome, como sendo seu esconderijo. Ele foi o primeiro que ensinou a grafar as letras; ele foi o primeiro que ensinou a cunhar dinheiro na Itália e, além disso, o tesouro é chamado tesouro de Saturno. E ele também foi o cultivador da vida rústica, e por isso é representado como um homem velho carregando uma foice. Jano o recebeu com hospitalidade quando ele foi expulso e também é chamado Janículo. O mês de Janeiro recebe seu nome dele. Ele mesmo é retratado com duas faces pois, posto no meio, parece olhar igualmente em direção ao começo e ao fim do ano. O Mauri, de fato, manifestamente adora reis, e não oculta seus nomes por nenhum disfarce.

3. Por causa disso a religião politeísta muda a cada nação e província, na medida em que nenhum deus é adorado por todos, mas cada um adora o seu ancestral de forma peculiar. Para comprovar que isso é assim, Alexandre, o Grande, escreveu em um volume endereçado a sua mãe que, através de seu poder, a doutrina dos deuses que era mantida em segredo foi aberta a ele por um sacerdote, pois esta era a memória dos ancestrais e reis que eram realmente mantidas, e que por causa disso os ritos de adoração e sacrifício cresceram. Mas se deuses nasciam em qualquer tempo, porque eles não nascem atualmente também? A menos que, de fato, Júpiter tenha crescido muito velho, ou a faculdade de suportar tenha reprovado Juno.
4. Mas porque pensais que os deuses podem valer-se em nome dos Romanos, quando vê-se que não podem fazer nada por si mesmos? Pois sabemos que os deuses dos Romanos são ingênuos. Rômulo foi feito deus pelo falso testemunho de Próculo, e Pico, e Tiberino, e Pilumno, e Cônso, que como um deus da traição teve que ser adorado, apenas como se ele tivesse sido um deus dos advogados, quando sua perfídia resultou no estupro de Sabines. Tácio também criou e adorou a deusa Cloacina; Hortílio, Terror e Pálida. Logo, eu não sei por quem, Febre foi dedicada, e Acca e Flora às prostitutas. Estes são os deuses romanos. Mas Marte é um traciano, Júpiter é cretense; Juno é de Argiva ou da Sâmia ou de Cartago; Diana é de Tauro e a mãe dos deuses, de Ida; há ainda os monstros egípcios, que não são deuses, os quais asseguradamente, se tivessem algum poder, teriam preservado a eles mesmos e aos seus povos. Certamente há entre os romanos, também, o vencido Penates, o qual o fugitivo Aeneas introduziu com a finalidade de ser adorado. Há também Vênus, mais desonrada pelos seus atos em Roma que por ter sido ferida, de acordo com Homero.

5. Reinos não se elevam à supremacia através do mérito, mas sim pelo acaso. Um dos impérios foi formado pela união dos assírios, medos e persas; e nós sabemos, também, que os gregos e egípcios tiveram seu período de glória. Depois, pela variação de poder, o período de glória passou para os romanos e para outros. Mas se retornarmos às suas origens, ficaremos corados. Tais povos foram unidos pela imoralidade e por seus crimes, e a impunidade de seus crimes cresceu; e seu rei tornou-se um criminoso, pois Rômulo tornou-se um fratricida. Eles roubam, praticam a violência, enganam na intenção de aumentar a população do Estado; seus casamentos consistem na quebra da hospitalidade e em lutas cruéis com seus sogros. O consulado, além disso, é o mais alto grau de honra, em Roma, pois sabemos que o consulado existe desde que o reino foi fundado. Brutus pôs seus filhos à morte, para que a consideração de sua dignidade pudesse aumentar pela aprovação de sua maldade. O reino romano, entretanto, não cresceu da santidade da religião, nem da sorte e do augúrio, mas mantém seu tempo marcado dentro de um limite definido. Além disso, Régulo observava a adivinhação pelo vôo dos pássaros, mas foi feito prisioneiro; e Mancino observava suas obrigações religiosas, mas foi subjugado. Paulo tinha galinhas que se alimentavam, mas foi morto em Cannae. Caio César desprezou os augúrios e as previsões que se opunham ao envio de seus navios à África antes do inverno, e facilmente navegou e conquistou-a.

6. De todos estes, porém, o princípio é o mesmo que engana e ilude, e com truques que escondem a verdade, conduzem um crédulo simples e tolo ao erro. Eles são espíritos impuros e vagantes que, depois de terem sido macerados em vícios terrestres, partiram do vigor celestial deles pelo contágio de terra, e não cessam, quando arruínam eles mesmos, de buscar a ruína de outros; e quando se degradam, infundem em outros o erro de sua própria degradação. Estes demônios os poetas também reconhecem, e Sócrates declarou que ele foi instruído e regido pela guarda de um demônio; e por isso os Magos têm um poder tanto para dano como para escárnio, de quem, porém, Hostanes diz que a forma do verdadeiro Deus não pode ser vista, e declara que anjos ficam rodando em volta do trono dEle. Em que Platão também concorda no mesmo princípio, e, mantendo um Deus, chama o reto de anjos ou demônios. Além disso, Hermes Trismegisto fala de um Deus, e confessa que Ele é incompreensível e além de nossa estimação.

7. Estes espíritos, então, estão espreitando debaixo das estátuas e imagens consagradas: eles inspiram os peitos de seus profetas com seu sopro, animam as fibras das entranhas, dirigem os vôos dos pássaros, regem os lotes, dá eficiência aos oráculos, sempre estão misturando falsidade com verdade, porque são ambos enganados e enganadores; eles perturbam suas vidas, eles inquietam seus sonos; seus espíritos também rastejam em seus, secretamente atormentando suas mentes; torcem seus membros, destroem suas saúdes, excitam doenças para forçar sua adoração, de forma que quando o altar está saturado com o vapor das pilhas de gado, lhes dá a impressão de terem soltado o que tinham ligado, e assim pareça terem efetuado uma cura. O único remédio deles é quando seus próprios danos cessam; nem têm eles qualquer outro desejo além de chamar os homens para longe de Deus, e os levar para longe da compreensão da verdadeira religião, levando-os para a superstição com respeito a eles mesmos; e desde que eles mesmos estão debaixo do castigo, (desejam) buscar para eles companheiros no castigo, os quais podem, pelo engano deles, torná-los cúmplices em seus crimes. Porém, estes, quando forçados por nós através do verdadeiro Deus, imediatamente se rendem, e são constrangidos a saírem dos corpos possuídos. Você pode vê-los na nossa voz, e pela operação da majestade escondida, atingidos duramente com faixas, queimado com fogo, esticados com o aumento de um castigo crescente, uivando, gemendo, pedindo, confessando de onde eles vieram e quando partem, até mesmo ouvindo falar dessas muitas pessoas que os adoram, e qualquer um que pula adiante imediatamente ou desaparecendo gradualmente, até mesmo como a fé do sofredor vem em ajuda, ou a graça dos efeitos de curandeiro. Conseqüentemente, eles urgem as pessoas comuns para detestarem nosso nome, de forma que os homens começam a nos odiar antes deles nos conhecerem, pois conhecendo-nos ou eles deveriam nos imitar, ou eles não teriam motivo para condenar-nos.

8. Portanto o único Senhor de tudo é Deus. Sendo sublime, não pode possivelmente ter qualquer obrigação, pois só ele possui todo o poder. Além disso, nos deixe pegar emprestado uma ilustração para o governo divino da terra. Sempre que se fez uma aliança em realeza não começaram elas em boa fé e terminaram em derramamento de sangue? Assim a fraternidade do Tébanos estava quebrada, e a discórdia durou até mesmo na morte, na desunião de suas cinzas. E um reino não pode conter os gêmeos romanos, embora o abrigo de um útero os tenha segurado. Pompéia e César eram parceiros, e não mantiveram o laço de sua relação no poder invejoso deles. Não deve você se maravilhar disto em relação ao homem, já que nisto estão todos os consentimentos da natureza. As abelhas têm um rei; os rebanhos têm um líder e uma regra. Suficiente é a Regra do mundo todo; quem comanda todas as coisas, tudo o que eles são, com sua Palavra, os dispõe por sua Sabedoria, e os realiza por seu poder.

9. Ele não pode ser visto - Ele é muito luminoso para visão; nem compreendido - Ele é muito puro para nosso discernimento; nem calculado - Ele é muito grande para nossa percepção; e portanto nós só estamos O calculando meritoriamente quando nós dizemos que Ele é inconcebível. Mas que templo pode ter Deus, de quem templo o mundo inteiro é? E enquanto o homem mora longe e distante, devia eu me calar sobre o poder de tal grande majestade dentro de um edifício pequeno? Ele deve ser dedicado em nossa mente; em nosso peito Ele deve ser consagrado. Nem deve você perguntar o nome de Deus. Deus é o nome dele. Entre esses há necessidade de nomes onde uma multidão é para ele distinguido por apropriadas características de títulos. Para Deus que é só, pertence todo o nome de Deus; então Ele é único, e Ele na sua totalidade está em todos os lugares. Pois até mesmo as pessoas comuns em muitas coisas naturalmente confessam Deus, quando suas mentes e almas são prevenidas de seu autor e origem. Nós freqüentemente ouvimos dizer: “Ó Deus,” e “Deus vê” e “Eu recomendo para Deus” e “Deus o dá,” e “Como vai Deus,” e “Se Deus deveria conceder”; “E esta é a mesma altura de pecadores, recusar o conhecimento dele”, o qual você não pode conhecer.

10. Mas aquele Cristo é o caminho pelo qual a salvação passou a nós, pois esta é a maneira, o plano, pois esta maneira, é o meio. Em primeiro lugar, um favor com Deus foi dado aos judeus. Assim eles de velhos eram íntegros; assim seus antepassados eram obedientes aos compromissos religiosos deles. Por isso, com eles, suas regras sublimes floresceram, e a grandeza da raça deles avançou. Mas subseqüentemente tornando-se negligentes de disciplina, orgulhosos, e erguendo a cabeça com confiança aos seus pais, eles menosprezaram os preceitos divinos, e perderam o favor conferido neles. Mas como o profano se tornou a vida deles, a ofensa para a religião violada deles foi contraída, até eles mesmos agüentam testemunhar, desde que, embora eles estejam calados com suas vozes, eles confessem isto pelo seu fim. Se espalhado e se desgarrado, eles vagam; desterrados da própria terra deles, eles são lançados na hospitalidade de estranhos.

11. Além disso, Deus previamente tinha predito que isto aconteceria, de como as eras passariam, e que o fim do mundo estava próximo; Deus irá juntar para Ele todas as nações, e as pessoas, e lugares, adoradores muito melhores em obediência e mais fortes na fé, de que tiraria o presente divino de clemência que os judeus tinham recebido e tinham perdido por menosprezarem suas ordenações religiosas. Portanto, desta clemência e graça são enviados a Palavra e Filho de Deus como o dispensador e mestre, o qual por todos os profetas antigos foi anunciado como o iluminador e professor da raça humana. Ele é o poder de Deus, Ele é a razão, Ele é sabedoria e glória; Ele foi concebido por uma virgem; por ação do Santo Espírito, Ele é dotado com carne; Deus é entrosado com homem. Este é nosso Deus, este é Cristo que, como o mediador dos dois, tornou-se homem, o qual Ele pode conduzir para o Pai. O que o homem é, Cristo estava disposto ser, para que o homem também possa ser o que o Cristo é.

12. E os judeus sabiam que o Cristo estava para vir, pois Ele sempre foi anunciado a eles pelos profetas. Mas o advento dele, sendo significado a eles duplamente - primeiro, o que deveria descarregar o ofício e exemplo de um homem; segundo, o outro que deveria declará-lo como Deus - eles não entenderam o primeiro advento que precedeu, como sendo escondido em sua paixão, mas acreditam no único que será manifesto em poder. Mas para que os judeus não pudessem entender isto, era em razão do deserto de seus pecados. Eles foram castigados, assim, pela cegueira de sua sabedoria e inteligência. Eles eram desmerecedores da vida, tiveram a vida ante seus olhos, e não a viram.

13. Então quando Cristo Jesus, conforme o que tinha sido previamente predito pelos profetas, arrebanhar para longe dos homens os demônios por sua palavra, e pelo comando de sua voz erguer os paralíticos, limpar os leprosos, iluminar os cegos, der o poder de movimento para os mancos, elevar os mortos novamente, compelir os elementos para O obedecer como servos, os ventos para O servir, os mares para O obedecer, as mais baixas regiões para render culto a Ele, os judeus, que tinham acreditado nele somente pela humildade de sua carne e corpo, O consideraram como um feiticeiro pela autoridade de seu poder. Seus mestres e líderes, isto é, aqueles a quem Ele subjugou tanto pela sabedoria como pelo conhecimento, inflamados com ira e estimulados com indignação, finalmente O agarraram e O entregaram a Pôncio Pilatos, que era então o procurador da Síria em nome dos romanos, exigindo com urgência sua violenta e obstinada crucifixão e morte.

14. Que eles fariam isto, Ele também tinha predito; e o testemunho de todos os profetas O tinha precedido de certa forma, que era necessário que Ele sofresse; não que Ele pudesse sentir a morte, mas que Ele poderia conquistar a morte, e que, quando Ele deveria ter sofrido, Ele deveria retornar novamente ao céu, para mostrar o poder da majestade divina. Então o curso de eventos cumpriu a promessa. Pois quando crucificado, o ofício do executor sendo antecipado, Ele de próprio teve seu espírito tomado, e no terceiro dia, livremente ressuscitou da morte. Ele apareceu aos seus discípulos como Ele tinha sido. Ele deu a si mesmo para o reconhecimento daqueles que o viram, reunidos juntos com Ele; e sendo evidente pela substância de sua existência corporal completamente existente, Ele retirou-se durante quarenta dias nos quais eles poderiam ter sido instruídos por Ele nos preceitos da vida, e poderiam aprender o que eles estavam para ensinar. Então, em uma nuvem que os rodeou, Ele foi erguido para o céu como um conquistador que Ele poderia trazer ao Pai, Homem o qual Ele amou, quem Ele pôs acima, quem Ele protegeu da morte; logo virá do céu para o castigo do diabo e para o julgamento da raça humana, com a força de um vingador e com o poder de um juiz; ainda os discípulos, espalhados em cima do mundo, à licitação que seu Mestre e Deus deu adiante seus preceitos para salvação, homens para guiar os cegos até a luz, e deu olhos aos cegos e ignorantes para o reconhecimento da verdade.

15. E como a prova poderia não ser menos significativa, e a confissão de Cristo poderia não ser uma questão de prazer, eles são experimentados por torturas, através de crucificações, por muitos tipos de castigos. A dor, que é o teste da verdade, é trazida para mostrar que Cristo, o Filho de Deus, o qual é confiado aos homens por suas vidas, não só poderia ser anunciado pela voz, mas pelo testemunho dos sofrimentos. Então nós O acompanhamos, nós O seguimos, nós O temos como o Guia de nosso caminho, a Fonte da luz, o Autor da salvação, prometendo tanto o Pai como o céu para esses que buscam e acreditam. O que o Cristo é, nós os cristãos deveremos ser, se nós imitarmos o Cristo.



Fonte: Ecclesia

Cipriano de Cartago (†258) Bispo de Cartago e Mártir: A Unidade da Igreja

I Parte:
1 - Vigiai, o inimigo vem disfarçado
(1) "Vós sois o sal da terra" (Mt 5,3), diz o Senhor, e ainda nos recomenda que sejamos simples pela inocência e prudentes na simplicidade [Mt 10,16]. Nada pois é mais importante para nós, irmãos diletíssimos, quanto vigiar com todo o cuidado para descobrir logo e, ao mesmo tempo, compreender e evitar as ciladas do inimigo traiçoeiro. Sem isso, embora sejamos revestidos de Cristo [Rom 13,14; Gál 3,27], que é a Sabedoria de Deus Pai [1Cor 1,24], nos mostraríamos menos sábios na defesa da salvação.
(2) De fato, não devemos temer só a perseguição e os vários ataques que se desencadeiam abertamente para arruinar e abater os servos de Deus. Quando o perigo é manifesto, a cautela é mais fácil. O nosso espírito está mais pronto para lutar contra um adversário abertamente declarado. É mais necessário ter medo e guardar-nos do inimigo que penetra às escondidas, e se vai insinuando oculta e tortuosamente com falsas imagens de paz. Bem lhe convém o nome de serpente! Essa foi sempre a sua astúcia, esse foi sempre o tenebroso e pérfido engano com que tenta seduzir o homem.
(3) Já no começo do mundo mentiu e enganou as almas crédulas e ingênuas (dos nossos primeiros pais), acariciando-as com palavras falazes [Gen 3,1ss] . Igualmente ousou tentar a Cristo, nosso Senhor, e se aproximou dele insinuando, disfarçando, mentindo. Foi contudo desmascarado e repelido. Desta vez, foi derrotado porque foi reconhecido e descoberto [Mt 4,1ss].

2 - Acima de tudo: cumprir os mandamentos de Cristo
(1) Sirvam-nos estes exemplos. Evitemos o caminho do homem velho, para não cair no laço da morte. Sigamos as pisadas de Cristo vencedor, para que, usando cautela diante do perigo, alcancemos a verdadeira imortalidade.
(2) Mas, como poderíamos chegar à imortalidade, sem observar os mandamentos de Cristo? São eles os únicos meios para combater e vencer a morte. Ele nos avisa: "Se queres chegar à vida, observa os mandamentos" (Mt 19,17), e, de novo: "Se fizerdes o que vos mando, já não vos chamarei servos, mas amigos" (Jo 15,15).
(3) Esses são os que ele diz serem fortes e firmes. Esses têm fundamento sólido na pedra, e gozam de inabalável resistência contra todas as tempestades e as rajadas do século. "Quem ouve as minhas palavras - diz ele - e as cumpre é semelhante ao homem sábio que construiu a sua casa sobre a pedra. Desceu a chuva, desabaram as correntes, sopraram os ventos, batendo contra aquela casa, e ela não caiu porque fora fundada na pedra" (Mt 7,25).
(4) Devemos, pois, prestar atenção às suas palavras, devemos aprender e praticar o que ele ensinou e o que fez. Como poderia asseverar que acredita em Cristo aquele que não cumpre o que Cristo mandou? E como conseguirá o prêmio da fé aquele que recusa a fé no que foi mandado? Fatalmente ele irá vacilando, à ventura, e, arrastado pelo espírito do erro, será varrido como pó agitado pelo vento.
(5) Nunca poderão conduzir à salvação os passos daquele que não adere à verdade da única via que salva.

3 - O demônio é o autor dos cismas
(1) Devemos pois guardar-nos, irmãos caríssimos, não só dos males que aparecem claramente como tais, mas também, como já disse, daqueles que nos enganam pela sutileza da astúcia e da fraude.
(2) Pois bem, vede agora a que ponto chega a astúcia e a sutileza do inimigo. Veio Cristo ao mundo. Veio a luz para os povos e resplandeceu para a salvação dos homens [Lc 2,32]. Com isto ficou descoberto e derrotado o antigo adversário. Os surdos abrem os ouvidos às graças espirituais, os cegos abrem os olhos a Deus, os enfermos ficam são ao ganhar a saúde eterna, os coxos correm à Igreja, os mudos soltam as suas línguas na oração [Mt 11,5; Lc 7,22]. Aumenta dia a dia o povo fiel, abandonam-se os velhos ídolos, tornam-se desertos os seus templos.
(3) Então, o que faz o malvado? Inventa nova fraude para enganar os incautos com o próprio título do nome cristão. Introduz as heresias e os cismas para derrubar a fé, para contaminar a verdade e dilacerar a unidade. Assim, não podendo mais segurar os seus na cegueira da antiga superstição, os rodeia, os conduz ao erro por novos caminhos. Rouba à Igreja os homens e, fazendo-lhes acreditar que alcançaram a luz e se subtraíram à noite do século, envolve-os ainda mais nas trevas: não observam a lei do Evangelho de Cristo e se dizem cristãos, andam na escuridão e pensam que possuem a luz, nisto são iludidos e lisonjeados pelo adversário, que, como diz o Apóstolo, "se transfigura em anjo de luz" (2Cor 11,14).
(4) Disfarça seus ministros em ministros de justiça, ensina-lhes a dar à noite o nome de dia, à perdição o nome de salvação, ensina-lhes a propalar o desespero e a perfídia sob o rótulo da esperança e da fé, a apregoar o Anticristo com o nome de Cristo. Mestres na arte de mentir, diluem com as suas sutilezas toda a verdade.
(5) Isto acontece, irmãos caríssimos, porque não se bebe à fonte mesma da verdade, não se busca aquele que é a Cabeça, nem se observam os ensinamentos do Mestre celestial.

4 - "Tu és Pedro, e sobre esta pedra..."
(1) Quem presta atenção a estes ensinamentos não precisa de longo estudo, nem de muitas demonstrações. A prova da nossa fé é fácil e compendiosa.
(2) Assim fala o Senhor a Pedro: "Eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas dos infernos não a vencerão. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus" (Mt 16,18-19).
(3) Sobre um só edificou a sua Igreja. Embora, depois da sua ressurreição, tenha comunicado igual poder a todos os Apóstolos, dizendo: "Como o Pai me enviou, eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo, a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados, a quem os retiverdes ser-lhe-ão retidos" (Jo 20,21-23), todavia, para tornar manifesta a unidade, dispôs com a sua autoridade que a origem da unidade procedesse de um só.
(4) É verdade que os demais Apóstolos eram o mesmo que Pedro, tendo recebido igual parte de honra e de poder, mas a primeira urdidura começa pela unidade a fim de que a Igreja de Cristo aparecesse uma só.
(5) O Espírito Santo, falando na pessoa do Senhor, designa esta Igreja única quando diz no Cântico dos Cânticos: "Uma só é a minha pomba, a minha perfeita, única filha da sua mãe e sem igual para a sua progenitora" (Cant 6,9).
(6) Aquele que não guarda esta unidade poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que resiste e faz oposição à Igreja poderá confiar que ainda está na Igreja?
(7) Paulo apóstolo inculca o mesmo ensinamento e mostra o sacramento da unidade, dizendo: "Um só corpo e um só espírito, uma é a esperança da vossa vocação, um Senhor, uma fé, um Batismo, um só Deus" (Ef 4,4-5).
(8) E, depois da ressurreição, diz ao mesmo: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Sobre ele só constrói a Igreja e lhe manda que apascente as suas ovelhas. Embora comunique a todos os Apóstolos igual poder, todavia institui uma só cátedra, determinando assim a origem da unidade.
(9) É verdade que os demais [Apóstolos] eram o mesmo que Pedro, mas o primado é conferido a Pedro para que fosse evidente que há uma só Igreja e uma só cátedra. Todos são pastores, mas é anunciado um só rebanho, que deve ser apascentado por todos os Apóstolos em unânime harmonia.
(10) Aquele que não guarda esta unidade, proclamada também por Paulo, poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, poderá confiar que ainda está na Igreja?

5 - A Igreja única e universal: muitos são os raios, uma a luz...
(1) Esta unidade devemos guardar e exigir com firmeza, especialmente nós, bispos, que na Igreja presidimos, para dar prova de que o episcopado também é um e indiviso. Ninguém engane os irmãos com mentiras, ninguém corrompa a pureza da fé com pérfidos desvios.
(2) Uma só é a ordem episcopal e cada um de nós participa dela completamente. Mas a Igreja também é uma, embora, em seu fecundo crescimento, se vá dilatando numa multidão sempre maior.
(3) Assim muitos são os raios do sol, mas uma só é a luz, muitos os ramos de uma árvore, mas um só é o tronco preso à firme raiz. E quando de uma única nascente emanam diversos riachos, embora corram separados e sejam muitos, graças ao copioso caudal que recebem, todavia permanecem unidos na fonte comum.
(4) Se pudéssemos separar o raio do corpo do sol, na luz assim dividida já não haveria unidade. Quando se quebra um ramo da árvore, o ramo quebrado já não pode vicejar. Se separamos um regato da fonte, ele secará.
(5) Igualmente a Igreja do Senhor, resplandecente de luz, lança seus raios no mundo inteiro, mas a sua luz, difundindo-se em toda a parte, continua sendo a mesma e, de modo nenhum, é abalada a unidade do corpo.
(6) Na sua exuberante fertilidade, estende os seus ramos em toda a terra, derrama as suas águas em vivas torrentes, mas uma só é a cabeça, uma a fonte, uma a mãe, tão rica nos frutos da sua fecundidade. Do parto dela nascemos, é dela o leite que nos alimenta, dela o Espírito que nos vivifica.

6 - Única Esposa de Cristo: não pode ter Deus por Pai, quem não tem a Igreja por mãe.
(1) A Esposa de Cristo não pode tornar-se adúltera, ela é incorruptível e casta [Cf Ef 5,24-31]. Conhece só uma casa, observa, com delicado pudor, a inviolabilidade de um só tálamo. É ela que nos guarda para Deus e torna partícipes do Reino os filhos que gerou.
(2) Aquele que, afastando-se da Igreja, vai juntar-se a uma adúltera, fica privado dos bens prometidos à Igreja. Quem abandona a Igreja de Cristo não chegará aos prêmios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se profano, torna-se inimigo.
(3) Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Como ninguém se pôde salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da Igreja [nota: aqui Cipriano fala dos obstinados que, conhecendo a verdade, insistem, por ódio ou comodismo pagão, em se apartar da Igreja de Cristo].
(4) O Senhor nos alerta e diz: "Quem não está comigo está contra mim, quem comigo não recolhe, dissipa" (Mt 12,30). Quem rompe a paz e a concórdia de Cristo trabalha contra Cristo. Quem faz colheita alhures, fora da Igreja, esse dissipa a Igreja de Cristo.
(5) Diz ainda o Senhor: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10,30), e do Pai, do Filho e do Espírito Santo está escrito: "Estes três são um" (1Jo 5,7). Como poderá alguém pensar que esta unidade da Igreja, decorrente da própria firmeza da unidade divina, e tão conforme com este celeste mistério, pode ser rompida e sacrificada ao arbítrio de vontades opostas? Quem não observa esta unidade não observa a lei de Deus, não observa a fé do Pai e do Filho, não possui nem a vida, nem a salvação.

7 - A túnica inconsútil de Cristo
(1) Este sacramento da unidade, este vínculo de concórdia inviolada e sem rachadura, é figurado também pela túnica do Senhor Jesus Cristo. Como lemos no Evangelho, ela não foi dividida, nem, de modo algum, rasgada, mas sorteada. Isto quer dizer que quem toma a veste de Cristo e tem a dita de se revestir do próprio Cristo [Rom 13,14; Gál 3,27], deve receber a sua túnica toda inteira e possuí-la intacta e sem divisão.
(2) Diz a divina Escritura: "Quanto à túnica, visto que, desde a parte superior, era feita de uma única tecedura, sem costura alguma, disseram: não a dividamos, mas lancemos-lhe a sorte para ver a quem toca" (Jo 19,23-24). A unidade da túnica derivava da sua parte superior - em nosso caso, do céu e do Pai celeste. Aquele que a recebia e guardava não podia rasgá-la de modo nenhum, de fato ela era resistente e sólida por ser constituída de um modo inseparável.
(3) Não pode possuir a veste de Cristo aquele que rasga e divide a Igreja de Cristo.
(4) O contrário aconteceu à morte de Salomão, quando o seu reino e o povo deviam ser divididos. O profeta Aías, indo ao encontro do rei Jeroboão no campo, cortou o seu manto em doze partes, dizendo: "Toma para ti dez partes, porque assim diz o Senhor: eis que eu divido o reino da mão de Salomão, a ti darei dez cetros e dois ficarão para ele, por causa do meu servo Davi e de Jerusalém, a cidade eleita em que eu pus o meu nome" (1Rs 11,30-36). Para separar as doze tribos de Israel, o profeta dividiu o seu manto.
(5) Mas o povo de Cristo não pode ser dividido, e por isso a sua túnica, que era um todo feito de uma só tecedura, não foi dividida por aqueles que a deviam possuir. Ficando uma só, bem firme na sua contextura, ela mostra a união e a concórdia do nosso povo, isto é, daqueles que são revestidos de Cristo. Por este sinal sagrado da sua veste, proclamou ele a unidade da Igreja.

8 - Figuras do Antigo Testamento: Raabe, o cordeiro pascal
(1) Portanto quem será tão celerado e pérfido, tão louco pelo furor da discórdia, para pensar como possível ou até para ousar romper a unidade de Deus, a veste do Senhor, a Igreja de Cristo?
(2) Ainda uma vez nos avisa ele no Evangelho dizendo: "E haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo 10,16). E como se pode pensar que, num mesmo lugar, existam muitos pastores e muitos rebanhos?
(3) O apóstolo Paulo, por sua vez, inculcando esta mesma unidade, suplica e exorta: "Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais as mesmas coisas e não se dêem cismas entre vós. Sede unidos no mesmo sentimento e no mesmo pensamento" (1Cor 1,10) E de novo: "Sustentando-vos mutuamente no amor, esforçando-vos por conservar a unidade do Espírito na união da paz" (Ef 4,2-3).
(4) Achas tu que alguém pode afastar-se da Igreja, fundar, a seu arbítrio, outras sedes e moradias diversas e ainda perseverar na vida? Ouve o que foi dito a Raabe, na qual era prefigurada a Igreja: "Recolhe teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a tua família junto de ti, na tua casa, e qualquer um que ouse sair fora da porta da tua casa, será ele próprio culpado da sua perda" (Jos 2,18-19).
(5) Igualmente o sacramento da Páscoa [antiga], como lemos no Êxodo, exigia que o cordeiro, morto como figura de Cristo, fosse comido numa só casa. Eis as palavras de Deus: "Seja comido numa só casa, não jogueis fora da casa carne alguma dele" (Ex 12,46). A carne de Cristo, o Santo do Senhor [Nota: "Sanctum Domini" O Santo do Senhor - era como os primeiros cristãos chamavam a Eucaristia - O Corpo e Sangue de Cristo Jesus], não pode ser jogado fora. Para os que nEle crêem, não há outra casa a não ser a única Igreja.
(6) O Espírito Santo anuncia e significa esta casa, esta morada da união dos corações, dizendo nos salmos: "Deus faz habitar na casa aqueles que são unânimes" (Sl 67,7). Na casa de Deus, na Igreja de Cristo, os moradores são unidos e perseveram na concórdia e na simplicidade. Leia o Texto todo

Fonte:

Ecclesia

Cipriano de Cartago (†258) Bispo de Cartago e Mártir: A Oração do Senhor


uais são, caríssimos irmãos, os mistérios da oração do Senhor? Quantos e quão grandes são eles, condensados em palavras breves mas prenhes de força espiritual, que nada omitem e fazem dessa oração um compêndio da doutrina celeste?
Diz ele: "Assim deveis orar: Pai-nosso, que estás nos céus". O homem novo, renascido e restaurado para Deus, pela graça, diz, logo de início, Pai, porque já começou a ser filho. "Veio pata o que era seu e os seus não o receberam. A todos, porém, que o receberam, deu o poder de se tornarem filhos de Deus, a todos os que crêem em seu nome". [1]. Assim, aquele que crê em seu nome e se torna filho de Deus, há de começar imediatamente a dar graças e a confessar-se filho de Deus. E ao dirigir-se a Deus, chamando-o de Pai que está no céu, indica também, por suas primeiras palavras da vida nova, que renunciou ao pai terreno e carnal, que reconhece o Pai que principiou a ter no céu. Pois está escrito: "Quem diz a seu pai e a sua mãe, não os conheço, e a seus filhos, não sei quem sois, este guardou os teus preceitos e conservou o teu testamento" [2]. Também o Senhor ensinou que não devemos chamar a ninguém" pai", na terra, porque só existe para nós um Pai que está nos céus. E respondeu ao discípulo que fizera menção do pai falecido: "Deixa aos mortos que sepultem os seus mortos" [3]. Ele havia dito que o seu pai estava morto, contudo o Pai dos crentes vive.

Como é grande, portanto, a indulgência do Senhor! Ele nos envolve com a abundância de sua graça e bondade, a ponto de querer que o chamemos Pai, ao elevarmos a Deus nossa oração, de modo que assim como Cristo é Filho, nós também sejamos chamados filhos. Se o próprio Cristo não nos tivesse permitido orar dessa maneira, quem de nós ousaria pronunciar tal nome de Pai? Por isso devemos estar conscientes de que se damos a Deus tal apelativo precisamos agir como filhos seus, para que assim como nos alegramos com Deus Pai, também se alegre Ele conosco. Vivamos, portanto, como templos de Deus, para que se note que Ele habita em nós. Que nossa ação não seja indigna do Espírito, para que não nos aconteça ter começado a ser do céu e pensar e praticar o que não é celeste nem espiritual. Com efeito, o Senhor nos adverte: - "Eu glorificarei os que me glorificam e desprezarei os que me desprezam" [4]. Igualmente diz o bem-aventurado Apóstolo: "Não sois vossos. Fostes comprados por um grande preço. Glorificai a Deus trazendo-o em vosso corpo" [5].

Dizemos a seguir: "Santificado seja o teu nome". Não porque pretendamos que Deus seja santificado por nossa oração, mas pedimos que seu nome seja santificado em nós. De resto, por quem poderia ser santificado o santificador? Mas, como disse ele: "sede santos, que eu também sou santo" [6], suplicamos a perseverança naquilo que começamos a ser pela santificação do batismo. Oramos assim todos os dias, necessitamos diariamente de santificação a fim de purificar-nos continuamente dos pecados de cada dia. E o Apóstolo nos indica qual a santificação que nos é conferida pela misericórdia de Deus: "Na verdade, fostes perversos, devassos... mas fostes lavados, justificados e santificados em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus" [7]. Diz que estamos santificados em nome de Jesus Cristo e no Santo Espírito do nosso Deus. Oramos para que esta santificação permaneça em nós. E como o Senhor, nosso juiz, recomendou ao que foi por ele curado e vivificado, não reincidisse em pecado, a fim de não lhe acontecer algo pior, fazemos continuamente esta prece, suplicamos dia e noite, seja mantida em nós, pela proteção de Deus, a santificação e vivificação que recebemos de sua graça.

Segue-se a petição: "Venha a nós o teu reino". Desejamos que o reino de Deus se torne presente a nós, como havíamos desejado que o seu nome fosse santificado em nós. Pois quando é que Deus não reina? Quando poderia começar para ele um reino que sempre existiu e nunca deixará de existir? Pedimos, pois, que venha a nós o "teu reino", aquele que nos foi prometido por Deus e obtido pela paixão de Cristo. Nós, os que servimos neste século como servos, esperamos reinar com Cristo vitorioso, conforme a promessa: "Vinde, benditos de meu Pai, apossai-vos do reino que vos está preparado desde o começo do mundo" [8]. Pode-se dizer que o próprio Cristo seja o reino de Deus ao qual queremos chegar, cada dia, e cujo advento pedimos que se abrevie. Pois se ele é a nossa ressurreição, porque nele ressuscitamos, podemos igualmente conceber que ele seja também o reino, uma vez que nele havemos de reinar. E com razão pedimos o reino de Deus, isto é, o reino celeste, pois há também o reino terrestre, mas quem renunciou ao século está acima desse reino e das suas honras.

Ajuntamos a seguir: "Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu". Não que Deus deva ser rogado a fazer o que Ele mesmo quer, mas nós devemos fazer o que Ele quer.
Quem o impediria de fazer o que quer? Nós, todavia, perturbados como somos pelo diabo, que pretende impedir-nos de seguir a Deus com toda a alma e ação, regamos que se cumpra em nós a vontade de Deus, para o que é indispensável sua ajuda e proteção. Ninguém é forte por suas próprias forças, mas graças à indulgência e misericórdia de Deus. Até o próprio Cristo indica a fraqueza do homem que ele mesmo carregava, dizendo: "Pai, se possível, afasta de mim este cálice" [9]. E acrescentou imediatamente, deixando aos discípulos o exemplo de que não deveriam fazer a própria vontade, mas a de Deus: "contudo, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres". O mesmo ele diz em outro lugar: "Não desci do céu para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou" [10].

Se o Filho esteve atento no cumprir a vontade do Pai, quanto mais deve estar o servo em relação ao Senhor. São João nos exorta igualmente, em sua epístola, a cumprir a vontade do Pai: "Não ameis o mundo, nem o que está no mundo. Se alguém ama o mundo, a caridade do Pai não está nele. Pois tudo que está no mundo é concupiscência da carne, concupiscência do mundo. O mundo passará, e igualmente a sua concupiscência; aquele, porém, que cumprir a vontade de Deus permanece eternamente" [11]. Os que quisermos permanecer eternamente devemos, pois, cumprir a vontade do eterno Deus.
Ora, a vontade de Deus é a que Cristo praticou e ensinou. Humildade na vida, estabilidade na fé, veracidade nas palavras, justiça no agir, misericórdia nas obras, disciplina nos costumes, não saber injuriar, tolerar a injúria recebida, manter a paz com os irmãos, querer a Deus com todo o coração, amando-o como Pai e temendo-o como Deus; nada prepor ao Cristo, porque ele também nada prepôs a nós; aderir inseparavelmente à sua caridade, unir-se à sua cruz com firmeza e fé e, quando houver luta por seu nome e honra, manifestar na palavra e constância, com que o confessarmos diante dos juízes, a firmeza de nosso combate; manifestar enfim na morte a paciência pela qual somos coroados. Isso é ser co-herdeiros de Cristo, isso é praticar o preceito de Deus, isso é cumprir a vontade do Pai!

Pedimos que seja feita a vontade do Pai assim na terra como no céu, pois em ambos os casos está em jogo nossa segurança e salvação. Possuímos um corpo da terra e um espírito do céu, somos a um tempo terra e céu. Oramos para que em ambos, corpo e espírito, seja feita a vontade de Deus. Na verdade, há luta entre a carne e o espírito, e essa discórdia diária acarreta-nos embaraços para fazer o que queremos. De um lado o espírito procura o que é celeste, o divino; de outro lado a carne cobiça o secular, o terreno. Por isso pedimos que pelo auxílio de Deus se estabeleça a harmonia entre ambos, que graças à sua vontade, realizada na carne e no espírito, seja salva a vida por ele renascida.

Pode-se ainda, irmãos caríssimos, entender de outra maneira. Como o Senhor quer e exige que amemos até os inimigos, que oremos até pelos que nos perseguem, pode-se entender que devamos pedir também pelos que ainda são terra e não começaram a ser celestes, para que neles se realize a vontade de Deus, a vontade que Cristo cumpriu conservando e reintegrando o homem.
O Senhor já não chama seus discípulos terra, mas sal da terra, e o Apóstolo diz que o primeiro homem é limo da terra, ao passo que o segundo é celeste; portanto, nós, que devemos ser semelhantes ao Pai - (o qual faz nascer o sol sobre bens e maus, chover sobre justos e injustos) - seguindo o conselho de Cristo, oramos e pedimos numa única prece pela salvação de todos. Assim como a vontade de Deus foi feita no céu, isto é, em nós - que pela fé nos tornamos céu assim se faça também na terra, isto é, nos que ainda não crêem, que ainda são terrenos pelo primeiro nascimento a fim de começarem a ser celestes pelo renascimento na água e no Espírito. Leia o Texto Completo

Fonte:

Ecclesia