Da última Exortação de Santo André Kim Taegón, presbítero e mártir



(Pro Corea. Documenta., ed. Mision Catholique Séoul, Séoul-Paris 1938, Vol. I,74-75)
(Séc.XIX)

A fé é coroada pelo amor e a perseverança
Meus caríssimos irmãos e amigos, considerai como Deus no princípio dos tempos
dispôs os céus, a terra e todas as coisas; meditai também com que especial intenção
criou o ser humano à sua imagem e semelhança.

Se, pois, nesta vida de perigos e miséria, não reconhecermos o Criador, de nada nos
servirá termos nascido e continuar vivendo. Já neste mundo pela graça divina, pela
mesma graça recebemos o batismo, entrando no seio da Igreja e tornando-nos discípulos
do Senhor. Mas, trazendo assim o precioso nome de cristãos, de que nos servirá tão
grande nome, se na realidade não o formos? Seria inútil termos nascido e ingressado na
Igreja se traíssemos o Senhor e a sua graça; melhor seria não termos nascido do que,
recebendo a sua graça, pecarmos contra ele.

 Considerai o agricultor ao lançar a semente no campo: primeiro, prepara a terra com o
suor do seu rosto e depois joga a preciosa semente; chegando o tempo da colheita,
alegra-se de coração com as espigas cheias, esquecendo seu trabalho e suor, e dançando
de alegria; se porém as espigas permanecem vazias não sendo mais que palha e casca, o
agricultor deplora o duro labor com que suou, sentindo-se tanto mais desesperado
quanto mais trabalhou.

De modo semelhante, cultiva o Senhor a terra como seu campo, sendo nós os grãos de
arroz; rega-nos com o seu sangue na sua Encarnação e Redenção para que possamos
crescer e amadurecer; quando, no dia do juízo, vier o tempo da colheita, quem pela
graça for achado maduro gozará o reino dos céus como filho adotivo de Deus. Quanto
aos outros, que não amadureceram, tornar-se-ão inimigos, punidos para sempre, embora
também tenham se tornado filhos adotivos de Deus pelo batismo.

Irmãos caríssimos, lembrai-vos de que nosso Senhor Jesus, descendo a este mundo,
sofreu inúmeras dores e tendo fundado a Igreja por sua paixão, ele a faz crescer pelos
sofrimentos dos fiéis. Apesar de todas as pressões e perseguições, os poderes terrenos
não poderão prevalecer: da Ascensão de Cristo e do tempo dos apóstolos até hoje, a
santa Igreja continua crescendo no meio das tribulações.

Também nesta nossa terra da Coréia, durante os cinqüenta ou sessenta anos em que a
santa Igreja se estabeleceu aqui, os fiéis sempre sofreram perseguições. Hoje acendeu-se
de novo a perseguição; muitos amigos são, como eu, lançados nos cárceres, enquanto
também sofreis tribulações. Unidos num só corpo, como não ficarão tristes os nossos
corações? Como, humanamente, não experimentarmos a dor da separação?

Deus, porém, como diz a Escritura, cuida de cada cabelo de nossa cabeça, e o faz com
toda a sabedoria; portanto, como não considerar esta perseguição senão como permitida
pelo Senhor, ou mesmo, seu prêmio ou, até, sua pena?

Abraçai, pois, a vontade de Deus, combatendo de todo o coração pelo vosso chefe Jesus
e vencendo o demônio, já vencido por ele.

Eu vos peço: não deixeis de lado o amor fraterno, mas ajudai-vos uns aos outros,
perseverando até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação.

Aqui somos vinte e, pela graça de Deus, todos ainda estão bem. Caso algum de nós
venha a morrer, peço não negligenciardes a sua família. Muitas coisas teria ainda a
dizer-vos, mas como posso exprimi-las em tinta e papel? Por isso vou terminar minha
carta. Aproximando-se para nós a luta, peço-vos finalmente que caminheis com
fidelidade, de modo que no céu nos possamos congratular. Deixo-vos aqui meu ósculo
de amor.


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