TABELA DOS DOS DIAS LITÚRGICOS DIAS LITÚRGICOS Segundo as normas universais sobre normas universais sobre o o oo ano ano Litúrgico LLLitúrgico e e ee o calendário, n.59 o calendário, n.59--61 --61
A precedência entre os dias litúrgicos, no que se refere à sua celebração, rege-se
unicamente pela tabela seguinte:
I
1. Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor.
2. Natal do Senhor, Epifania, Ascensão e Pentecostes.
Domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa.
Quarta-feira de Cinzas.
Dias da Semana Santa, de Segunda a Quinta-feira inclusive.
Dias dentro da oitava da Páscoa.
3. Solenidades do Senhor, da Bem-aventurada Virgem Maria e dos Santos inscritos no
Calendário geral.
Comemoração de todos os fiéis defuntos.
4. Solenidades próprias, a saber:
a) Solenidade do Padroeiro principal do lugar ou da cidade.
b)Solenidade da Dedicação e do aniversário de Dedicação da igreja própria.
c) Solenidade do Titular da igreja própria.
d)Solenidade do Titular,do Fundador, ou do Padroeiro principal da Ordem ou
Congregação.
II
5. Festas do Senhor inscritas no Calendário geral.
6. Domingos do Tempo do Natal e domingos do Tempo comum.
7. Festas da Bem-aventurada Virgem Maria e dos Santos do Calendário geral.
8. Festas próprias, a saber:
a) Festa do Padroeiro principal da diocese.
b)Festado aniversário de Dedicação da igreja catedral.
c) Festado Padroeiro principal da região ou província, da nação ou de um território mais
amplo.
d) Festa do Titular, do Fundador, do Padroeiro principal da Ordem ou Congregação e da
província religiosa, salvo o prescrito no n.4.
e) Outras festas próprias de uma Igreja.
f) Outras festas inscritas no Calendário de alguma diocese ou Ordem ou Congregação.
9. Os dias de semana do Advento, de 17 a 24 de dezembro inclusive.
Dias dentro da oitava do Natal.
Dias de semana da Quaresma. III
10. Memórias obrigatórias do calendário geral.
11. Memórias obrigatórias próprias, a saber:
a) Memórias do Padroeiro secundário do lugar, da diocese, da região ou província, da
nação, de um território mais amplo,da Ordem ou Congregação e da província religiosa.
b)Outras memórias obrigatórias próprias de uma Igreja.
c) Outras memórias obrigatórias inscritas no Calendário de uma Diocese, Ordem ou
Congregação.
12. Memórias facultativas, que podem contudo ser celebradas também nos dias de que fala o
n. 9, segundo o modo descrito nas Instruções sobre a Missa e o Ofício. Do mesmo modo, as
memórias obrigatórias, que costumam ocorrer nos dias de semana da Quaresma, poderão
ser celebradas como memórias facultativas.
13. Os dias de semana do Advento até 16 de dezembro inclusive. Os dias de semana do
Tempo do Natal, de 2 de janeiro até o sábado depois da Epifania.
Os dias de semana do Tempo Pascal, de segunda-feira depois da oitava da Páscoa até o
sábado antes de Pentecostes inclusive.
Os dias de semana do Tempo comum.
A OCORRÊNCIA E A CONCORRÊNCIA
DAS CELEBRAÇÕES
Se várias celebrações ocorrem no mesmo dia, celebra-se aquela que ocupa lugar superior na
tabela dos dias litúrgicos.
Entretanto, a solenidade impedida por um dia litúrgico que goze de precedência seja
transferida para o dia livre mais próximo, fora dos dias fixados na tabela de precedência,
nos n. 1-8, observado o que se prescreve no n. 5 das Normas do Ano Litúrgico. Omitem-se
nesse ano as outras celebrações.
Se no mesmo dia devem celebrar-se as Vésperas do Ofício corrente e as Vésperas do dia
seguinte, prevalecem as Vésperas da celebração que ocupa lugar superior na tabela dos dias
litúrgicos; em caso de igualdade, porém,celebram-se as Vésperas do dia corrente.
Do Tratado sobre o bem da paciência, de São Cipriano, bispo e mártir
(Nn. 13 et 15: CSEL 3,406-408) (Séc. III)
Esperamos o que não vemos
É este o preceito salvífico de nosso Senhor e Mestre: Quem perseverar até o fim, será salvo (Mt 10,22). E ainda: Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,31-32).
É preciso ter paciência e perseverar, irmãos caríssimos, para que, tendo sido introduzidos na esperança da verdade e da liberdade, possamos chegar à verdade e à liberdade. O fato de sermos cristãos exige que tenhamos fé e esperança, mas a paciência é necessária para que elas possam dar seus frutos.
Nós não buscamos a glória presente, mas a futura, como também ensina o Apóstolo Paulo: Já fomos salvos, mas na esperança. Ora, o objeto da esperança não é aquilo que se vê; como pode alguém esperar o que já vê? Mas se esperamos o que não vemos, é porque o estamos aguardando mediante a perseverança (Rm 8,24-25). A esperança e a paciência são necessárias para levarmos a bom termo o que começamos a ser e para conseguirmos aquilo que, tendo-nos sido apresentado por Deus, esperamos e acreditamos.
Noutro lugar, o mesmo Apóstolo ensina os justos, os que praticam o bem e os que acumulam para si tesouros no céu, na esperança da felicidade eterna, a serem também pacientes, dizendo: Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, principalmente aos irmãos na fé. Não desanimemos de fazer o bem, pois no tempo devido haveremos de colher, sem desânimo (Gl 6,10.9).
Ele recomenda a todos que não deixem de fazer o bem por falta de paciência; que ninguém, vencido ou desanimado pelas tentações, desista no meio do caminho do mérito e da glória, e venha a perder as boas obras já feitas, por não ter levado até o fim o que começou.
Finalmente, o Apóstolo, ao falar da caridade, une a ela a tolerância e a paciência. A caridade, diz ele, é paciente, é benigna; não é invejosa, não se ensoberbece, não se encoleriza, não suspeita mal; tudo ama, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Cor 13,4-5). Ensina-nos, portanto, que só a caridade pode permanecer, porque é capaz de tudo suportar.
E noutra passagem diz: Suportai-vos uns aos outros com amor; aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz (Ef 4,2b-3). Provou deste modo que só é possível conservar a união e a paz quando os irmãos se suportam mutuamente e guardam, mediante a paciência, o vínculo da concórdia.
Fonte:
Liturgia das Horas: Tempo do Advento,Sábado
Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo
(Cat. 15,1-3: PG 33,870-874) (Séc. IV)
As duas vindas de Cristo
Anunciamos a vinda de Cristo: não apenas a primeira, mas também a segunda,
muito mais gloriosa. Pois a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a
segunda manifestará a coroa da realeza divina.
muito mais gloriosa. Pois a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a
segunda manifestará a coroa da realeza divina.
Aliás, tudo o que concerne a nosso Senhor Jesus Cristo tem quase sempre uma
dupla dimensão. Houve um duplo nascimento: primeiro, ele nasceu de Deus,
antes dos séculos; depois, nasceu da Virgem, na plenitude dos tempos. Dupla descida:
uma, discreta como a chuva sobre a relva; outra, no esplendor, que se realizará no futuro.
dupla dimensão. Houve um duplo nascimento: primeiro, ele nasceu de Deus,
antes dos séculos; depois, nasceu da Virgem, na plenitude dos tempos. Dupla descida:
uma, discreta como a chuva sobre a relva; outra, no esplendor, que se realizará no futuro.
Na primeira vinda, ele foi envolto em faixas e reclinado num presépio; na segunda,
será revestido num manto de luz. Na primeira, ele suportou a cruz, sem recusar
a sua ignomínia; na segunda, virá cheio de glória, cercado de uma multidão de anjos.
será revestido num manto de luz. Na primeira, ele suportou a cruz, sem recusar
a sua ignomínia; na segunda, virá cheio de glória, cercado de uma multidão de anjos.
Não nos detemos, portanto, somente na primeira vinda, mas esperamos ainda,
ansiosamente, a segunda. E assim como dissemos na primeira: Bendito o que vem em
nome do Senhor (Mt 21,9), aclamaremos de novo, no momento de sua segunda vinda,
quando formos com os anjos ao seu encontro para adorá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor.
ansiosamente, a segunda. E assim como dissemos na primeira: Bendito o que vem em
nome do Senhor (Mt 21,9), aclamaremos de novo, no momento de sua segunda vinda,
quando formos com os anjos ao seu encontro para adorá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor.
Virá o Salvador, não para ser novamente julgado, mas para chamar a juízo aqueles que se
constituíram seus juízes. Ele, que ao ser julgado, guardara silêncio, lembrará as atrocidades
dos malfeitores que o levaram ao suplício da cruz, e lhes dirá: Eis o que fizestes e calei-me (Sl 49,21).
constituíram seus juízes. Ele, que ao ser julgado, guardara silêncio, lembrará as atrocidades
dos malfeitores que o levaram ao suplício da cruz, e lhes dirá: Eis o que fizestes e calei-me (Sl 49,21).
Naquele tempo ele veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e
doçura; mas, no fim dos tempos, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.
doçura; mas, no fim dos tempos, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.
O profeta Malaquias fala dessas duas vindas: Logo chegará ao
seu templo o Senhor que tentais encontrar (Ml 3,1). Eis uma vinda.
seu templo o Senhor que tentais encontrar (Ml 3,1). Eis uma vinda.
E prossegue, a respeito da outra: E o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o
Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe,
quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros;
e estará a postos, como para fazer derreter e purificar (Ml 3,1-3).
Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe,
quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros;
e estará a postos, como para fazer derreter e purificar (Ml 3,1-3).
Paulo também se refere a essas duas vindas quando escreve a Tito: A graça de Deus
se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a
impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando
a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo (Tt 2,11-13).
Vês como ele fala da primeira vinda, pela qual dá graças, e da segunda que esperamos?
se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a
impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando
a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo (Tt 2,11-13).
Vês como ele fala da primeira vinda, pela qual dá graças, e da segunda que esperamos?
Por isso, o símbolo da fé que professamos nos é agora transmitido, convidando-nos a crer
naquele que subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Nosso Senhor Jesus Cristo
virá portanto dos céus, virá glorioso no fim do mundo, no último dia. Dar-se-á a consumação do mundo,
e este mundo que foi criado será inteiramente renovado.
naquele que subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Nosso Senhor Jesus Cristo
virá portanto dos céus, virá glorioso no fim do mundo, no último dia. Dar-se-á a consumação do mundo,
e este mundo que foi criado será inteiramente renovado.
Fonte:
Liturgia das Horas: Tempo do Advento, 1° semana
Do Tratado “Refutação de todas as heresias”, de Santo Hipólito, presbítero
(Cap. 10, 33-34: PG 16, 3452-3453) (Séc. III)
O Verbo feito carne diviniza o homem
Não fundamentamos nossa fé em palavras sem sentido, nem nos deixamos arrastar pelos impulsos do coração ou persuadir pelo encanto de discursos eloqüentes. Nossa fé se fundamenta nas palavras pronunciadas pelo poder divino.
Estas palavras, Deus as confiou a seu Verbo que as pronunciou para afastar o homem da desobediência; não quis obrigá-lo à força, como a um escravo, mas chamou-o para uma decisão livre e responsável.
Esse Verbo, o Pai enviou à terra no fim dos tempos; não o queria mais pronunciado por meio dos profetas nem anunciado por meio de prefigurações obscuras, mas ordenou que se manifestasse de forma visível, a fim de que o mundo, ao vê-lo, pudesse salvar-se.
Sabemos que o Verbo assumiu um corpo no seio da Virgem e transformou o homem velho em uma nova criatura. Sabemos que ele se fez homem da nossa mesma substância. Se não fosse assim, em vão nos teria mandado imitá-lo como Mestre. De fato, se esse homem tivesse sido formado de outra substância, como poderia ordenar-me que fizesse as mesmas coisas que ele fez, a mim, frágil que sou por natureza? Como poderíamos então dizer que ele é bom e justo?
Para que não o julgássemos diferente de nós, suportou fadigas, quis ter fome e não recusou ter sede, dormiu para descansar, não rejeitou o sofrimento, submeteu-se à morte e manifestou a sua ressurreição. Em tudo isto, ofereceu sua própria humanidade como primícias, para que tu não desanimes no meio do sofrimento, mas, reconhecendo tua condição de homem, esperes também receber o que Deus lhe deu.
Quando contemplares Deus tal qual é, terás um corpo imortal e incorruptível, como a alma, e possuirás o reino dos céus, tu que, peregrinando na terra, conheceste o Rei celeste; viverás então na intimidade de Deus e serás herdeiro com Cristo.
Todos os males que suportaste sendo homem, Deus os permitiu precisamente porque és homem; mas tudo o que pertence a Deus, ele promete conceder-te quando fores divinizado e te tornares imortal. Conhece-te a ti mesmo, reconhecendo a Deus que te criou; pois conhecer a Deus e ser por ele conhecido é a sorte daquele que foi chamado por Deus.
Por conseguinte, não vos envolvais em contendas como inimigos, nem penseis em voltar atrás. Cristo é Deus acima de todas as coisas, ele que decidiu libertar os homens do pecado, renovando o velho homem que tinha criado à sua imagem desde o princípio, e manifestando nesta imagem renovada o amor que tem por ti. Se obedeceres aos seus mandamentos e por tua bondade te tornares imitador daquele que é o Bem supremo, serás semelhante a ele e ele te glorificará. Deus que tudo pode e tudo possui te divinizará para sua glória.
Fonte:
Liturgia das Horas: Tempo do Natal, Oitava do Natal
Dos Sermões de São Quodvultdeus, bispo
(Sermo 2 de Symbolo: PL 40,655) (Séc. V)
Ainda não falam e já proclamam Cristo
Nasceu um pequenino que é o grande Rei. Os magos chegam de longe e vêm adorar, ainda deitado no presépio, aquele que reina no céu e na terra. Ao anunciarem os magos o nascimento de um Rei, Herodes se perturba e, para não perder o seu reino, quer matar o recém-nascido. No entanto, se tivesse acreditado nele, poderia reinar com segurança nesta terra e para sempre na outra vida.
Por que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei? Ele não veio para te destronar, mas para vencer o demônio. Como não compreendes isso, tu te perturbas e te enfureces; e, para que não escape o único menino que procuras, tens a crueldade de matar tantos outros.
Nem as lágrimas das mães nem o lamento dos pais pela morte de seus filhos, nem os gritos e gemidos das crianças te comovem. Matas o corpo das crianças porque o medo matou o teu coração; e julgas que, se conseguires teu propósito, poderás viver muito tempo, quando precisamente é a própria Vida que queres matar.
Aquele que é a fonte da graça, pequenino e grande ao mesmo tempo, reclinado num presépio, apavora o teu trono. Por meio de ti, e sem que saibas, realiza os seus desígnios e liberta as almas do cativeiro do demônio. Recebe como filhos adotivos os filhos dos que eram seus inimigos.
Essas crianças morrem pelo Cristo, sem saberem, enquanto seus pais choram os mártires que morrem. Cristo faz suas legítimas testemunhas aqueles que ainda não falam. Eis como reina aquele que veio para reinar. Eis como já começa a conceder a liberdade aquele que veio para libertar, e a dar a salvação aquele que veio para salvar.
Tu, porém, Herodes, ignorando tudo isto, te perturbas e te enfureces; e enquanto te enfureces contra o Menino, já lhe prestas homenagem, sem o saberes. Ó imenso dom da graça! Que méritos tinham aquelas crianças para obterem tal vitória? Ainda não falam e já proclamam o Cristo. Não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória.
Fonte:
Liturgia das Horas: Tempo do Natal, Oitava do Natal
Dos Tratados sobre a Primeira Carta de São João, de Santo Agostinho, bispo
(Tract. 1,1.3: PL 35, 1978.1980) (Séc. V)
A vida se manifestou em nossa carne
O que era desde o princípio, o que nós ouvimos, o que vimos com os nossos olhos e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida (1Jo 1,1). Quem poderia tocar a Palavra com suas mãos, a não ser porque a Palavra se fez carne e habitou entre nós? (Jo 1,14).
A Palavra que se fez carne para ser tocada com as mãos, começou a ser carne no seio da Virgem Maria; mas não foi então que a Palavra começou a existir porque, diz João, ela era desde o princípio. Vede como sua Carta é confirmada pelas palavras do seu Evangelho, que acabais de escutar: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus (Jo 1,1).
Alguns talvez julguem que a expressão Palavra da Vida designe de modo geral a Cristo e não o próprio Corpo de Cristo que foi tocado pelas mãos. Reparai no que vem em seguida: E a Vida manifestou-se (1Jo 1,2). Por conseguinte, Cristo é a Palavra da Vida.
E como se manifestou esta Vida? Ela existia desde o início, mas não tinha se manifestado aos homens; manifestara-se aos anjos que a contemplavam e se alimentavam dela como de seu pão. E o que diz a Escritura? O homem se nutriu do pão dos anjos (Sl 77,25).
Portanto, a Vida se manifestou na carne, para que, nesta manifestação, aquilo que só o coração podia ver, fosse visto também com os olhos, e desta forma curasse os corações. De fato, o Verbo só pode ser visto com o coração, ao passo que a carne pode ser vista também com os olhos corporais. Éramos capazes de ver a carne, mas não éramos capazes de ver a Palavra. Por isso, a Palavra se fez carne que nós podemos ver, para curar em nós o que nos torna capazes de vê-la.
E somos testemunhas, diz João, e vos anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós (1Jo 1,2), isto é, que se manifestou entre nós ou, falando mais claramente, nos foi manifestada.
Isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos (1Jo 1,3). Prestai atenção: Isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos. Eles viram o próprio Senhor presente na carne, ouviram da boca do Senhor suas palavras e no-las anunciaram. E nós ouvimos certamente, mas não vimos.
Somos, por isso, menos felizes do que eles que viram e ouviram? Por que então acrescenta: Para que estejais em comunhão conosco? (1Jo 1,3). Eles viram, nós não vimos e, contudo, estamos em comunhão com eles porque temos uma fé comum.
E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Nós vos escrevemos estas coisas, diz João, para que a vossa alegria fique completa (1Jo 1,4). Essa alegria completa encontra-se na mesma comunhão, na mesma caridade, na mesma unidade.
Fonte:
Liturgia das Horas: Tempo de Natal, Oitavas de Natal
Dos sermões de São Fulgêncio de Ruspe, bispo
(Sermo 3,1-3.5-6:CCL 91 A, 905-909) (Séc. VI)
As armas da caridade
Ontem, celebrávamos o nascimento temporal de nosso Rei eterno; hoje
celebramos o martírio triunfal do seu soldado.
celebramos o martírio triunfal do seu soldado.
Ontem o nosso Rei, revestido de nossa carne e saindo da morada de um seio
virginal, dignou-se visitar o mundo; hoje o soldado, deixando a tenda de seu
corpo, parte vitorioso para o céu.
virginal, dignou-se visitar o mundo; hoje o soldado, deixando a tenda de seu
corpo, parte vitorioso para o céu.
O nosso Rei, o Altíssimo, veio por nós na humildade, mas não pôde vir de
mãos vazias. Trouxe para seus soldados um grande dom, que não apenas os
enriqueceu imensamente, mas deu-lhes uma força invencível no combate:
trouxe o dom da caridade que leva os homens à comunhão com Deus.
Ao repartir tão liberalmente o que trouxera, nem por isso ficou mais pobre:
enriquecendo do modo admirável a pobreza dos seus fiéis, ele conservou a
plenitude dos seus tesouros inesgotáveis.
Assim, a caridade que fez Cristo descer do céu à terra, elevou Estevão da
terra ao céu. A caridade de que o Rei dera o exemplo logo refulgiu no
soldado.
Estêvão, para alcançar a coroa que seu nome significa, tinha por arma a
caridade e com ela vencia em toda parte. Por amor a Deus não recuou
perante a hostilidade dos judeus, por amor ao próximo intercedeu por
aqueles que o apedrejavam. Por esta caridade, repreendia os que estavam no
erro para que se emendassem, por caridade orava pelos que o apedrejavam
para que não fossem punidos.
Fortificado pela caridade, venceu Saulo, enfurecido e cruel, e mereceu ter
como companheiro no céu aquele que tivera como perseguidor na terra. Sua
santa e incansável caridade queria conquistar pela oração, a quem não
pudera converter pelas admoestações.
E agora Paulo se alegra com Estêvão, com Estêvão frui da glória de Cristo,
com Estêvão exulta, com Estêvão reina. Aonde Estêvão chegou primeiro,
martirizado pelas pedras de Paulo, chegou depois Paulo, ajudado pelas
orações de Estevão.
É esta a verdadeira vida, meus irmãos, em que Paulo não se envergonha mais
da morte de Estêvão, mas Estevão se alegra pela companhia de Paulo, porque
em ambos triunfa a caridade. Em Estêvão, a caridade venceu a crueldade
dos perseguidores, em Paulo, cobriu uma multidão de pecados; em ambos, a
caridade mereceu a posse do reino dos céus.
A caridade é a fonte e origem de todos os bens, é a mais poderosa defesa, o
caminho que conduz ao céu. Quem caminha na caridade não pode errar nem
temer. Ela dirige, protege, leva a bom termo.
Portanto, meus irmãos, já que o Cristo nos deu a escada da caridade pela
qual todo cristão pode subir ao céu, conservai fielmente a caridade
verdadeira, exercitai-a uns para com os outros e, subindo por ela, progredi
sempre mais no caminho da perfeição.
Fonte:
Liturgia das Horas: Tempo do Natal,Oitavas de Natal
Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermo 1 in Nativitate Domini, 1-3; PL 54,190-193) (Séc. V)
Toma consciência, ó Cristão, da tua dignidade
Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com promessa da eternidade.
Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque nosso senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida.
Quando chegou a plenitude dos tempos, fixada pelos insondáveis desígnios divinos, o Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com seu criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que antes vencera.
Eis por que, no nascimento do Senhor, os anjos cantam jubilosos: Glória a deus nas alturas; e anunciam: Paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14). Eles vêem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo. Diante dessa obra inexprimível do amor divino, como não devem alegrar-se os homens, em sua pequenez, quando os anjos, em sua grandeza, assim se rejubilam?
Amados filhos, demos graças a Deus Pai, por seu Filho, no Espírito Santo; pois, na imensa misericórdia com que nos amou, compadeceu-se de nós. E quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo (Ef 2,5) para que fôssemos nele uma nova criação, nova obra de suas mãos.
Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne.
Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que cabeça e de corpo és membro. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus.
Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de cristo.
Fonte:
Liturgia da Horas
Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo
(Oratio in sancta Lumina, 14-16. 20:PG 36, 350-351. 354. 358-359)
(Séc. IV)
O batismo de Cristo
Cristo é iluminado no batismo, recebemos com ele a luz; Cristo é batizado, desçamos com ele às águas para com ele subirmos.
João batiza e Jesus se aproxima; talvez para santificar igualmente aquele que o batiza e, sem dúvida, para sepultar nas águas o velho Adão. Antes de nós, e por nossa causa, ele que é Espírito e carne santificou as águas do Jordão, para assim nos iniciar nos sacramentos mediante o Espírito e a água.
João reluta, Jesus insiste. Eu é que devo ser batizado por ti (cf. Mt 3,14), diz a lâmpada ao Sol, a voz à Palavra, o amigo ao Esposo, diz o maior entre todos os nascidos de mulher ao Primogênito de toda criatura, aquele que estremecera de alegria no seio materno ao que fora adorado no seio de sua Mãe, o que era e seria precursor ao que já tinha vindo e de novo há de vir. Eu é que devo ser batizado por ti. Podia ainda acrescentar: e por causa de ti. Pois sabia que ia receber o batismo de sangue ou que, como Pedro, não lhe seriam apenas lavados os pés.
Jesus sai das águas, elevando consigo o mundo que estava submerso, e vê abrirem-se os céus de par em par, que Adão tinha fechado para si e sua posteridade, assim como o paraíso lhe fora fechado por uma espada de fogo.
O Espírito, acorrendo àquele que lhe é igual, dá testemunho da sua divindade. Vem do céu uma voz, pois também vinha do céu aquele de quem se dava testemunho. E ao mostrar-se na forma corporal de uma pomba, o Espírito glorifica o corpo de Cristo, já que este, por sua união com a divindade, é o corpo de Deus. De modo semelhante, muitos séculos antes, uma pomba anunciara o fim do dilúvio.
O Espírito, acorrendo àquele que lhe é igual, dá testemunho da sua divindade. Vem do céu uma voz, pois também vinha do céu aquele de quem se dava testemunho. E ao mostrar-se na forma corporal de uma pomba, o Espírito glorifica o corpo de Cristo, já que este, por sua união com a divindade, é o corpo de Deus. De modo semelhante, muitos séculos antes, uma pomba anunciara o fim do dilúvio.
Veneremos hoje o batismo de Cristo e celebremos dignamente esta festa.
Permanecei inteiramente puros e purificai-vos sempre mais. Nada agrada tanto a Deus quanto o arrependimento e a salvação do homem, para quem se destinam todas as suas palavras e mistérios. Sede como luzes no mundo, isto é, como uma força vivificante para os outros homens. Permanecendo como luzes perfeitas diante da grande luz, sereis inundados pelo esplendor dessa luz que brilha no céu e iluminados com maior pureza e fulgor pela Trindade. Dela acabastes de receber, embora não em plenitude, o único raio que procede da única Divindade, em Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.
Permanecei inteiramente puros e purificai-vos sempre mais. Nada agrada tanto a Deus quanto o arrependimento e a salvação do homem, para quem se destinam todas as suas palavras e mistérios. Sede como luzes no mundo, isto é, como uma força vivificante para os outros homens. Permanecendo como luzes perfeitas diante da grande luz, sereis inundados pelo esplendor dessa luz que brilha no céu e iluminados com maior pureza e fulgor pela Trindade. Dela acabastes de receber, embora não em plenitude, o único raio que procede da única Divindade, em Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.
Fonte:
Liturgia das Horas
Da Carta a Proba, de Santo Agostinho, bispo
(Ep.130,14,25-26: CSEL 44,68-71) (Séc.V)
Não sabemos pedir o que nos convém
Talvez ainda indagues por que o Apóstolo disse: Não sabemos pedir o que nos convém (Rm
8,26) . Pois de modo algum se pode crer que ele ou aqueles a quem dizia isto ignorassem a
oração dominical.
O Apóstolo não se excluiu desta ignorância. Talvez não tivesse conhecido como convinha
orar, quando pela grandeza das revelações lhe foi dado um espinho na carne, um anjo de
Satanás para esbofeteá-lo. Por este motivo rogou por três vezes ao Senhor que o livrasse e,
na verdade, não sabia orar o que convinha.Por fim ouviu a resposta de Deus por que não
atendia ao que lhe pedia tão grande homem e por que não lhe era conveniente: Basta-te a
minha graça, porque a força se perfaz na fraqueza (2Cor 12,9).
Portanto, nas tribulações que tanto podem ser proveitosas quanto prejudiciais, não sabemos
o que pedir como convém. No entanto, por serem duras, desagradáveis, contrárias ao modo
de sentir de nossa fraqueza, pelo anseio humano universal, rogamos que sejam afastadas de
nós. Contudo temos de ter confiança no Senhor, nosso Deus, e, se não as retira, não
pensemos logo que nos abandona, mas antes que, por suportar generosamente os males,
podemos esperar maiores bens. Assim a força se perfaz na fraqueza.
Estas coisas foram escritas para que não aconteça que alguém se tenha em alta conta, se for
atendido quando pede com impaciência algo que lhe seria mais proveitoso não alcançar. Ou
desanime e desespere da divina misericórdia, se não for atendido, quando talvez peça
aquilo que lhe será causa de mais atrozes aflições ou o corromperá pela prosperidade e o
fará perder-se inteiramente. Em todas estas coisas não sabemos orar como convém.
Por este motivo, se nos acontece o contrário do que pedimos, não há que duvidar ser muito
melhor suportar com paciência e, dando graças por tudo, porque foi a vontade de Deus que
se fez e não a nossa. Pois o próprio Mediador nos deu exemplo ao dizer: Pai, se for
possível, afaste-se de mim este cálice, mas logo, mudando em si a vontade humana
assumida pela encarnação, acrescentou: Porém não o que eu quero, mas o que tu queres,
Pai (Mt 26,39). Por isto, com toda a razão, pela obediência de um, muitos foram
constituídos justos (cf. Rm 5,19).
Fonte:
Liturgia das Horas
Do Discurso contra os gentios, de Santo Atanásio, bispo
Nn.40-42: PG25,79-83) (Séc.IV)
O Verbo do Pai tudo orna, dispõe e contém
O Pai santíssimo de Cristo – sem comparações mais excelente do que toda a criatura –
como ótimo criador, tudo governa, dispõe e faz convenientemente o que lhe parece
justo, por sua sabedoria e por seu Verbo, Cristo, nosso Senhor e Salvador. Assim é bom
que tudo tenha sido e venha a ser feito como vemos. Que ele o tenha querido assim,
ninguém pode duvidar. Porque, se o movimento dos seres criados se fizesse
desordenadamente e o mundo girasse ao acaso, com toda a razão se negaria crédito ao
que declaramos. Mas, se com medida, sabedoria e ciência o mundo foi criado e
enriquecido de toda beleza, não há como fugir que este criador e aperfeiçoador é o
próprio Verbo de Deus.
Afirmo que o Verbo do Deus do universo e de todo o bem é o Deus vivo e eficaz que
existe por si próprio. Distinto de todo o criado, ele é o próprio e único Verbo do Pai de
bondade, por cuja providência o mundo inteiro, por ele feito, é iluminado. Ele, que é o
bom Verbo do bom Pai, estabeleceu a ordem de todas as coisas, uniu entre si os
contrários, compondo assim grande harmonia. Este único e unigênito é Deus: a bondade
que procede do Pai, como de fonte do bem, e adorna, dispõe e mantém todo o universo.
Aquele que por seu eterno Verbo tudo fez, fazendo existir as criaturas cada qual
conforme a própria natureza, não permitiu que elas se movessem arbitrariamente, a fim
de que não retornassem ao nada; por isso, ele, que é o bem, por meio do seu Verbo,
Deus como ele, governa e conserva toda a criação. Deste modo, a criação, iluminada
pelo governo, providência e administração do Verbo, pode permanecer firme e manter-
se coesa. Portanto, a criação, obra do Verbo do Pai – Verbo que é o próprio ser – dele
participa e é por ele auxiliada, a fim de não cessar de existir, o que aconteceria, caso não
fosse guardada pelo Verbo, que é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda
criatura. Por ele e nele tudo existe, tanto as coisas visíveis quanto as invisíveis. Ele é
também a cabeça da Igreja, como ensinam os ministros da verdade nas Sagradas
Escrituras.
Por conseguinte, este todo-poderoso e santíssimo Verbo do Pai, penetrando em tudo,
desdobra por toda a parte as suas forças, e ilumina todas as coisas visíveis e invisíveis.
Em si mesmo contém e abraça todas, de modo que não deixa nada alheio a seu poder,
mas em tudo e por tudo, a cada um em particular e a todos em conjunto concede a vida e
a proteção.
Fonte:
Liturgia das Horas
Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo
Livr.4,6,3.5.7:SCh100,442.446.448-454) (Séc.I)
A manifestação do Filho é o conhecimento do Pai
Ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, sem o Filho que o revela.
Também não se conhece o Filho sem a vontade do Pai. O Filho faz a vontade do Pai,
pois o Pai o envia. O Filho é enviado e vem a nós. Assim o Pai, que é para nós invisível
e incognoscível, torna-se conhecido por seu próprio Verbo. Ora, só o Pai conhece seu
Verbo, como o manifestou o Senhor. Por isto o Filho nos leva ao conhecimento do Pai
mediante a sua própria encarnação. Com efeito, a manifestação do Filho é o
conhecimento do Pai. Na verdade, tudo nos é revelado pelo Verbo.
O Pai revelou o Filho para se dar a conhecer a todos por meio dele. Mais ainda: a fim de
acolher, em toda justiça, para a ressurreição eterna, os que nele crêem. Crer nele é viver
segundo sua vontade.
De fato, o Verbo já revela o Deus criador pela própria criação; pelo mundo, o Senhor
que o construiu; pela criatura plasmada, o artífice que a plasmou; e pelo Filho, o Pai que
o gerou. Destas coisas todos falam do mesmo modo, mas não crêem todos do mesmo
modo. Pela lei e os profetas, o Verbo, igualmente, anunciava-se a si e ao Pai. Todo o
povo do mesmo modo o ouviu, mas não creram todos do mesmo modo. Pelo Verbo,
tornado visível e palpável, o Pai se revelou, embora nem todos cressem nele do mesmo
modo. Todos, porém, viram o Pai no Filho. A realidade invisível que se manifestava no
Filho era o Pai, e a realidade visível na qual o Pai se revelou era o Filho.
O Filho tudo perfaz do princípio ao fim para o Pai, e sem ele ninguém pode conhecer a
Deus. O conhecimento do Pai é o Filho. O conhecimento do Filho pertence ao Pai e é
revelado pelo Filho. Por este motivo, o Senhor dizia: Ninguém conhece o Filho a não
ser o Pai; nem o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho revelar. Revelar não se
refere apenas ao futuro como se o Verbo só tivesse começado a revelar o Pai quando
nasceu de Maria. De fato, o Verbo se encontra universalmente e em todo o tempo. No
início, sendo o Filho presente à sua criatura, ele revela o Pai a todos a quem o Pai quer,
quando quer e como quer. Em tudo e por tudo, há um só Deus, o Pai, e um só Verbo, o
Filho, e um só Espírito e uma única salvação para todos os que nele crêem.
Fonte:
Liturgia das Horas
Da Regra mais longa, de São Basílio Magno, bispo
(Resp. 2,1: PG 31,908-910) (Séc.IV)
Possuímos inata capacidade de amar
O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de
outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores.
Assim – ou melhor, com muito mais razão –, não se encontra o amor de Deus na
disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão
foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a
inclinação de amar. Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma
conhecimento desta força, apresando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com
sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.
Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de
Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade
dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.
Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr
em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como
se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos
mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida
virtuosa; no entanto, mal empregadas, cairemos no pecado.
Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que
ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o
desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito
do Senhor.
O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já
possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há
necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De
fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista,
algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser
necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande
amizade por nossos benfeitores.
O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa
pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que
desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de
toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na
verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus.
Fonte:
Liturgia das Horas
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