Dos Sermões de São Leão Magno, papa


(Sermo 92,1.2.3:PL 54,454-455) (Séc.V)
 Qual a obra, tal o ganho

O Senhor diz: Se vossa justiça não superar de muito a dos escribas e fariseus, não
entrareis no reino dos céus (Mt 5,20). Como será superior à deles, a não ser que a
misericórdia esteja acima da condenação? (cf. Tg 2,13). E que de mais justo, de mais
digno do que a criatura, feita à imagem e semelhança de Deus, imitar seu criador? A ele
que decidiu a renovação e santificação dos fiéis pela remissão dos pecados para que,
afastado o rigor do castigo e acabada a pena, recupere o réu a inocência, e o fim dos crimes
seja a origem das virtudes?

Não é pela rejeição da lei que a justiça cristã pode superar a dos escribas e fariseus, mas
recusando sua compreensão carnal. Por exemplo, o Senhor deu aos discípulos a regra do
jejum. Quando jejuardes, não fiqueis tristes como os hipócritas. Ficam com o rosto abatido
para mostrar aos homens que estão jejuando. Na verdade, eu vos digo: já receberam sua
recompensa (Mt 6,16). Que recompensa? Não é o elogio dos outros? Por causa desta
ambição, muitos ostentam a aparência da justiça: cobiça-se a ilusão da fama, de modo que a
iniqüidade, conhecida ocultamente, se alegre com a boa opinião enganadora.

Para quem ama a Deus, basta-lhe agradar a quem ama; nenhuma recompensa maior espera
do que o próprio amor. Assim a caridade vem de Deus porque Deus mesmo é a caridade.
Quem é piedoso e casto alegra-se por vivê-la de tal modo que não deseja coisa alguma,
exceto a Deus, para seu regozijo. É inteiramente verdade aquilo que o Senhor diz: Onde
está teu tesouro aí está teu coração (Mt 6,21). O tesouro do homem não é o acúmulo de
seus frutos e a soma de seus trabalhos? Aquilo que se semeou, isto se colherá (Gl 6,7) , e
qual o trabalho, tal o ganho; e onde põe o seu prazer, aí se prende o coração. Mas, por haver
muitos gêneros de riquezas, há matérias diferentes para o gozo, logo, tesouro é para cada
qual a inclinação de seu desejo: se feito de apetites terrenos, sua participação não fará
ninguém feliz, mas desgraçado.

Ao contrário, aqueles que têm gosto pelas coisas do alto e não terenas não se preocupam
com as perecíveis mas com as eternas, possuem encerradas em si riquezas incorruptíveis,
das que disse o Profeta: Chegaram nosso tesouro e salvação, sabedoria, disciplina e
piedade da parte do Senhor; são estes os tesouros da justiça (Is 33,6 Vulg.) pelos quais,
com o auxílio de Deus, até os bens da terra serão transferidos para os céus. De fato, são
muitos que usam como meios de misericórdia as riquezas recebidas de outros pelo direito
ou adquiridas de outro modo. Distribuindo para sustento dos pobres aquilo que lhes sobra,
ajuntam para si riquezas que não podem ser perdidas; o que reservaram para esmolas não
está sujeito a nenhuma perda. Com justiça, então, eles mantêm seu coração onde está seu
tesouro; porque a maior felicidade consiste em trabalhar para que cresçam estas riquezas,
sem temor de perdê-las.

Fonte:

Liturgia das Horas

Papa diz que não havia mula nem boi no nascimento de Cristo Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/papa-diz-que-nao-havia-mula-nem-boi-no-nascimento-de-cristo-6785157#ixzz2CzEUheTi © 1996 - 2012. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.


ROMA - Não havia mula nem boi na Belém de Jesus, e provavelmente a estrela que aparece nas parábolas sobre o nascimento de Cristo era uma supernova. Essas são algumas das considerações do Papa Bento XVI em seu novo livro, “A infância de Jesus”, que começa a ser vendido nesta quarta-feira em 50 países.
No livro, o terceiro volume que o Papa dedica à figura de Cristo, surge uma questão delicada e crucial para os católicos: Jesus fora concebido por obra e graça do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria? Bento XVI atesta: “Sim, sem reservas”. Mas o Pontífice tira a razão de Santo Agostinho, que escreveu que Maria fez voto de castidade e instruiu José a protegê-la. Segundo Bento XVI, esta reconstrução dos acontecimentos “está fora do mundo judaico na época do nascimento de Jesus”.
As ideias do Papa, respeitado teólogo alemão, vêm com detalhes. Como explica no terceiro capítulo, dedicado ao nascimento de Jesus, a Virgem envolveu seu filho em panos como faria qualquer outra mãe naquelas circunstâncias, isto é, com amor mas “sem sentimentalismo”. É a tradição, diz ele, que põe a literatura no assunto, alocando na cena uma manjedoura - representação do altar - e algumas gazes para envolver o bebê - uma antecipação do momento de sua morte.
Assim, o Papa retira os detalhes da cena - “no presépio não havia animais” - e, por sua vez, garante a veracidade do cerne da questão: o nascimento de Jesus não é um mito, mas uma realidade: “História, história real, que aconteceu, história interpretada e compreendida com base na palavra de Deus”.
Tão certa, acrescentou o Papa, quanto a virgindade de Maria.
“Uma mulher corajosa”, escreve Bento XVI, “que, inclusive diante do inédito (o anúncio do Anjo) manteve o autocontrole. É uma mulher de grande interior, que mantém juntos o coração e a razão e tenta entender o contexto, o conjunto da mensagem de Deus”.


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Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo


Sermo 25,7-8: PL 46,937-938)
(Séc.V)

Aquela que acreditou em virtude da fé,
também pela fé concebeu

Prestai atenção, rogo-vos, naquilo que Cristo Senhor diz, estendendo a mão para seus
discípulos: Eis minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de meu Pai que me enviou, este
é meu irmão, irmã e mãe (Mt 12,49-50). Acaso não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que
creu pela fé, pela fé concebeu, foi escolhida dentre os homens para que dela nos nascesse a
salvação e que foi criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado? Sim! Ela o fez! Santa
Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isto mais valeu para ela ser discípula de Cristo do
que mãe de Cristo; maior felicidade gozou em ser discípula do que mãe de Cristo. Assim Maria
era feliz porque, já antes de dar à luz o Mestre, trazia-o na mente.

Vede se não é assim como digo. O Senhor passava acompanhado pelas turbas, fazendo milagres
divinos, quando certa mulher exclamou: Bem-aventurado o seio que te trouxe. Feliz o ventre
que te trouxe! (Lc 11,27) O Senhor, para que não se buscasse a felicidade na carne, que
respondeu então? Muito mais felizes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lc 11,28).
Por conseguinte, também aqui é Maria feliz, porque ouviu a palavra de Deus e a guardou.
Guardou a verdade na mente mais do que a carne no seio. Verdade, Cristo; carne, Cristo; a
verdade-Cristo na mente de Maria; a carne-Cristo no seio de Maria. É maior o que está na
mente do que o trazido no seio.

Santa Maria, feliz Maria! Contudo, a Igreja é maior que a Virgem Maria. Por quê? Porque
Maria é porção da Igreja, membro santo, membro excelente, membro supereminente, mas
membro do corpo total. Se ela pertence ao corpo total, logo é maior o corpo que o membro. A
cabeça é o Senhor; e o Cristo total, é a cabeça e o corpo. Que direi? Temos cabeça divina,
temos Deus por cabeça!

Portanto, irmãos, dai atenção avós mesmos. Também vós sois membros de Cristo, também vós
sois corpo de Cristo. Vede de que modo o sois. Diz: Eis minha mãe e meus irmãos (Mt 12,49).
Como sereis mãe de Cristo? Todo aquele que ouve e faz a vontade de meu Pai que está nos
céus, este é meu irmão e irmã e mãe (cf. Mt 12,50). Pensai: entendo irmão, entendo irmã; é
uma só a herança, e é essa a misericórdia de Cristo que, sendo único, não quis ficar sozinho;
quis que fôssemos herdeiros do Pai, co-herdeiros seus.

Fonte:

Liturgia das Horas

Da Encíclica Ecclesiam Dei, de Pio XI, papa


(AAS 15[1923], 573.576-577) (Séc.XX)

Derramou o seu sangue pela unidade da Igreja

A Igreja de Deus por admirável desígnio foi constituída de forma a ser, na plenitude dos
tempos, semelhante a imensa família, abraçando a totalidade do gênero humano; e, por dom de
Deus, sabemos ser ela visível não só por suas notas principais, como também pela unidade
universal.

De fato, Cristo Senhor não apenas confiou somente aos apóstolos o dom que ele próprio
recebera do Pai, ao dizer: Todo o poder me foi dado no céu e na terra; ide, pois, ensinai a todos
os povos (Mt 28,18-19); mas também quis que o grupo dos apóstolos fosse em sumo grau um
colégio só, duplamente ligado por estreito vínculo: intrinsecamente pela mesma fé e caridade,
infundida em nossos corações pelo Espírito Santo(cf. Rm 5,5); extrinsecamente, pelo governo
de um só sobre todos, ao entregar o principado a Pedro qual perpétuo princípio e visível
fundamento da unidade.

Para que se mantivesse para sempre esta unidade e concórdia, Deus de suma providência
consagrou-a com o sinete da santidade e do martírio.

Este grande louvor obteve-o o arcebispo de Polock, Josafá, de rito eslavônio oriental; com toda
a razão o saudamos como honra insigne e coluna dos eslavos orientais. Com efeito, mal se
encontra quem tenha mais ilustrado o nome deles ou servido melhor a sua salvação, que este
pastor e apóstolo, mormente ao derramar o sangue pela unidade da santa Igreja. Além disto,
sentindo-se divinamente impelido à reintegração universal na unidade santa, compreendeu que
a melhor contribuição a dar seria guardar o rito oriental eslavônio e o monaquismo basiliano na
unidade da Igreja universal.

Entrementes, solícito em primeiro lugar pela união de seus concidadãos com a cátedra de Pedro,
buscava por toda a parte com empenho todos os argumentos que pudessem promovê-la ou
confirmá-la. De modo especial, folheava assiduamente os livros litúrgicos usados pelos
orientais e pelos dissidentes, segundo as ordenações dos santos padres. Preparado tão
diligentemente, iniciou o trabalho de refazer a unidade, com tanto vigor e suavidade e com
tanto êxito, que pelos próprios adversários foi chamado de “raptor de almas”.

Fonte:

Liturgia das Horas


Da Homilia de umAutor do século segundo


(Cap.15,1-17,2: Funk 1,163-165)

Convertamo-nos a Deus que nos chamou

Penso não ter dado um conselho sem importância sobre a temperança; se alguém o seguir,
não se arrependerá e salvará a si mesmo e a mim que dei o conselho. Não é pequena a
recompensa de quem reconduzir à salvação o que se extraviara e se perdera. Podemos
retribuir a Deus, nosso criador, se aquele que dize o que escuta disser e escutar com fé e
caridade.

Permaneçamos, pois, justos e santos em nossa fé e oremos com confiança a Deus que
afirmou: Ainda estarás a falar e te responderei: Eis-me aqui (cf. Is 58,9).Esta palavra é
sinal de grande promessa; porque o Senhor se mostra mais pronto a dar do que o suplicante
a pedir. Participantes de tão grande benignidade, não invejemos um ao outro por ter
recebido bens tão excelentes. Estas palavras enchem de tanto gozo aos que as realizam,
quanto de reprovação aos rebeldes.

Irmãos, tendo assim uma boa ocasião de nos arrepender, enquanto temos tempo e há quem
nos receba, convertamo-nos para o Senhor que nos chamou. Se renunciamos a nossas
paixões desregradas, dominamos nossa alma. Negando-lhe seus desejos maus,
participaremos da misericórdia de Jesus. Sabei, pois, já vem o dia do juízo qual fornalha
ardente e parte dos céus se desfará (cf. Ml 3,19) e toda a terra será liquefeita como chumbo
ao fogo. Neste momento, ficarão patentes as obras dos homens, as ocultas e as manifestas.
Por isso, a esmola é boa como penitência pelo pecado. Melhor o jejum do que a oração; a
esmola mais que estes dois: a caridade cobre uma multidão de pecados (1Pd 4,8). Contudo,
a oração, feita de consciência pura, livra da morte. Feliz quem for reconhecido perfeito
nestas coisas; porque a esmola afasta o pecado.
Façamos, portanto, penitência de todo o coração, para que nenhum de nós pereça. Se temos
a obrigação de afastar os outros do culto dos ídolos e instruí-los, quanto mais devemos nos
empenhar na salvação de todas as almas, que já gozam do verdadeiro conhecimento de
Deus! Ajudemo-nos, então, um ao outro, de modo a reconduzir ao bem mesmo os fracos;
para salvarmo-nos todos, não só cada um se converta, mas exortemo-nos mutuamente.

Fonte:

Liturgia das Horas

Das Cartas de Sulpício Severo


Epist.3,6.9-10.11.14-17.21: SCh 133,336-344) (Séc.V)

Martinho soube com muita antecedência o dia da sua morte e comunicou aos irmãos estar
iminente a dissolução de seu corpo. Entretanto, surgiu a necessidade de ir à diocese de Candax,
pois os eclesiásticos desta Igreja estavam em discórdia. Desejando restabelecer a paz, embora
não ignorasse o fim de seus dias, não recusou partir, julgando que seria um excelente fecho de
suas obras deixar a Igreja em paz.

Demorou-se por algum tempo na aldeia e na Igreja aonde fora, e a paz voltou para os clérigos.
Quando já pensava em regressar ao mosteiro, começaram de repente a faltar-lhe as forças e,
chamando os irmãos, disse-lhes que ia morrer. Diante disto todos se entristeceram grandemente,
chorando e dizendo, a uma só voz: “Por que, pai, nos abandonas? A quem nos entregas,
desolados? Lobos vorazes invadem teu rebanho; quem, ferido o pastor, nos livrará de seus
dentes? Sabemos que desejas a Cristo, mas teus prêmios já estão seguros e não diminuirão com
o adiamento! Tem compaixão de nós, a quem desamparas!”

Comovido com estas lágrimas, ele que sempre possuíra entranhas de misericórdia, também
chorou, segundo contam. Voltando-se então para o Senhor, respondeu aos queixosos somente
com estas palavras: “Senhor, se ainda sou necessário a teu povo, não recuso o trabalho. Que se
faça tua vontade”.

Que homem incomparável! O trabalho não o vence, a morte não o vencerá! Ele, que não se
inclinava para nenhum dos lados, não temeria morrer e nem recusaria viver! No entanto, olhos e
mãos sempre erguidos para o céu, não abandonava a oração o espírito invicto; e quando os
presbíteros, que se haviam reunido junto dele, lhe pediram aliviar o frágil corpo, virando-o para
o lado, disse: “Deixai-me, deixai-me, irmãos, olhar para o céu de preferência à terra, para que o
espírito já se dirija ao caminho que o levará ao Senhor”. Dito isto, viu o demônio ali perto. “Por
que estás aqui, fera nefasta? Nada em mim, ó cruel, encontrarás! O seio de Abraão me acolhe”.

Com estas palavras entregou o espírito ao céu. Martinho, feliz, é recebido no seio de Abraão;
Martinho, pobre e humilde, entra rico no céu.

Fonte:
Liturgia das Horas 

Dos Sermões de São Leão Magno, papa


(Sermo4,1-2: PL 54,148-149) (Séc.V)

O serviço especial do nosso ministério

Embora seja a Igreja de Deus toda ela ordenada em distintos graus, de forma a subsistir a
integridade nos diversos membros do Corpo sagrado, todos, no entanto, no dizer do Apóstolo,
em Cristo, somos um (cf. Gl 3,28). Ninguém está tão separado do outro pelo ofício, que até a
mínima porção não pertença à conexão da cabeça. De fato, na unidade da fé e do batismo, nossa
sociedade não conhece discriminações e é geral a dignidade, segundo a palavra do santo
apóstolo Pedro: Quais pedras vivas deixai-vos edificar como casas espirituais, um sacerdócio
santo, para oferecer sacrifícios espirituais aceitos de Deus por Jesus Cristo (1Pd 2,5); e depois:
Vós, porém, raça eleita e sacerdócio real, nação santa, povo adquirido (1Pd 2,9).

A todos os renascidos em Cristo o sinal da cruz torna reis, a unção do Espírito Santo consagra
sacerdotes. Por isso, afora o especial serviço de nosso ministério, saibam todos os cristãos
espirituais e racionais serem consortes da raça real e do ofício sacerdotal. Que de mais régio do
que ser o espírito submisso a Deus, senhor de seu corpo? E que de mais sacerdotal do que
entregar ao Senhor a consciência pura e oferecer as hóstias imaculadas da piedade no altar do
coração? Sendo obra, pela graça de Deus, comum a todos, contudo, é piedoso e louvável de
vossa parte alegrar-vos, como honra vossa, pelo dia de nossa elevação. Que se celebre no Corpo
todo da Igreja o único sacramento do sacerdócio. Ao derramar-se o ungüento da consagração,
este sacramento derramou-se certamente com mais abundância nos membros superiores, mas
não com menor liberalidade nos inferiores.

Havendo assim, diletíssimos, pela participação neste dom, grande motivo de alegria em comum,
haverá mais verdadeira e mais excelente causa de júbilo, se não pararmos na consideração de
nossa pequenez. Com efeito muito mais vantajoso e mais digno será erguermos a força do
espírito para contemplar a glória do santíssimo apóstolo Pedro; e, de preferência, neste dia
venerar aquele que foi abundantemente regado pela fonte mesma dos carismas, para que, tendo
recebido sozinho, nada seja transmitido a alguém sem sua participação. O Verbo feito carne já
habitava entre nós. Cristo já se tinha entregado totalmente para restaurar o gênero humano.

Fonte:

Liturgia das Horas

Dos Sermões de São Cesário de Arles, bispo


(Sermo 229,1-3: CCL 104,905-908) (Séc.VI)

Pelo batismo fomos todos feitos templos de Deus

Celebramos hoje, irmãos diletos, com exultação jubilosa e com a bênção de Cristo, o natalício
deste templo. Nós, porém, é que temos de ser o verdadeiro templo vivo de Deus. Todavia é
com muita razão que os povos cristãos observam com fé a solenidade da Igreja-mãe, por quem
reconhecem ter nascido espiritualmente. Pois pelo primeiro nascimento éramos vasos da ira de
Deus; pelo segundo, foi-nos dado ser vasos da sua misericórdia. O primeiro nascimento lançou-
nos na morte; e o segundo, chamou-nos de novo à vida.

Todos nós, caríssimos, antes do batismo fomos templos do demônio; depois do batismo,
obtivemos ser templos de Cristo. E se meditarmos com atenção sobre a salvação de nossa alma,
reconheceremos que somos o verdadeiro templo vivo de Deus. Deus não habita somente em
construções de mão de homem (At 17,24) nem em casa feita de pedras e madeira; mas
principalmente na alma feita à imagem de Deus e edificada por mãos deste artífice. Desse modo
pôde São Paulo dizer: O templo de Deus, que sois vós, é santo (1Cor 3,17).

E já que Cristo, quando veio, expulsou o diabo de nossos corações para preparar um templo
para si, quanto pudermos, esforcemo-nos com seu auxílio para que em nós não sofra injúria por
nossas más obras. Pois quem proceder mal, faz injúria a Cristo. Como disse acima, antes que
Cristo nos redimisse, éramos casa do diabo; depois foi-nos dado ser casa de Deus. Deus se
dignou fazer de nós sua casa.

Por isso, diletos, se queremos celebrar na alegria o natalício do templo, não devemos destruir
em nós, pelas obras más, os templos vivos de Deus. E falarei de modo que todos compreendam:
cada vez que entramos na igreja, queremos encontrá-la tal como devemos dispor nossas almas.

Queres ver bem limpa a basílica? Não manches tua alma com as nódoas do pecado. Se desejas
que a basílica seja luminosa, também Deus quer que tua alma não esteja em trevas, mas que em
nós brilhe a luz das boas obras, como disse o Senhor, e seja glorificado aquele que está nos
céus. Do mesmo modo como tu entras nesta igreja, assim quer Deus entrar em tua alma,
conforme prometeu: E habitarei e andarei entre eles (cf. Lv 26,11.12).

Fonte:

Liturgia das Horas

Do Sermão proferido no último sínodo por São Carlos, bispo


(ActaEclesiae Mediolanensis, Mediolani 1599,1177-1178) (Séc.XVI)

Não sejas como quem diz uma coisa e faz outra

Somos todos fracos, confesso, mas o Senhor Deus nos entregou meios com que, se quisermos,
poderemos ser fortalecidos com facilidade. Tal sacerdote desejaria possuir uma vida íntegra,
que dele é exigida, ser continente e ter um comportamento angélico, como convém, mas não se
resolve a empregar estes meios: jejuar, orar, fugir das más conversas e de nocivas e perigosas
familiaridades.

Queixa-se de que, ao entrar no coro para a salmodia, ao dirigir-se para celebrar a missa, logo
mil pensamentos lhe assaltam a mente e o distraem de Deus. Mas, antes de ir ao coro ou à
missa, que fez na sacristia, como se preparou, que meios escolheu e empregou para fixar a
atenção?

Queres que te ensine a caminhar de virtude em virtude e como seres mais atento ao ofício,
ficando assim teu louvor mais aceito de Deus? Escuta o que digo. Se ao menos uma fagulha do
amor divino já se acendeu em ti, não a mostres logo, não a exponhas ao vento! Mantém
encoberta a lâmpada, para não se esfriar e perder o calor; isto é, foge, tanto quanto possível, das
distrações; fica recolhido junto de Deus, evita as conversas vãs.

Tua missão é pregar e ensinar? Estuda e entrega-te ao necessário para bem exerceres este
encargo. Faze, primeiro, por pregar com a vida e o comportamento. Não aconteça que, vendo-te
dizer uma coisa e fazer outra, zombem de tuas palavras, abanando a cabeça.

Exerces cura de almas? Não negligencies por isso o cuidado de ti mesmo, nem dês com tanta
liberalidade aos outros que nada sobre para ti. Com efeito, é preciso te lembrares das almas que
diriges, sem que isto te faça esquecer da tua.

Entendei, irmãos, nada mais necessário aos eclesiásticos do que a oração mental que precede,
acompanha e segue todos os nossos atos: Salmodiarei, diz o Profeta, e entenderei (cf. Sl 100,1
Vulg.). Se administras os sacramentos, ó irmão, medita no que fazes; se celebras a missa,
medita no que ofereces; se salmodias no coro, medita a quem e no que falas; se diriges as
almas, medita no sangue que as lavou e, assim, tudo o que é vosso se faça na caridade (1Cor
16,14). Deste modo, as dificuldades que encontramos todos os dias, inúmeras e necessárias
(para isto estamos aqui), serão vencidas com facilidade. Teremos, assim, a força de gerar Cristo
em nós e nos outros.

Fonte:

Liturgia das Horas

Do Livro sobre a morte de seu irmão Sátiro, de Santo Ambrósio, bispo


(Lib. 2,40.41.46.47.132.133:CSEL 73,270-274.323-324) (Séc.IV)

Morramos com Cristo, para vivermos com ele

Percebemos que a morte é lucro, e a vida, castigo. Por isso Paulo diz: Para mim, viver é Cristo,
e morrer é lucro (Fl 1,21). Como unir-se a Cristo, espírito da vida, senão pela morte do corpo?
Moramos então com ele, para com ele vivermos. Moramos diariamente no desejo e em ato,
para que, por esta segregação,nossa alma aprenda a se subtrair das concupiscências corporais.
Que ela, como se já estivesse nas alturas, onde não a alcançam os desejos terrenos, aceite a
imagem da morte para não incorrer no castigo da morte. Pois a lei da carne luta contra a lei do
espírito e apóia-se na lei do erro. Mas qual o remédio? Quem me libertará deste corpo de
morte? (Rm 7,24) A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor (cf. Rm 7,25s).

Temos o médico, usemos o remédio. Nosso remédio é a graça de Cristo, e corpo de morte é o
nosso corpo. Portanto afastemo-nos do corpo e não se afaste de nós o Cristo! Embora ainda no
corpo, não lhe obedeçamos, não abandonemos as leis naturais, mas prefiramos os dons da
graça.

E que mais? Pela morte de um só, o mundo foi remido. Cristo, se quisesse, poderia não ter
morrido. Não julgou, porém, dever fugir da morte como coisa inútil nem que nos salvaria
melhor, evitando a morte. Com efeito, sua morte é a vida de todos. Somos marcados com sua
morte, ao orar anunciamos sua morte, ao oferecer o sacrifício pregamos sua morte. Sua morte é
vitória, é sacramento, é a solenidade anual do mundo.

Não diremos ainda mais sobre a sua morte, se provarmos pelo exemplo divino que dela resultou
a imortalidade, e que a morte se redimiu a si mesma? Não se deve lastimar a morte, que é causa
da salvação do povo. Não se deve fugir da morte, que o Filho de Deus não rejeitou, e da qual
não fugiu.

Na verdade, a morte não era da natureza, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não
fez a morte, mas deu-a como remédio. Pela prevaricação, condenada ao trabalho de cada dia e
ao gemido intolerável, a vida dos homens começou a ser miserável. Era preciso dar fim aos
males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa
que benéfica, se não fosse promovida pela graça.

Por isso, tem o espírito de afastar-se logo da vida tortuosa e das nódoas do corpo terreno, e
lançar-se para a celeste assembléia, embora pertença só aos santos lá chegar, e cantar a Deus o
louvor, descrito no livro profético, que os citaristas cantam: Grandes e maravilhosas tuas
obras, Senhor Deus onipotente; justos e verdadeiros teus caminhos, ó Rei das nações! Quem
não temeria e não glorificaria teu nome? Porque só tu és santo; todos os povos irão e se
prostrarão diante de ti (Ap 15,3-4). Contemplar também, ó Jesus, tuas núpcias, nas quais a
esposa, ao canto jubiloso de todos, é conduzida da terra ao céu – a ti virá toda carne (Sl 64,3) –
já não mais manchada pelo mundo, mas unida ao espírito.

Fonte:

Liturgia das Horas

Dos Sermões de São Bernardo, abade


(Sermo2: Opera omnia, Edit.Cisterc. 5[1968],364-368) (Séc.XII)

Apresemo-nos ao encontro dos irmãos que nos esperam

Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes
importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste
glorifica? De que lhes servem nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens,
nem lhes vale nossa devoção. Se veneramos os Santos, sem dúvida nenhuma, o interesse é
nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo
veemente.

Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é o de gozarmos de sua
tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-
aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos
apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens,
de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A
assembléia dos primogênitos aguarda-nos e nós parecemos indiferentes! Os santos desejam-nos
e não fazemos caso; os justos esperam-nos e esquivamo-nos.

Animemo-nos, enfim, irmãos. Ressuscitemos com Cristo. Busquemos as realidades celestes.
Tenhamos gosto pelas coisas do alto. Desejemos aqueles que nos desejam. Apressemo-nos ao
encontro dos que nos aguardam. Antecipemo-nos pelos votos do coração aos que nos esperam.
Seja-nos um incentivo não só a companhia dos santos, mas também a sua felicidade.
Cobicemos com fervoroso empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é
má esta ambição nem de nenhum modo é perigosa a paixão pela glória deles.

O segundo desejo que brota em nós pela comemoração dos santos consiste em que Cristo, nossa
vida, tal como a eles, também apareça a nós e nós juntamente com ele apareçamos na glória.
Enquanto isto não sucede, nossa Cabeça não como é, mas como se fez por nós, se nos
apresenta. Isto é, não coroada de glória, mas com os espinhos de nossos pecados. É uma
vergonha fazer-se de membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos. Por enquanto a
púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Será sinal de honra quando Cristo vier e não
mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele
escondida nossa vida. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela refulgirão os membros
glorificados, quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da Cabeça,
que é ele mesmo.

Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito esperá-la
e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho a intercessão dos
santos. Assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua
intercessão.
Fonte:

Liturgia das Horas/