Relíquia

Uma relíquia (em Latim reliquiae) é um objecto preservado para efeitos de veneração no âmbito de uma religião, sendo normalmente uma peça associada a uma história religiosa. Podem ser objectos pessoais ou partes do corpo de um santo ou personagem sagrada. O culto das relíquias atingiu o seu máximo na religião budista e em várias denominações cristãs como o catolicismo. As relíquias são usualmente guardadas em receptáculos próprios chamados relicários. Na generalidade das religiões protestantes, a veneração de relíquias é desaprovada.

Durante a Idade Média, a expansão do cristianismo foi responsável pelo desenvolvimento de várias experiências de fé. No início dessa época, o relato sobre a devoção de vários cristãos inspirava a conversão religiosa de pessoas que tomavam tais histórias como comprovação da verdade cristã. Mais que uma simples narrativa admirável, tais histórias forneciam uma forma de proceder aos fiéis e determinava o aparecimento dos primeiros mártires e santos dessa religião.

Paralela à força desses relatos, os objetos e partes do corpo desses cristãos santificados transformavam-se em alvo de uma fervorosa veneração. Tais relíquias funcionavam como a grande comprovação material de todo o sofrimento e abnegação das personagens que figuravam o universo cristão. Com o passar do tempo, tais objetos sagrados atraíam milhares de peregrinos que, tocados pela apreciação de um item sacro, realizavam doações aos cofres da Igreja.

Do ponto de vista religioso, o contato (mesmo que visual) com a relíquia sagrada significava a garantia do alcance de uma graça ou a proteção espiritual de toda uma vida. Para as igrejas e cidades, a posse de uma relíquia operava como um elemento de proteção e boa sorte. Além disso, a peregrinação dos devotos significava o recolhimento de fartas arrecadações e o desenvolvimento do comércio local. Sem dúvida, uma experiência de crescimento econômico acompanhava tais atos de fé.

Com o tempo, a busca pelas relíquias chegava a organizar rituais de adoração que poderiam ser considerados hoje, bastante bizarros. No século XIV, por exemplo, um relicário contendo uma pequena quantidade do sangue de São Januário passou a se liquefazer de tempos em tempos. A transformação desse sangue, originalmente conservado em estado sólido, chamava a atenção de vários peregrinos devotos a essa antiga santidade do século IV.

Em meados de 1260, a tumba que alojava Santo Antônio de Pádua foi aberta depois de mais de trinta anos de sua morte. Ao examinar os restos mortais do santo, foi constatado que a sua língua permanecia praticamente intacta. Vista como uma prova de sua vida imaculada, a língua foi retirada de seu corpo e até hoje pode ser vista na Basílica de Santo Antônio de Pádua, na Itália.

Em 1083, um grupo de clérigos ordenou que o corpo de Santo Estevão da Hungria fosse desenterrado para que o seu processo de beatificação fosse inaugurado. Mais uma vez, ao observarem as condições gerais do corpo, notaram que a mão dele se encontrava em perfeito estado de conservação. Prontamente, a mão foi extraída para se transformar na mais importante relíquia da Basílica de Santo Estevão, localizada na cidade de Budapeste.

No século XIV, a morte de Santa Catarina de Siena provocou uma tenebrosa disputa pela posse de seu corpo. A solução encontrada foi realizar a extração de seu pé direito, que acabou parando na cidade de Veneza, e da cabeça, que ficou como principal relíquia de sua cidade natal. Atualmente, o resto de seu corpo está depositado na cidade de Roma, capital da Itália.

Se esses casos já se mostram peculiares, não devemos deixar de falar sobre as relíquias relacionadas à vida de Jesus Cristo. A busca por objetos que aparecem em sua biografia bíblica abriu portas para o surgimento de uma mesma relíquia em várias cidades europeias. O sangue de Cristo, o famoso sudário e prepúcio do Messias são alguns dos objetos de adoração e disputa que figuram tal história.

Para os mais críticos, essas situações comprovariam historicamente que os membros da Igreja se valeram de vários estratagemas para chamarem a atenção e os recursos de seus fiéis. Do ponto de vista histórico, consideramos que as relíquias marcaram uma experiência religiosa peculiar aos tempos medievais, expondo os vários lugares que o sagrado pode ocupar na vida das sociedades ao longo do tempo.

Classificação de relíquias

A Igreja Católica definiu a seguinte classificação de relíquias:

Primeira Classe, parte do corpo de um santo (ossos, unhas, cabelo, etc.)
Segunda Classe, objectos pessoais de um santo (roupa, um cajado, os pregos da cruz, etc.)
Terceira Classe, inclui pedaços de tecido que tocaram no corpo do santo, ou, no relicário onde uma porção do seu corpo está conservada.
É proibido, sob pena de excomunhão, vender, trocar ou exibir para fins lucrativos relíquias de primeira e segunda classe. As relíquias sao guardadas geralmente por pessoas da familia no caso de ser um objeto

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