ESTOICISMO E HELENIZAÇÃO DO CRISTIANISMO

Selvino José Assmann  Revista de Ciências Humanos

Embora sejadiscutívelapresentar uma relação de causalidade entre dois universos mentais e dois acontecimentos históricos, sucessivos ou não cronologicamente, é conveniente, talvez até necessário, para se compreender uma doutrina como o estoicismo, que se tenham em conta o momento e a circunstancia em que a mesma foi formulada. Isso ocorre mais ou menos concomitantemente com a introdução de uma religião oriental, o cristianismo, na civilização greco-romana. Não se pretende aqui discutir toda a filosofia estóica, em sua lógica, física e ética, nem descrever e distinguir os diferentes estoicismos, desde aquele ateniense de Zenão, no século IV a.C., até o romano, de Epíteto, Cicero, Sêneca e Marco Aurélio, por volta do séc. III d.C. Nem 6 propósito privilegiar a influência que as filosofias helenistas exerceram sobre o cristianismo, em vez de ressaltar, como se poderia, as mudanças sofridas pelo estoicismo romano com o avançodo pensamento cristão. Seguramente houve ambas as relações de causalidade, embora seja mais comum falar-se apenas da primeira.  

De qualquer forma que se vejam o estoicismo e a doutrina religiosa do cristianismo nascente, é impossível silenciar acerca das semelhançasentre eles. E isso é útil não só para entendermos melhor o importante fenômeno da expansão do cristianismo, e não de outras religiões orientais, mas também para percebermos que o cristianismo que conhecemos deve ser analisado também como forma de pensar e viver oriental que se expandiu mediante a ado- ção de elementos da cultura clássica antiga. E isso tem a ver com o debate, tão comum entre nós, a respeito do uso de Platão e Aristóteles pelo cristianismo e, depois, pelo pensamento moderno, esquecendo-nos, equivocada e frequentemente, de que já os estóicos atenienses posicionaram-se, nalguns aspectos, como ruptura com a Academia e com c) Liceu, e que exatamente naquilo em que os estóicos rompem com a filosofia anterior se aproximam de elementos doutrinários do cristianismo e também de aspectos do pensamento moderno. Para que se situem melhor as relações entre estoicismo e cristianismo, devemos considerar igualmente que é um equivoco identificar o cristianismo dos primeiros séculos com uma doutrina unitária e sólida. Sabe-se que há uma luta entre aqueles que pretendem mantê-lo vinculado à tradição oriental, não dualista, mas monista, como era a cultura semita - e os fundadores da Escola do Pórtico, Zendo e Crisipo, têm formação semita - e os que procuram, talvez com o objetivo de divulgar mais rápida e eficazmente a "encarná-la", revesti-la com a linguagem grecoromana. Assim, mesmo nos escritos vétero - e neotestanrientários - observam-se maneiras de ver diversas, e neste caso são decisivas, por exemplo, as distinções entre os quatro evangelhos au entre os escritos do apóstolo, filo-grego e semita, Paulo de Tarso. Podemos sustentar, de forma geral, que é com Paulo que se dá a passagem do cristianismo orientalizado para aquele helenizado, e que no embate, às vezesásperoe nunca tranquilo, entre os primeiros teólogos, acaba vencendo o cristianismo helenizado, sucessiva...

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